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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SOBRE ADVENTO, GRAVIDEZ, GESTAÇÃO E ESPERANÇA

Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer



Advento é  tempo de gravidez.  Gravidez de esperança pelo novo que vem em forma de menino, humano e indefeso, nascido de mulher.  E é a esse mistério tão singelo e despretensioso, pelo qual o mundo é mundo e a cadeia da humanidade segue adiante por séculos e milênios que a  fé cristã atribui a salvação do mundo.  É nesse mistério de esperança frágil e desprotegida, exposta a todas as intempéries que a revelação afirma que chegou a plenitude dos tempos.

    
    
O que acontece no ventre de Maria e aconteceu, acontecia e acontecerá nas entranhas de todas as Marias, Ednas, Joanas, Cristinas e Anas que povoaram, povoam e povoarão a terra é o atestado de que é a esperança que move o mundo e quando parece já não haver mais nada a esperar a convicção de que em algum lugar, em alguma parte, uma mulher grávida dará à luz um filho.  E a esperança recomeçará a brotar da aparente esterilidade que ameaça assolar e ressecar a face da terra.

O Natal, portanto, é tempo de gravidez e gestação.  Neste menino pequeno e recém-nascido ao frio e ao calor, à fome e à sede, à saciedade e ao carinho, à dor e à alegria se encarnou a Palavra que vinha germinando nos sulcos do mundo, nas veias da história, e nas entranhas maternais de todo instante, desde o começo dos tempos.   Quando o Pai de toda paternidade contraiu suas entranhas paterno-maternais para dar lugar ao que não era divino e criar o cosmos, já a esperança habitou o fundo da terra, anunciando o desejado dia em que a criação voltaria a ser semelhante ao criador do qual era imagem.

Na plenitude dos tempos, desde as entranhas da terra e da humanidade, nascerá Jesus, do ventre de Maria de Nazaré.  Não descerá do alto, dos espaços siderais em algum voo de emergência.  Brotará do humano, da carne vulnerável e mortal.  Deus se fez carne em Jesus de Nazaré, herdando em seu peito o sangue e o pranto, as alegrias e os desejos das gerações humanas que o haviam precedido e todos os futuros e mistérios desconhecidos e desejados.

       
 Este é o mistério pelo qual hoje esperamos.  A justiça e a paz vêm de baixo e dos que estão abaixo.  Se a nossa justiça não abarcar aqueles que estão à margem das benesses do progresso e da sociedade em que vivemos, será como a palha que queima e se transforma em cinza. 

Olhar para baixo: esta é a diretriz que nos é dada neste Advento, enquanto esperamos que a Palavra que já se fez carne no ventre de Maria de Nazaré seja por ela dada à Luz. A Luz que é desde o começo dos começos, da qual veio a Luz para o mundo, é dada à luz por uma mulher.

Portanto, que não se abra a terra para semear minas que explodirão vidas humanas em mil pedaços.  Que não se abra tampouco a terra para enterrar os cadáveres dos justos e o pranto das viúvas e dos órfãos.  Que não se abra jamais para fazer desaparecer os torturados, plantar sementes envenenadas da cobiça e sepultar os sonhos irrealizados.

Que se abra, sim, a terra para que brote hoje e sempre, com sabor e aroma de novo, frágil e indefesa, a epifania, a manifestação de Deus que se faz criança na carne frágil de Jesus de Nazaré.  Que se abra a terra, para que a gravidez universal da criação se torne parto infinito e constante.  Que a nova criação seja parida na caridade vivida, nos gestos humildes de amor aprendidos no Deus que desce e se encarna no mais estreito e frágil da Criação da qual é Senhor.

   
     
Que a nossa humanidade, enfim, aprenda nesse Advento a preparar-se para abrir-se e acolher o outro que sofre, chora e é infeliz.  O outro que está faminto, sedento, cativo e nu.  Que o coração vá aprendendo a ser  de carne e não de pedra neste tempo de espera em que Deus, uma vez mais, cresce no ventre daquela que é cheia de graça  para ensinar que o amor é  flor tão frágil quanto preciosa; tão bela quanto mais indefesa; mais ofuscantemente deslumbrante justamente quando se encontra mais ameaçada. E que é preciso cuidá-la com carinho, para que ilumine e encha de beleza o mundo tão cheio de ameaças, guerras e morte. Mundo no qual perdem os que têm razão e ganham os que não a têm.  O Advento do Menino que a Mãe prepara e acolhe em seu ventre imaculado inverte essa equação e mostra onde está a verdadeira vitória, nos subterrâneos da história,  onde se encarna a fragilidade do amor.

A maternidade de Maria nos ensina algo muito importante, a nós que vivemos em uma sociedade que valoriza a gravidez e a gestação  de maneira produtivista, no sentido de que a mulher tem que ter filhos e ser mãe, mas também trabalhar, ser produtiva etc.  E quando isso nao acontece é uma enorme frustração, fonte de depressão.

O único discurso organizado que ajuda a compreender a complexidade simbólica ou cultural da experiência materna é o religioso. A sociedade laicizada e secular não tem uma palavra ou discurso adequado para isso.

Para nós, que celebramos o Advento, a figura da Virgem Maria, a jovem de Nazaré desposada com o carpinteiro José, que se prepara para dar à luz aquele que veio do alto e do infinito, fica o convite à contemplação e à adoração.  Adoremos pois, esse que a Mulher nos mostra em seu ventre grávido.  Dali sairá a verdadeira Luz para todo aquele ou aquela que vem a este mundo.

Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)
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