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quarta-feira, 5 de abril de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - PASTORAL INDIGENISTA

 


Dom Pedro Casaldáliga



 

        A Pastoral Indigenista é:

        - específica;

        - qualificada;

        - de emergência.

        Em Pastoral Indigenista, é bom recordar a constatação de Rahner: "O caminho ordinário (por ser majoritário) da Salvação dos povos são as religiões não-cristãs".

        A Pastoral Indigenista não pode cair na regionalização das Igrejas locais ou dos Regionais do CIMI ou da CNBB, ilhados em si mesmos e desconectados da global Pastoral Indigenista do Brasil e da América. A Pastoral Indigenista deve ser continental.

     

Pedro Casaldáliga, Na Procura do Reino

#Casaldàliga!

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#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

sábado, 1 de abril de 2023

A FOME DO OUTRO: PROBLEMA ESPIRITUAL


      Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Como em todos os anos, a Igreja Católica no Brasil lança a Campanha da Fraternidade por ocasião da Quaresma. Nesse tempo em que os cristãos são convocados a converter-se e preparar-se para celebrar o mistério pascal de Jesus, centro da sua fé, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lança um alerta, um apelo.  Escolhe um tema candente e desafiante para  os quarenta dias que precedem a Páscoa. 

            Este ano o tema é a fome.  A fome que rói as entranhas.  Aquela que impede de pensar e de viver. A fome que atormenta famílias inteiras, cujas crianças sofrem o flagelo da desnutrição.  E por que a fome?  Porque o Brasil voltou a seu macabro mapa. Mais de 30 milhões de brasileiros não têm o que comer.  Ainda que surpreenda, ainda que estarreça em um país com tantos recursos naturais, com uma agricultura pujante, essa é a realidade. Muitos brasileiros passam fome.  E entre esses, não poucos são vitimados e morrem de desnutrição e insegurança alimentar. 

            Perguntarão alguns: mas por que a Igreja tem que se ocupar com este problema, que é econômico, social? Não é uma questão religiosa.   Isso deveria ser pauta dos governos em todos os níveis, inclusive das universidades.  Por que a Igreja situa em seu centro de atenções no tempo litúrgico mais importante do ano esse problema tão material? Não deveria propor algo que toque mais de perto o espírito, a vida de oração, o crescimento devocional de seus fiéis?

            Acontece que a fome é, sim, um problema espiritual.  E dos mais importantes.  Porque está diretamente conectado à vida.  Sem comer, não se vive.  E o Deus que Jesus de Nazaré veio anunciar e chamou de Pai é o Deus da vida.  Tudo que deseja é que seus filhos amados tenham vida em abundância.  A fome portanto é uma agressão das mais  violentas ao projeto de Deus, o Reino da justiça, da paz e do amor. Por isso, a CNBB convoca  todos os cristãos a se responsabilizarem diante deste flagelo que voltou a crescer no país.  

            Os bispos do Brasil, portanto, com a Campanha da Fraternidade 2023 são claros em sua proposta: a fome não é um problema alheio a Deus, à fé e à religião.  Pelo contrário, está no centro da vida e do projeto de Jesus e de todos aqueles e aquelas que nele creem.  Como diz o grande pensador ortodoxo Nikolai Berdiaev: “Se eu tenho fome é um problema biológico.  Se o meu irmão tem fome, é um problema espiritual” .

            A Igreja deseja despertar os sentidos, a cabeça e o coração de todos para uma situação que não pode ser tratada com indiferença e considerada normal.  O fato de uma pessoa, criatura de Deus, passar fome e não ter o que comer; ter que ir para os fundos dos açougues esperando encontrar algum osso para dar a sua família; ter que revirar latas de lixo como os ratos para encontrar sobras das mesas fartas, não pode ser tratado com um dar de ombros indiferente, como se não fosse problema meu.  

            O grande escritor brasileiro Fernando Sabino escreveu uma memorável crônica  - Notícia de jornal - sobre um homem que passava fome na rua e ali acabou morrendo sem receber o socorro de ninguém. 

“ Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.  Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? O que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

A Igreja do Brasil não quer que isso aconteça.  E mais: deseja dizer aos cristãos que isso não pode acontecer.  Nunca.  A fome do outro é problema meu, nosso.  Por isso, como lema da Campanha da Fraternidade temos a bela frase do Evangelho de Marcos que narra a multiplicação dos pães: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.  

Jesus viu a multidão faminta e compadeceu-se dela.  Os discípulos argumentavam que era melhor mandar todos embora, que não tinham dinheiro para comprar comida.  O Mestre disse, então, que o que tinham pusessem em comum.  E afirma o evangelho que todos comeram e ficaram saciados.  

Não há que delegar, terceirizar, responsabilizar os outros.  Dizer que isso é problema da prefeitura, do governo do estado, da presidência da República.  “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A fome do outro é um problema espiritual e ao mesmo tempo um mandato.  Quem tem fome não pode esperar.  Precisa ser alimentado. E se eu me deparei com alguém com fome, sou eu que devo dar-lhe de comer, repartindo o que é meu para que todos sejam saciados. 

 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Prisão de Bolsonaro será disciplinadora

 Leonardo Boff 


 

Contradizendo vários de meus colegas de que não se deve agora condenar Bolsonro,apenas desgast-lo, pondo à luz seus crimes e só no fim puni-lo pensamente com a prisão, eventualmente levá-lo ao Tribunal Penal de Haia e deixá-lo por lá mesmo,como foi feito com muitos condenados por crimes contra a humanidade. Bolsonaro não fica muito aquém de Hitle e de Pinochet e de outros fascínoras. O Brasil não pode deixar nornalizar sua situação e deixá-lo vagando por aí até encontrar um país, com mentalida dele onde possa se esconder. Sou decidicamente pela extradição e julgamento imediato desse criminoso de milhares de pessoas, beirando o genocídio ou sendo de fato um genocida.

Publicamos este texto corajoso de Hildegard Angel que viveu na própria família o horror da repressão e do assassinato de seu irmão Stuart Angel Jones. Lboff

 

Hildegard Angel, Jornalista, ex-atriz, filha da estilista Zuzu Angel e irmã do militante político Stuart Angel Jones

“Sua prisão não provocará comoção alguma. Ela fará vermes, ratos e lagartos retornarem aos grotões lamacentos de onde emergiram”, diz a colunista

A cada dia mais me escandalizo com a insistência da imprensa brasileira em normalizar uma figura política monstruosa, incompetente e irresponsável como Bolsonaro, enquanto a mídia estrangeira se mantém horrorizada com ele. 

Vejo analistas e comentaristas políticos se referirem ao governo passado como se este tivesse sido algo regular, e não uma evidente anomalia, um governo disfuncional, um período distópico da vida brasileira. 

Todo surto de esquizofrenia necessita tratamento até ser retomada a sanidade. Com o estado brasileiro não será diferente. Não se salta do caos absoluto para o corriqueiro, num piscar de olhos. Há que se providenciar a recuperação até a cura.

Para o Brasil retomar a normalidade suas instituições devem dar o melhor exemplo, a partir da imprescindível responsabilização criminal de Bolsonaro e seus comparsas. Essa alegação de que ele “vai virar mártir” não cabe para quem é um vilão assumido e convicto, vide “Argentina 1985”, em que a condenação dos arrogantes malfeitores

Os efeitos da malignidade de Bolsonaro se espraiaram pela nação brasileira em todos os campos. Bolsonaro estuprou o Brasil, com violência e torpeza. Das florestas à economia, da dignidade ao conhecimento, da saúde à compostura, à inocência, nada foi poupado em sua ação predatória. 

 

De tal forma que as feridas deixadas por ele na vida brasileira dificilmente cicatrizarão. O trauma será longo, se não for perpétua.

Bolsonaro precisa ser responsabilizado, sim, levado aos tribunais, locais e internacionais, julgado e condenado. Precisa ser preso, sim, porque ele fez por onde. Caso isso não ocorra, será uma desmoralização para a Justiça brasileira, terá sido o crime perfeito, abrindo caminho para outros projetos de destruição de nosso estado.

Os que não se deram conta disso, que se mirem no exemplo do próprio Bolsonaro, que se mantém a cuidadosa distância do Brasil, à espera de a poeira baixar. 

Sua prisão não provocará comoção alguma, ao contrário do que alguns receiam. Será uma ação disciplinadora, educativa até. Ela fará vermes, ratos e lagartos retornarem aos grotões lamacentos de onde emergiram – e que jamais deles retornem – confirmando a covardia de suas práticas”

Leonardo Boff, teólogo e filósofo escreveu Homem anjo bom ou satã, Record 2008.

 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

SIGNIFICADO DA QUARESMA

 Frei Betto


 

 

       Quaresma é um período de 40 dias. Na Bíblia, os números não são aleatórios. Guardam significadoO 7, por exemplo, equivale ao nosso 8 deitado (¥), símbolo do infinito. Nossos pecados, disse Jesus, serão “perdoados, não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete” (Mateus 18,21-22). A misericórdia de Deus é infinita.

       Nos textos bíblicos encontramos muitas aplicações do número 40, que simboliza o tempo de Deus. O dilúvio durou 40 dias e 40 noites (Gênesis 7,17). Moisés tinha 40 anos quando feriu um egípcio e se viu obrigado a fugir (Êxodo 2,12 e 15). Antes de receber as tábuas da lei, ele jejuou durante 40 dias e 40 noites (Deuteronômio 9,9). Quarenta anos mais tarde teria liderado a libertação dos hebreus da escravidão no Egito. A travessia dos hebreus pelo deserto – o êxodo –, rumo a Canaã, teria durado 40 anos (Êxodo 16,35). O profeta Elias “caminhou 40 dias e 40 noites até o Monte Horeb, a montanha de Deus” (1 Reis 19, 8). 

       Como informa Marcos, após a ressurreição Jesus permaneceu 40 dias em companhia dos discípulos.

       A Igreja instituiu a Quaresma – que se inicia na Quarta-feira de Cinzas e culmina no Domingo de Ramos - como tempo litúrgico que precede a Semana Santa e nos prepara para a Páscoa, a celebração da ressurreição de Jesus, a mais importante festa cristã. 

       Assim como os hebreus demoraram 40 anos para cruzar o deserto após se libertarem da opressão no Egito, e Jesus jejuou durante 40 dias antes de iniciar a sua militância, a Igreja recomenda aos cristãos, nesses 40 dias de Quaresma, assumirem uma postura penitencial. 

       Penitência não significa reconhecer as culpas. É muito mais do que isso. É fazer a travessia para um compromisso maior com atitudes de solidariedade. Postura amorosa e engajamento de justiça. Por isso, todos os anos, desde 1964, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) lança na Quaresma a Campanha da Fraternidade. A cada ano adota uma motivação temática diferente. Este ano é a fome. 

       Dados do governo revelam que temos hoje no Brasil 33,1 milhões de pessoas desnutridas, e 125 milhões em insegurança alimentar, ou seja, comem hoje sem saber se poderão repetir amanhã.

       A penitência mais significativa, que agrada a Deus e ao próximo, é se empenhar no socorro aos mais pobres. E, se possível, de modo menos assistencialista possível e mais estruturante. É obvio que dar um prato de comida a quem tem fome é importante, por suprir a mais elementar necessidade do ser humano: alimentar-se. Contudo, melhor que indicar o caminho é oferecer o transporte. Age de modo estruturante quem cede um lote em área de sua propriedade para uma família sem-terra; consegue um trabalho para um desempregado; matricula na escola a criança analfabeta; apoia uma politica governamental que beneficia os excluídos etc.

       Quaresma é também tempo de reabastecimento espiritual: oração, meditação, reflexão da Palavra de Deus, leituras espirituais, participação litúrgica. Sem reforçar a espiritualidade corremos o risco de desanimar ou ficar indiferente diante das necessidades do próximo.

       Engana-se quem julga que “sacrifício” na Quaresma é apenas deixar de comer carne bovina, suína ou avícola, embora se farte de peixes e outros quitutes. Isso é descarado farisaísmo. Se queremos realmente viver a Quaresma na dinâmica da espiritualidade de Jesus devemos dar um pouco de nós. Do nosso tempo, da nossa vida, das nossas posses. 

       A parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Por isso, neste ano proponho, como ação quaresmal, associada à proposta da Campanha da Fraternidade, a solidariedade, em forma de recursos financeiros, ao povo Yanomami, que padece desnutrição e doenças em decorrência do fato de seu território, na Amazônia, ter sido invadido pelo garimpo ilegal. Quem quiser participar veja minha Carta de Quaresma no site: freibetto.org

       E Deus lhe pague!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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