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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

CARTÃO DE NATAL

Frei Betto


 
Feliz Natal a quem cultiva ninhos de pássaros no beiral da utopia e coleciona no espírito as aquarelas do arco-íris. E a todos que trafegam pelas vias interiores e não temem as curvas abissais da oração. 


Feliz Natal aos que reverenciam o silêncio como matéria-prima do amor e arrancam das cordas da dor melódicas esperanças. Também aos que se recostam em leitos de hortênsias e bordam, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura. 


Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de relâmpagos, aspiram o perfume da rosa dos ventos e levam no peito a saudade do futuro. Também aos que semeiam indignações, mergulham todas as manhãs nas fontes da verdade e no labirinto da vida identificam a porta que os sentidos não veem e a razão não alcança. 


Feliz Natal aos que dançam embalados pelos próprios sonhos e nunca dizem sim às artimanhas do desejo. Aos que ignoram o alfabeto da vingança e jamais pisam na armadilha do desamor, pois sabem que o ódio destrói primeiro a quem odeia. 


Feliz Natal a quem acorda, todas as manhãs, a criança adormecida em si. E aos artífices da alegria que no calor da dúvida dão linha à manivela da fé. 


Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas a fim de atirá-los no lixo do olvido e guardam recatados os seus olhos no recanto da sobriedade. A quem, diante do espelho, descobre-se belo na face do próximo. 


Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e riem à sobeja dos que apregoam o fim da história. E aos que suprimem a letra erre do verbo armar e se recusam a ser reféns do pessimismo. 


Feliz Natal aos que fazem do estrume adubo de seu canteiro de lírios. Também aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores e aos escritores sem palavras. E a todos que jamais encontraram a pessoa a quem declarar todo o amor que os fecunda em gravidez inefável. 


Feliz Natal aos ébrios de transcendência e aos filhos da misericórdia que dormem acobertados pela compaixão. E a quem não se deixa seduzir pelo perfume das alturas e nem escala os picos em que os abutres chocam ovos.


Feliz Natal a quem, no leito de núpcias, promove despudorada liturgia eucarística e transubstancia o corpo em copo para inundá-lo do vinho embriagador da perda de si no outro. E a quem corrige o equívoco do poeta e sabe que o amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno. 


Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão e convocam os famélicos à mesa feita com as tábuas da justiça e coberta com a toalha bordada de cumplicidades.


Feliz Natal aos que secam lágrimas no consolo da fé e plantam no chão da vida as sementes do porvir. E aos que criam hipocampos em aquários de mistério e se embebedam de chocolate na esbórnia pascal da lucidez crítica. E a todos que, com o rosto lavado das maquiagens de Narciso, dobram os joelhos à dignidade dos carvoeiros.

 

Frei Betto é escritor, autor de "Um homem chamado Jesus" (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Para que este Natal seja novo

 


Marcelo Barros

 

Mesmo se temos muitos motivos de preocupação e estamos encerrando um ano que, em matéria de sofrimentos, não nos poupou, é bom vermos nesta celebração do Natal um apelo à esperança e à renovação da vida. Desde suas origens anteriores ao Cristianismo, por festejar o ciclo solar, o Natal é celebração da luz que vence as trevas, do calor que vence o frio e a morte.

Em um dos evangelhos lidos nas comunidades para preparar o Natal, o profeta João Batista anuncia Jesus como aquele que vem nos mergulhar na ventania do Espírito e no fogo. E fazer com que dentro de nós e no mundo reacendamos o fogo da justiça amorosa, da solidariedade e do cuidado uns com os outros e com a mãe Terra e a natureza.

Neste momento, infelizmente, há muitas pessoas que congelaram o seu coração e parecem não reagir mais às injustiças estruturais do mundo e à desumanidade que nos rodeia. A celebração do Natal não é apenas a simples memória de um aniversário. Deve convocar todas as pessoas humanas, cristãs ou não, religiosas ou não a um renascer da vida que seja um verdadeiro renascer. Aliás, o que significaria nascer, se não fosse para estar abertos a um constante renascer?

Em cada idade física, o ser humano larga uma idade e renasce para outra. Maria Zambrando, filósofa espanhola, ensinava que, como todo animal, o ser humano é mortal. No entanto, o que o caracteriza não é ser mortal e sim ser natal, isso é, chamado a uma permanente renovação do ser e da vida. O poeta Pablo Neruda afirmava: “Nascemos como esboço. É preciso sempre renascer. Nascemos para renascer”. Podemos dizer que renascemos cada vez que realizamos os passos que a vida exige e nos abrimos para uma nova etapa.

O sentido mais profundo da celebração do Natal é abrir nossos corações e nossas vidas para essa perspectiva de uma vida nova, tanto no plano pessoal como de nossas relações e atividades sociais e até políticas. Viver o espírito do Natal é não apenas recordar Belém e o presépio no qual Jesus recém-nascido está rodeado de seus pais e é visitado pelos pobres pastores do campo. Esses relatos do evangelho já foram escritos na perspectiva de nos ajudar a ver no menino que nasce em Belém o Senhor Ressuscitado que, pelo seu Espírito, nos chama a sempre renascer.

Conforme o quarto evangelho, em uma conversa noturna com Nicodemos, um mestre do Judaísmo, Jesus explica: “O que nasce conforme o mundo (ou no modo de falar hebraico: o que nasce da carne) é carne, ou seja, pertence a esse modo de ser do mundo. O que nasce do Espírito, é espírito. Por isso, é preciso nascer do Espírito” (Jo 3, 7).

É preciso compreendermos que esse processo de renovação interior tem suas raízes no mais profundo de cada pessoa mas toma corpo em um modo de viver comunitário. Isso significa assumir a realidade em que vivemos e retomar nossas relações com as pessoas, em um caminho comunitário e de serviço à paz, justiça eco-social e cuidado com a mãe Terra e toda a natureza.

Para que esse renascimento da vida seja possível, é preciso denunciar e combater a política que serve à morte e ao desamor. Dom Oscar Romero, mártir da caminhada libertadora, insistia que a verdadeira espiritualidade consiste em acentuar a dignidade da Política e fazer com que ela se coloque a serviço dos mais pobres e possa ser transformadora.

Neste 2021 e no contexto social e político que vivemos no Brasil, é bom recordar o que os bispos latino-americanos afirmaram no documento de conclusão da 2ª Conferência do episcopado latino-americano em Medellín (1968): "Queremos construir uma Igreja libertadora de toda a humanidade e libertadora de cada ser humano por inteiro, em todas as suas dimensões" (Med. 5, 15).

Se cremos que, no Natal, Jesus assumiu a condição humana com todas as suas fragilidades e problemas, cada celebração do Natal nos convida a sermos pessoas cada vez mais capazes de amar, sempre mais disponíveis ao diálogo e, em tudo, humanas, como Jesus.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 18 de dezembro de 2021

“Quem ama de verdade, reconhece os erros da pessoa ou instituição amada, e continua amá-la”1

                                                                                                                             Prof. Martinho Condini


 

Em meados da primeira década do século XX, fomos surpreendidos com o escândalo do mensalão onde vários partidos políticos estiveram envolvidos, mas o que mais chamou a atenção da imprensa e da sociedade civil foi o Partido dos Trabalhadores. Isso porque a imagem de seus parlamentares em sua grande maioria, por décadas foi sempre de uma trajetória ilibada.

Após o escândalo do mensalão, petistas raízes, abandonaram o Partido e foram alçar vôos em outros ou criar novos.

Essa postura me incomoda muito, mas é claro que todos nós somos livres para fazermos nossas escolhas, mas tem algumas coisas que você se afina de tal maneira que a sua relação com ela se torna algo muito intenso, por exemplo: um time de futebol ou um partido político, que ultrapassa o gostar. A não ser que por de traz da paixão e da afinidade ideológica há outros interesses. Essa paixão ou afinidade ideológica que faz com que as pessoas permaneçam ao lado do seu clube ou do partido político de sua preferência e identidade.

Imagina se torcedores de um time de futebol o abandonasse porque ele perdeu um título, ou foi rebaixado ou ficasse décadas sem ganhar um título? Ou até abandoná-lo porque ele nunca ganhou um título em toda a sua história. Isso só demonstra que esses torcedores não são torcedores de verdade, porque se o fossem ficaria ao lado do clube ajudando-o de alguma maneira a sair do atoleiro em que se encontra.

A mesma coisa em relação ao partido político, a cada denúncia que um partido político recebe, ainda nas investigações, alguns de seus membros o abandonam com a justificativa de que ele não tem a pecha desses que estão sendo acusados.  E pelo fato de serem honestos e éticos, , saem do partido que não só ajudaram a construir, mas tem com ele uma enorme identidade ideológica. Ou  pelo menos parecia que havia.

São nessas atitudes de abandono do partido político que eu quero chegar.

Fico muito ressabiado com essas atitudes num partido como o Partido dos Trabalhadores (em outros partidos para mim, esse abandono é natural), pela sua história, que foi marcada pelas lutas, resistências, utopias e esperanças, além das realizações ao chegar ao poder. 

De repente na primeira invertida de grandes proporções, os mais honestos, dão linha (como se diz na gíria dos que empinam Pipa, Papagaio, Maranhão, etc.), vão embora para muito longe.          

Como eu já disse lá no início, todos nós temos a liberdade de escolha, mas essas atitudes são para mim no mínimo estranhas e que demonstram uma fragilidade daqueles que o abandonam. E sempre ficará aquela desconfiança, o que é isso companheiro? Será que posso  contar com você?

Acredito que esses que tomaram outros rumos, se realmente reconheciam no Partido dos Trabalhadores um instrumento de luta e transformação, deveriam ter permanecido e contribuir com suas ideias e opiniões e mostrar que a entidade partidária é mais importante que os seus mandatos, não ao contrário.

Enfim, o arcebispo emérito de Olinda e Recife, Dom Helder Camara1 dizia: “quem ama de verdade, reconhece os erros da pessoa ou instituição amada, e continua amá-la”.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Passos para derrotar o fascismo e a política do ódio

 Leonardo Boff


 

Este artigo é dedicado aos que lutam pela democracia ferida e pelo resgate da nação devastada.

 

Forças políticas, inimigas da vida, se aliaram ao Coronavírus e estão favorecendo a dizimação de mais de 600 mil vidas. Seu objetivo consiste em nos conduzir aos tempos pré-modernos, desmantelando nossa cultura e nossa ciência, suprimindo direitos trabalhistas e previdenciários, difundindo mentiras, ódio covarde aos pobres, aos indígenas, aos quilombolas, aos afrodescendentes, aos homoafetivos e aos LGBTI.

Ideologicamente tais forças são ultraconservadoras com cariz nitidamente fascista. Galgaram o mais alto poder da república. O representante-mor destas forças quer, por todos os meios, mesmo ao arrepio da lei, se reeleger. Como parlamentar magnificou torturadores e defendeu ditaduras. Como chefe de estado foi leniente com as grandes queimadas da floresta amazônica, com os madeireiros e com a intrusão das mineradoras e do garimpo, inclusive em terras indígenas. Cometeu crimes contra a humanidade por seu negacionismo em relação aos imunizantes do Covid-19 e se mostrou insensível e sem nenhuma empatia face ao sofrimento das milhares de famílias enlutadas e aos milhões de desempregados e famintos.

Infelizmente constatamos a fragilidade, até a omissão de nossas instituições oficiais ou jurídicas e a baixa intensidade de nossa democracia que media pela justiça social e pelo respeito aos direitos se parece antes uma imensa farsa oficial. Nada ou pouco se fez para afastar esta figura sinistra, autoritária e fascistoide. Não lhes é permitido assistirem, impassíveis, ao esfacelamento populacional, cultural, político e espiritual de nosso país.

Face a esta tragédia histórica, precisamos, pela via eleitoral, frear a pulsão de morte, presente no poder executivo e em seus auxiliares. Impõe-se infligir uma derrota eleitoral fragorosa a este que se mostrou insano, indigno, malévolo e incapaz de governar o povo brasileiro. Ele merece ser, legalmente, varrido da cena política e pagar por seus crimes, para que, em fim, possamos viver com um mínimo de desenvolvimento justo e sustentável, com paz social, com franca alegria e com felicidade coletiva.

Para concretizar esta diligência política e ética, nos limites da Constituição e da ordem democrática de direito, importa, ao meu ver,  percorrer os seguintes passos:

Primeiro, garantir, se possível, já no primeiro turno, a vitória para presidente, de alguém com carisma, com confiança das grandes maiorias e com capacidade de nos tirar do poço escuro no qual fomos lançados. Ele já mostrou anteriormente que é capaz de realizar esta redenção. Não carece revelar seu nome pois já despontou, vitorioso, nas pesquisas eleitorais.

 

Segundo, não basta eleger um presidente com tais características. É fundamental garantir-lhe uma bancada parlamentar numerosa para que o presidencialismo de coalizão não comprometa os ideais e propósitos, presentes nas origens e resgatáveis, como a opção por políticas sociais que atendam às grandes maiorias empobrecidas e oprimidas, com transparência, com a ética da solidariedade a partir dos mais vulneráveis e com e soberania ativa e altiva. Fazer alianças com partidos afinados com propósitos sociais e populares. Igualmente é importante garantir a eleição de governadores e, a seu tempo, de prefeitos e de vereadores que nas regiões e na base deem sustentação ao governo central com sentido de justiça social e de cuidado da vida do povo e da natureza.

 

Terceiro, – o mais importante – reforçar e, onde for preciso, retomar o trabalho de base, organizando comitês populares de  toda ordem, para que participem e se articulem com os organizações já existentes como da saúde, da educação, da igualdade de gênero e de outros, criando consciência cidadã. Não basta garantir a inserção no sistema vigente, perverso e antipopular, mas criar consciência mudancista, apontando para um outro tipo de sociedade com democracia participativa, sicial e ecológica.

Esse trabalho de base é imperativo se quisermos criar as condições para uma transformação que vem de baixo e criar movimentos progressistas e libertários que traduzem os sonhos em práticas viáveis e cotidianas. É nesse nível, rés-do-chão, que começa a se ensaiar o novo e se alimenta a energia necessária para continuar a refundação de um novo Brasil, contra o prolongamento da dependência histórica, contra o vira-lata, presente nas elites do atraso e contra o oligopólio  dos meios de comunicação, braço ideológico da classe dominante, herdeira da Casa grande.

Estamos convencidos de que este sofrido caos destrutivo irá passar e será transformado em promissor caos generativo de uma nova ordem, mais alta, mais  justa, fraterna e cuidadora de toda vida:em fim, de um Brasil no qual teremos alegria de viver e conviver com justiça, onde será mais fácil a amorosidade e a jovialidade que caracterizam o melhor de nós mesmos.

 

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018; Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal? Vozes, 2121.