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terça-feira, 25 de agosto de 2020

O CAMINHO DA HUMANIDADE DEPOIS DA PANDEMIA

 



 

Por Marcelo Barros 

Muita gente se pergunta como será o caminho da sociedade depois da pandemia. A elite que se beneficia do modo como a sociedade está organizada imagina voltar quanto antes ao mundo de antes e a seus lucros maravilhosos. A quebra geral de empresas em todos os setores não indica que isso será tão fácil. Os que se beneficiam do capital produtivo sabem que o prejuízo maior da crise cai principalmente nas mãos dos assalariados e dos trabalhadores de base. Como sempre, os patrões sairão mais ricos. No entanto, esta mágica que sempre funcionou assim começa a dar sinais de cansaço. Outro tipo de capital que é o financeiro continua garantindo aos bancos e aos que operam em bolsas de valores os lucros possíveis. Entretanto, dificilmente serão os 400% de lucro aos quais estavam habituados antes da pandemia. Quanto ao que hoje se chama de capital de rapina, isso é, os que ganham da grilagem de terras no Mato Grosso e na Amazônia, os que exploram trabalho escravo e invadem terras indígenas e quilombolas estes continuam a apoiar o atual governo federal porque este lhes garante liberdade e espaço de ação. “Pena que índios, negros e quilombolas sejam ruins até pra morrer”, pensa em voz alta o ocupante do palácio.

Enquanto o mundo inteiro se escandaliza com o fato de que o Brasil convive com o recorde de mais de 114 mil pessoas mortas e mais de três milhões de pessoas contaminadas pela Covid 19, o governo de Minas Gerais joga 300 policiais militares contra 450 famílias do Acampamento Quilombo em Campo Grande, MG, que produziam alimentos saudáveis em uma produção de agroecologia comunitária. Em Águas Belas, em Pernambuco, os índios Fulniô veem sua escola destruída e os Pankararu, no médio São Francisco recebem ameaças de morte. Chegando ao céu, o nosso profeta Pedro Casaldáliga joga o manto do seu espírito para dar força na luta a índios, lavradores sem terra e todas as pessoas famintas e sedentas de justiça.

Na Europa, cada vez mais aumenta o número de pessoas que percebem é preciso  disciplinar e mesmo frear o crescimento econômico e deter o progresso tecnológico. Na França, desde 2006, existe um PPLD (Partido em Prol do Decrescimento), fundado pelo deputado Vincent Cheynet que advoga a salvação do planeta e da humanidade pelo caminho do “voltar atrás”: renunciar a muitos confortos desta sociedade de consumo e, assim preservar melhor o planeta e o essencial da vida. Esta proposta se espalha por minorias na Itália e em outras nações do Ocidente.

Para todos os continentes e para cada ser humano, vale a proposta do cientista social Serge Latouche dos oito R: Reavaliar, Reconceituar, Reestruturar, Redistribuir, Redimensionar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar.

Não se trata de voltar ao passado, nem de condenar qualquer forma de progresso, mas de compreender que o atual modelo de desenvolvimento, baseado no petróleo, na exploração da natureza e na competição entre as pessoas está falido e nos conduzirá à catástrofe. O inimigo maior de nossa civilização não é o Coronavírus, por mais cruel qu esse seja. É sim a destruição ecológica e a ambição de uma elite do mundo que não hesita em matar para ter mais dinheiro e poder. Esta elite nega os direitos à vida e à dignidade de seus próprios irmãos e irmãs e destrói a terra e a natureza. Precisaríamos de três planetas Terra para suportar a exploração que o modelo civilizatório capitalista comete contra a vida.

A Organização das Nações Unidas está fazendo uma consulta a populações do mundo inteiro para saber a opinião das pessoas quanto às perspectivas e principais necessidades da humanidade pós-pandemia. Todos nós podemos responder. A pesquisa tem a seguinte introdução: 

“A pandemia de COVID-19 é um aviso claro da necessidade de cooperação entre países, entre setores e entre gerações. A este respeito, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou:

«Tudo o que fizermos durante e depois desta crise deve ter uma forte tónica na construção de economias e sociedades mais igualitárias, inclusivas e sustentáveis, mais resilientes às pandemias, às alterações climáticas e aos muitos outros desafios com que nos confrontamos à escala mundial.». Eis o link para quem quiser responder a estas perguntas:

https://social.un75.online/partner/un75?lang=prt

As tradições vindas das culturas indígenas têm proposto para toda a humanidade o paradigma do bem-viver, da revalorização dos bens comuns como bens públicos aos quais toda a humanidade tem direito de acesso gratuito: terra, água, saúde e educação. Movimentos sociais se mobilizam para pedir à Assembleia Geral da ONU que proclame as vacinas contra os vírus como bens comuns que devem ser de acessso gratuito e público para todos os seres humanos.

De um modo ou de outro, o Bem-viver e o bem-conviver corresponde ao Shallom bíblico, paz e salvação, assim como o Axé das religiões afrodescendentes. É a alegria da pessoa se sentir em sintonia com as outras e em comunhão com todo o universo. Amar e se saber amado/a é o dom divino presenteado a todo ser humano e que pode ser fonte íntima desta alegria, deste bem-viver, caminho para a humanidade depois desta pandemia.

 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

COVID 19 QUINQUAGÉSIMA OITAVA REFLEXÃO -DIABOS E DEMÔNIOS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


 POR FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     Desta vez vamos permitir que se infiltrem em nossa REFLEXÃO algumas figuras sinistras chamadas demônio, diabo, satanás. Há quem, só de medo de pronunciar seus nomes, prefere dar-lhes apelidos, tais como capeta, tinhoso, rabudo, coisa ruim, capiroto, suco de sangue e outros tantos.

     Considerando o sentido etimológico de cada um destes nomes, não há motivo para tanto medo. Demônio e diabo, palavras de origem grega,  significam "espírito maléfico" e "semeador da discórdia", enquanto satanás, de procedência hebraica, se traduz por "o inimigo".

     Assim sendo, cada um de nós já andou fazendo o papel de diabo ou satanás: sempre que praticamos a maledicência estamos diabolizando, dividindo; sempre que fazemos mal ao semelhante estamos satanizando, inimizando. (Hoje entendo porque minha mãe tinha razão quando chegava ao limite da paciência com nossas trelas de crianças, e gritava: "seus diabos!". Sim, éramos cinco diabinhos quebrando a paz da casa).

     Já na boca de numerosos pregadores religiosos, estes nomes viraram armas de grande efeito "pedagógico" com o fim de aterrorizar e controlar as consciências dos simples e dos escrupulosos.

     Afinal, como definir estes personagens?

     É difícil dar-lhes uma única definição. Eles resultaram da fusão de muitas crenças de variadas culturas em diferentes épocas. Carregam, no entanto, uma característica comum, constituem a personificação do mal, a representação do mundo das trevas. Mas traduzem nuances, graduações e funções diferenciadas, de acordo com essas tradições culturais.

     Na mitologia grega, "daimôn" se traduz por "espírito", não necessariamente espírito maléfico. Havia os eudaimones (do bem) e os cacodaimones (do mal). Vale lembrar que o substantivo grego "eudaimonia" quer dizer felicidade, o somatório dos espíritos benfazejos concentrados numa pessoa.

     Já no Budismo chamam-se Mara, uma espécie de opositor de Buda, fonte das ilusões, encarnação das forças antagônicas à iluminação.

     Para o Islamismo "shaitan" (satã) não possui poderes superiores, seu papel é apenas desencorajar os fiéis de obedecer aos preceitos de Alá.

     Algumas outras culturas absorvem estes nomes como simples metáfora designativa da disposição congênita de fazer o mal.

     Na passagem do Judaísmo para o Cristianismo, adquiriram uma relevância sempre mais crescente e abrangente, entraram decididamente no imaginário dos povos ocidentais e foram alimentados por discursos e imagens aterradores. Dante Alighieri, em sua "Divina Comédia", descreve uma verdadeira iconografia do inferno inspirada nestas crenças.

     Podemos imaginar o quanto estes personagens se prestaram para os interesses de dominação dos povos mais poderosos. Foi o que se deu durante a invasão das Américas  pelos  espanhóis e portugueses. O Novo Mundo virou a representação do Anti-Cristo, legitimando e facilitando, desta maneira, a destruição das culturas e o confisco dos bens dos indígenas.

     Ao longo dos séculos de escravidão negra, a imagem mais difundida  do 😈, com chifres, tridente, manto escuro e pele negra servia para satanizar as divindades de origem africana.

    Fora disso, suas figuras estavam associadas a todo tipo de dissidentes (judeus, muçulmanos, herejes, feiticeiras, cientistas, pensadores).

     Ainda hoje, a grande mídia, porta-voz das classes dominantes, continua diabolizando os movimentos sociais que combatem seus instintos de dominação (O MST é um exemplo)

     Na verdade, jamais houve época em que o mundo dos humanos não tenha sido permeado do sobrenatural. Não devemos julgar os fatos do passado com as lentes do presente. Compreende-se que, quanto mais fraca, inculta e desigual uma sociedade, tanto mais necessitava de acreditar no diabo como meio de reforçar suas bases éticas e morais, impedir a desconstrução da imagem do mal, e assim induzir pelo medo a boa conduta dos indivíduos.

    Nada, porém, legitima a terrível destruição de valores e vidas humanas que a manipulação destas figuras causou e ainda causa à Humanidade, ao longo da sua História.

     À luz destes conhecimentos, não é difícil identificar os que estão assumindo o lugar de satanás e do diabo  no enfrentamento à pandemia do coronavirus em nossa "pátria amada Brasil". Aqueles que, em seus discursos proclamam o nome de Deus e em seus projetos são guiados pelos demônios da cobiça, da divisão e do ódio.

    Quanto aos de pura intenção, o seu poder maior de exorcizar todos os demônios está nas palavras do apóstolo João: "A VITÓRIA QUE VENCE O MUNDO É A NOSSA FÉ"*1Jo,5,4.

domingo, 23 de agosto de 2020

MENINA


 

por Pe. Fabio dos Santos Potiguar

 

Eu nem sei o seu nome, mas estou aqui somente para lhe dizer que a amo. 

Sou um padre da Igreja Católica. Venho lhe abraçar com o abraço de Deus que lhe cerca de carinho e proteção. 

Não posso dizer apenas que foi criminoso e horrendo o que lhe aconteceu por anos. 

Eu tenho que lhe dizer palavras de ternura, de conforto e de consolação. 

]Menina, que Deus lhe cerce de proteção e lhe defenda de todos os perigos. 

Coragem e força! Que sua tristeza se transforme em alegria. Que sua vida siga adiante. 

A morte pode ser transformada em ressurreição. 

Você pode até trazer, como Jesus, as marcas da paixão, mas deixa que no seu corpo, no seu coração e na sua mente você possa recomeçar. 

Vá em frente! Deus vai sempre com você e em você.

 

Padre Fabio dos Santos Potiguar

sábado, 22 de agosto de 2020

EM NOME DE DEUS OU DO PATRIARCADO?

 

 

Kinno Cerqueira [1]

 

Nosso modo de pensar parte de um conjunto de valores e princípios construídos ao longo de milênios de anos, os quais, de tanto serem repetidos e impostos, moldam nossa visão e determinam nossa compreensão sobre nós no mundo.

 No mundo ocidental como um todo, e particularmente no Brasil, a eleição e fixação de valores e princípios contou com a participação crucial da religião cristã. Tenhamos presente que a espécie de religião cristã que desembarcou aqui há cinco séculos, embora ostentando o nome de Jesus, nada tinha a ver com este ou com seu projeto de amor, justiça e solidariedade: tratava-se, fundamental e substancialmente, de um cristianismo colonizador, assassino e patriarcal.

 Os protestantismos que por aqui chegaram, não obstante se autocompreendessem continuadores da tradição da Reforma Protestante, há muito que também haviam abandonado o cerne do “princípio protestante”: protestar contra quaisquer absolutismos – sejam de natureza civil, política ou religiosa – e garantir o direito ao pleno exercício da liberdade conduzida pelo amor. Salvo raras e isoladas exceções, os protestantismos que se fixaram por aqui deram continuidade à colonização das mentes, ao assassinato da liberdade e à absolutização do patriarcado.

 No século XX, afloraram, no mundo e no Brasil, diversos movimentos de libertação, tanto no âmbito civil quanto nos espaços eclesiais e teológicos. Tratava-se, no âmbito dos espaços eclesiais e teológicos, de movimentos que punham às claras as ideologias brancas e patriarcais das igrejas e interpelavam o povo a ser comunidade libertada para a liberdade, ao invés de ser gado de bispos, padres e pastores.

 A plena efervescência de movimentos de libertação estimulou teólogos e teólogas a empreender uma releitura da Bíblia e da Tradição à luz do êxodo, da crítica do movimento profético, da prática libertadora de Jesus e, em especial, da experiência de redescoberta de Deus nos corpos mutilados pelas injustiças. Dentre as teologias da libertação, as teologias feministas foram as que melhor desnudaram e afrontaram a coluna de sustentação das desigualdades e injustiças, a saber, o “patriarcado” ou “machismo”.

 As teólogas feministas ajudaram-nos a compreender que o patriarcado – a dominação masculina sobre as mulheres – é estrutural e estruturante: dizemos que é “estrutural” porque as estruturas psíquicas, familiares, culturais, sociais, políticas, econômicas e religiosas foram construídas a partir e em função das aspirações e dos desejos masculinos; consequentemente, é “estruturante”, uma vez que nosso modo de pensar e agir reproduz, na maioria das vezes, a lógica própria das estruturas patriarcais supracitadas.

Dentre os traços característicos do patriarcado, salta aos olhos “a dominação sobre os corpos das mulheres”. O que explica a ênfase dada à apresentação de Maria como uma virgem silenciosa que pariu sem sexo nem prazer? Por que motivo as igrejas protestantes ainda insistem em identificar feminilidade com subserviência? Por que bispos, padres e pastores sentem-se tão perturbados quando uma mulher reclama ter direito sobre seu próprio corpo? Os discursos contra a interrupção da gravidez não seriam, no fundo, a exteriorização do medo de que a mulher conquiste algum direito de decisão?  

 Ao que parece, são homens frágeis, inseguros, profundamente assustados com a possibilidade de que as mulheres rompam com a lógica de submissão ao macho. A emergência de uma nova consciência de igualdade de gênero ameaça o clericalismo – tanto católico quanto protestante – em sua base mais fundamental. Atemorizados ante a possibilidade de deixarem de ser os donos dos corpos das mulheres, bispos, padres e pastores alçam suas vozes em nome de Deus e da Igreja quando, na verdade, estão a reclamar a manutenção daquilo que lhes concede honra, poder e glória: o patriarcado.

Nós, se quisermos ser fiéis à mais original tradição de Jesus, da Igreja Católica e da Reforma Protestante, devemos deixar claro – pessoal e comunitariamente, no discurso e na prática – que rejeitamos os ídolos patriarcais apresentados por bispos, padres e pastores e optamos pelo Deus-Amor que se nos revela nos corpos reprimidos e flagelados das mulheres. 

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.