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sábado, 19 de junho de 2021

AS MAIORES VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA

 Por Francisco de Aquino Júnior


 

O ambiente de violência generalizada em que nos encontramos faz com que ninguém esteja completamente imune ou protegido. De uma forma ou de outra, a violência atinge todas as pessoas, ainda que seja pelo sentimento comum de insegurança e medo. Nem mesmo a classe média/alta está livre. Basta ver a busca por condomínios fechados e o crescimento do mercado de segurança privada.

Mas não nos iludamos: Se a violência de alguma forma atinge todas as pessoas, não atinge todas as pessoas na mesma proporção e intensidade. Não “estamos todos no mesmo barco”. Na “melhor” das hipóteses, estamos todos no mesmo oceano de violência generalizada. Mas, enquanto alguns estão em iates, outros estão em barcos, outros estão agarrados a um tronco e milhares já morreram afogados num mar de sangue. Enquanto alguns são protegidos, outros são exterminados – até pelo próprio Estado. É falso e cínico o discurso ideológico de universalização da violência que trata todas as pessoas como igualmente vítimas da violência

Mesmo entre as maiores vítimas da violência (pobres, negros, indígenas, mulheres, população LGBT etc.) há diferenças que não se podem negar nem minimizar. É verdade que há muitas formas de violência (econômica, racial, de gênero, sexual etc.) e nenhuma delas pode ser banalizada e minimizada. E é verdade que essas diversas formas de violência estão muito mais implicadas umas nas outras do que parece, formando um tecido social extremamente violento. Mas é verdade também que quando qualquer dessas formas de violência está associada à violência econômica, que nega as condições materiais de reprodução da vida, ela adquire dimensões e proporções muito mais graves: Entre uma mulher rica e uma mulher pobre, entre um gay rico e um gay pobre, entre um negro rico (coisa muito mais rara) e um negro pobre, por exemplo, há diferenças consideráveis que não se podem minimizar. Nem se pode banalizar nenhum tipo de violência, nem se pode colocá-las todas no mesmo nível.

É curioso que o discurso de universalização da violência tende a tratar todas as pessoas como vítimas da violência, mas não como sujeitos da violência. Aqui a violência não aparece como um fato universal que diz respeito a todas as pessoas: ela tem classe e raça. Violenta é a população pobre e negra das periferias que está encarcerada ou é candidata nata ao encarceramento ou mesmo ao extermínio: são “bandidos”, são uma ameaça à sociedade, devem ser exterminados – “bandido bom é bandido morto”! A elite que se proclama vítima da violência dos bandidos (medo, assalto, agressão etc.) não se reconhece como sujeito da violência (econômica, psíquica, estatal/policial etc.) contra os pobres. Mesmo uma mulher que é vítima do machismo ou um gay que é vítima de homofobia nem sempre se reconhece como sujeito de violência contra a empregada doméstica ou contra os pobres em geral. A tentação é sempre responsabilizar o outro pela violência. E o outro normalmente é o que se encontra numa situação de dominação: a mulher, o gay, o negro e, sobretudo e em última instância, o pobre.

O discurso de universalização da violência (todos são igualmente vítimas!) é sempre um discurso classista-racista (os pobre e negros são os responsáveis pela violência!). O resultado dessa lógica perversa se traduz numa cultura de preconceito, desprezo, aversão e violência contra as vítimas e em políticas públicas de defesa dos interesses das elites e criminalização da pobreza e dos pobres.

Atenção: Não estamos todos no mesmo barco! Não somos igualmente vítimas da violência! Por isso não se pode tratar todos da mesma forma: onde há dois pesos, tem que haver duas medidas. No centro de nossas preocupações tem que está sempre a defesa dos direitos das maiores vítimas da violência. Elas são, n’Ele, juízes e senhores de nossas vidas, Igrejas e sociedades (Mt 25, 31-46).

**Portal das CEBs   postagem original

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

sexta-feira, 18 de junho de 2021

O PRINCÍPIO COMPAIXÃO E O COVID-19

 Leonardo Boff


 

Através do Covdi-19 a Mãe Terra está movendo um contra-ataque à humanidade como reação ao avassalador ataque que vem sofrendo já há séculos.Ele simplesmente está se defendendo. O Covif-19  é igualmente um sinal e uma advertência que nos envia: não podemos fazer-lhe uma guerra como temos feito até agora, pois está destruindo as bases biológicas que a sustenta e sustenta também todas as demais formas de vida, especialmente, a humana. Temos que mudar, caso contrário nos poderá enviar vírus ainda mais letais, quem sabe, até um indefensável contra o qual nada poderíamos. Então estaríamos como espécie seriamente ameaçados. Não é sem razão que o Covid-19 atingiu apenas os seres humanos, como aviso e lição. Já  levou  milhões à morte, deixando uma via-sacra de sofrimentos a outros milhões e uma ameaça letal que pode atingir a todos os demais.

Os números frios escondem um mar de padecimentos por vidas perdidas, por amores destroçados e por projetos destruídos. Não há lenços suficientes para enxugar as lágrimas dos familiares queridos ou dos amigos mortos, dos quais não puderam dizer um último adeus,nem sequer celebrar-lhes o luto e acompanhá-los à sepultura.

Como se não bastasse o sofrimento produzido para grande parte da humanidade pelo sistema capitalista e neoliberal imperante, ferozmente competitivo e nada cooperativo. Ele permiitu que 1%  dos mais ricos possuísse pessoalmente 45% de toda a riqueza global enquanto os 50% mais pobres ficasse com menos de 1%, segundo relatório recente do Crédit Suisse. Ouçamos aquele que mais entende de capitalismo no século XXI, o francês Thomas Piketty referindo-se ao caso brasileiro. Aqui, afirma, verifica-se a maior concentração de renda do mundo; os milionários brasileiros, entre o 1% dos mais ricos, ficam à frente do milionários do petróleo do Oriente Médio. Não admira os milhões de marginalizados e excluídos que esta nefasta desigualdade produz.

Novamente os números frios não podem esconder a fome, a miséria, a alta mortandade de crianças e devastação da natureza, especialmente na Amazônia e em outros biomas, implicada nesse processo de pilhagem de riquezas naturais.

Mas nesse momento, pela intrusão do coronavírus, a humanidade está crucificada e mal sabemos como baixá-la da cruz. É então que devemos ativar em todos nós uma das mais sagradas virtudes do ser humano: a compaixão. Ela é atestada em todos  os povos e culturas: a capacidade de colocar-se no lugar do outro, compartilhar de sua dor e assim aliviá-la. 

O maior teólogo cristão, Tomás de Aquino, assinala na sua Suma Teológica que a compaixão é a mais elevada  de todas as virtudes, pois não somente abre a pessoa para a outra pessoa senão que a abre para a mais fraca e necessitada de ajuda. Neste sentido, concluía, é uma característica essencial de Deus.

bReferimo-nos ao princípio compaixão e não simplesmente à compaixão. O princípio, em sentido mais profundo (filosófico) significa uma disposição originária e essencial, geradora de uma atitude permanente que se traduz em atos mas nunca se esgota neles.Sempre está aberta a novos atos. Em outras palavras, o princípio tem a ver com algo pertencente à natureza humana. Porque é assim podia dizer o economista e filósofo inglês Adam Smith (1723-1790) em seu livro sobre a Teoria dos Sentimentos Éticos: até a pessoa mais brutal e anticomunitária não está imune à força da compaixão.

A reflexão moderna nos ajudou a resgatar o princípio compaixão. Foi ficando cada vez mais claro para o pensamento crítico que o ser humano não se estrutura somente sobre a razão intelectual-analítica, necessária para darmos conta da complexidade de nosso mundo. Vigora em nós, algo mais profundo e ancestral, surgido há mais de 200 milhões de anos quando irromperam na evolução os mamíferos: a razão sensível e cordial.Ela significa  a capacidade de sentir, de afetar e ser afetado, de ter empatia, sensibilidade  e amor.

Somos seres racionais mas essencialmente sensíveis. Na verdade, construimos o mundo a partir de laços afetivos.Tais laços  fazem com que as pessoas e as situações sejam preciosas e portadoras de valor. Não apenas habitamos o mundo pelo trabalho senão pela empatia, o cuidado e a amorosidade. Este é o lugar da compaixão.

Quem trabalhou melhor que nós ocidentais foi o budismo. A compaixão (Karuná) se articula em dois movimentos distintos e complementares: o desapego total e o cuidado essencia. Desapego significa deixar o outro ser, não enquadrá-lo, respeitar sua vida e destino. Cuidado por ele, implica nunca deixá-lo só em seu sofrimento, envolver-se afetivamente com ele para que possa viver melhor carregando mais levemente sua dor.

O terrível do sofrimento não é tanto o sofrimento em si, mas a solidão no sofrimento. A compaixão consiste em não deixar o outro só. É estar junto com ele, sentir seus padecimentos e angústias, dizer-lhe palavras de consolo e dar-lhe um abraço carregdo de afeto.

Hoje os que sofrem, choram e se desalentam com o destino trágico da vida, precisam desta compaixão e desta profunda sensibilidade humanitária que nasce da razão sensível e cordial. As palavras ditas que parecem corriqueiras ganham outro sonido, reboam dentro do coração e trazem serenidade e suscitam um pequeno raio de esperança de que tudo vai passar. A partida foi trágica mas a chega em Deus é bem-aventurada.

A tradição judaico-cristã testemunha a grandeza da compaixão. Em hebraico é “rahamim” que significa “ter entranhas”, sentir o outro com profundo sentimento.Mais que sentir é identificar-se com o outro.O Deus de Jesus e Jesus mesmo mostram-se especialmente misericoridios como se revela nas parábolas do bom samaritano (Lc 10,30-37) e do filho pródigo(Lc 15,11-32).Curiosamente, neste parábola, a virada se dá não no filho pródigo que volta mas no pai que se volta para o filho pródigo.

Mais no que nunca antes, face a devastação feita pelo Covid-19 em toda a população,sem exceção, faz-se urgente viver a compaixão com os sofredores como o nosso lado mais humano, sensível e solidário.

 Leonardo Boff escreveu com Werner Müller o livro Princípio compaixão&cuidado, Vozes 2009; Covid-19 A Mãe Terra contra-ataca a humanidade, Vozes 2020.

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quinta-feira, 17 de junho de 2021

NÃO SÓ OMO LAVA MAIS BRANCO

 Frei Betto


 

       Também o diversionismo ideológico. Alberto Fernández, presidente da Argentina, declarou em diálogo com Pedro Sánchez, premiê da Espanha: “os mexicanos saíram dos índios; os brasileiros saíram da selva; mas nós, argentinos, chegamos dos barcos – barcos que vinham da Europa”.

       Há brasileiros que se sentiram ofendidos. Não é o meu caso. Fernández tem razão, viemos da selva e da senzala. Foi o que constatou o Projeto Genoma 2000 ao pesquisar o DNA predominante dos brasileiros. Sinto-me honrado ao saber que descendo de duas etnias oprimidas por nossos colonizadores. E altamente civilizadas. 

       Por isso, me recuso a usar expressões como “capitalismo selvagem”. Os originários da selva, os povos indígenas são, por natureza, anticapitalistas. Não são competitivos, mas solidários; não acumulam, partilham; não devastam a natureza, preservam. E, ao contrário de nós, brancos urbanizados, não vivem para trabalhar, mas trabalham para viver.

       Foi dos negros, trazidos ao Brasil como escravos pelos europeus “civilizados”, que herdamos tradições religiosas como o candomblé, técnicas de agricultura e metalurgia, a capoeira e o samba, e pratos como vatapá, feijoada, caruru, mungunzá, acarajé e pamonha. 

       O que repugno no discurso de Fernández é essa empáfia de achar que descender de europeu é prova de requinte humano. Perguntem aos asiáticos quem promoveu a Guerra do Ópio; aos africanos, quem explorou suas riquezas naturais, dizimou seus animais e desencadeou massacres genocidas; aos latino-americanos e caribenhos, quem trucidou milhões de indígenas altamente civilizados, doutores em matemática, meteorologia e astronomia, construtores de cidades monumentais como Tenochtitlán, no México, fundada em 1325 pelos astecas, Machu Picchu, no Peru, edificada pelos incas em meados dos século XV. 

       Foram os europeus que, do alto de sua pretensa superioridade (só efetiva quanto aos arsenais bélicos) que levaram, aos três continentes, saques, violência, escravidão, massacres e mortes.

       Isso não significa que eu seja antieuropeu. Sou contra mentiras históricas. Sei muito bem o quanto a Europa nos legou em todos os campos do saber, da arte e do fazer. Mas sei também quanta ciência os árabes ensinaram aos europeus e quanta tecnologia os europeus aprenderam com os chineses. 

       É asneira debater que povo é mais culto do que outro. Não existe ninguém mais culto do que o outro. Existem culturas distintas e socialmente complementares. O que seria de Einstein sem Maria, a cozinheira porto-riquenha que lhe preparava as refeições? E se pesar na balança quem dependia mais da cultura do outro? Maria passava muito bem sem a menor noção de como funcionam as leis do Universo. Mas Einstein dependia da cultura culinária de Maria para sobreviver. 

       Não me alongo aqui sobre a ignorância de Fernandez quanto às origens indígenas do povo argentino, que aprendi ao visitar Santiago del Estero, a primeira cidade do país. O ex-presidente Macri já havia cometido a mesma gafe no Fórum Econômico de Davos, em 2018, ao afirmar que “todos os argentinos” são “descendentes de europeus”. 

       O que realmente me preocupa é o branqueamento da cultura. É pior que o racismo. Porque, ao repudiar o negro, o branco sinaliza que enxerga o negro. Preocupante é quando o outro sequer é notado. Como acontece com Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. Sua mentalidade é tão lavada pelo OMO ideológico que, no espelho, não logra enxergar a cor da própria pele. 

       Estranho quando vejo chamarem os negros de “afrodescendentes”. O termo surgiu em 2001, na conferência da ONU sobre racismo e xenofobia, em Durban, África do Sul. Isso é invenção de gringo, “made in USA”, para advertir os negros: “Vocês não são daqui. Comportem-se! Caso contrário, serão deportados para a África!”

       Ora, jamais fui chamado de lusodescendente, iberodescendente ou eurodescendente. E estranho quando leio romances em que a maioria dos personagens é, supostamente, branca, o que dispensa o autor de explicitar a cor da pele. Mas, em se tratando de personagem negro...

       A luta antirracista tem que incluir o combate ao branqueamento da cultura. Se OMO lava mais branco eu não sei. Sei que o supremacismo branco, hoje incrustado no Palácio do Planalto, precisa ser urgentemente raspado, com palha de aço, de nossa cultura e de nossas atitudes.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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quarta-feira, 16 de junho de 2021

CEGUEIRA (3), EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 

 Frei Aloísio Fragoso


     Por respeito à memória do genial autor  de "Ensaio Sobre a Cegueira", continuemos visitando o manicômio onde ele internou todos os habitantes de uma cidade grande, à exceção da "mulher do médico". Nosso intuito é descobrir mais a fundo as razões subjetivas deste enclausuramento que, por um triz, não foi total. Somos movidos também pela suspeita de que vamos nos reconhecer ali dentro. José Saramago não teria ganho o prêmio Nobel, se esta suspeita não fosse comum aos habitantes de todas as cidades do mundo, as  grandes ou as menores.

      Por outra parte, elucidar estas razões ajuda-nos a decifrar outro mistério, o de este assunto da loucura suscitar incríveis simpatias da parte de muita gente. Simpatias estas expressas em forma de indagações: será que a plena Sinceridade, a que todos almejamos, a da alma, reside nos subterrâneos da loucura? Será que, justo por isso, nos tornamos compulsoriamente normais?

      Saramago conduz seu enredo através de metáforas, confiante em nossa capacidade de decifrá-las, de dar uma identificação atemporal a seus personagens. Ele abre um cenário para esta dor que fura o nosso peito, a de não sermos plenamente nós mesmos.

      Vejamos o que se passa no manicômio. A tragédia obriga todo mundo a viver de maneira inteiramente fora do comum. Em pouco tempo pulam para fora de seus esconderijos interiores alguns monstros da maldade. Aquele bom cidadão, que se oferecera para socorrer o primeiro que cegou, aproveita-se da sua deficiência e rouba-lhe o carro. O manicômio vira pandemônio. O instinto animal vai aos poucos sobrepondo-se à razão e à dignidade. As "razões do estômago" derrubam para segundo plano laços afetivos e princípios morais. Não há mais como impedir a violência. Os caixotes de comida deixados no pátio são atacados numa batalha selvagem. Ao final "ninguém parecia interessado em saber quem tinha morrido".

     (Chego a imaginar a figura do Papa Francisco caminhando em meio a estas ruinas humanas, denunciando o que ele chama "cultura  da insensibilidade", ao tempo em que se desenrola o que ele descreve como Terceira Guerra Mundial, com batalhas esparsas, travadas aqui, ali, acolá, por toda parte)

     O manicômio se divide entre "cegos malvados" e "cegos resignados" A fome e o medo forçam estes últimos a se habituarem aos desmandos da tragédia.

     (Abro novo parêntese para acender um alerta real: como enquadrar, nesta situação, a caridade humano-cristá de distribuir cestas básicas  com famintos de algumas comunidades pobres? Dentro de mim, e de outros, há um embate constante entre a necessidade inadiável de socorrê-los, uma vez que a fome tem pressa e não tem ideologia, e a outra necessidade de que não se embote a consciência de seus direitos, nem se aplaque  a justa revolta, que estimula para a luta. Por enquanto, usamos a modesta estratégia de ajuntar a cada cesta básica uma breve carta conscientizadora).

     Enfim, não há como fugir à pergunta mais crucial: e as consequências para o futuro? O que torna impossível prevê-las é justamente a cegueira. Como escreve Saramago: "se antes de cada ato nos puséssemos a prever suas consequências, a pensar nelas a sério....não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar"

     Enquanto a "mulher do médico" exclama perplexa "o inominável existe!", surge um personagem providencial, "a mulher do isqueiro". Graças a ela, abre-se uma luz no escuro do manicômio. Que luz é esta?

 

     Prometo finalizar, no próximo capítulo, esta novela, que já me deu nervoso, imaginando a impaciência dos leitores por uma solução final. Só não consigo admitir que o grande humanista Saramago escreva um "Ensaio Sobre a Cegueira" que não acabe sendo um "Ensaio Sobre  a Visão".

     Enquanto aguardamos a peripécia da "mulher do isqueiro", meditemos sobre o que Jesus queria significar quando declarou: "Vim  trazer fogo sobre a terra e como desejaria que ele já estivesse aceso" Lc.12,49.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor