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sábado, 15 de agosto de 2020

COVID -19 QUINQUAGÉSIMA- SEXTA REFLEXÃO - PROBLEMAS DE FAMÍLIA (2) EM TEMPOS DO CORONAVÍRUS

 


 FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     "Tendo ouvido suas palavras, uma mulher do povo exclamou, maravilhada: "bem-aventurados o ventre que te gerou e os peitos que te amamentaram". Ao que Jesus respondeu: "antes bem-aventurados os que ouvem as minhas palavras e as põem em prática" Lc.11,27.

     Logo após esta citação bíblica, suspendemos nossa última REFLEXÃO, com a promessa de dar-lhe continuidade na próxima. Aquela primeira abordou um tema polêmico, baseado em fatos reais, amplamente conhecidos, de famílias que enfrentaram graves crises de relacionamento,   como sequelas da última campanha e eleição presidenciais.  Suas convicções políticas antagônicas criaram divisões, em muitos casos, intransponíveis. As reações foram diferenciadas. Contudo, a  incompatibilidade e o acirramento das posições levaram muitos a um distanciamento físico, como uma estratégia de preservar o amor, evitando rupturas irreversíveis.

     Nisso tudo, onde fica o amor?

     Quem viu o filme "Dois Papas" talvez lembre um pensamento colocado na boca do Papa Francisco: "a Verdade é necessária, mas, sem Amor, ela se torna insuportável".

     Cada componente de uma família possui o direito inalienável de manter e defender suas próprias convicções. Logo, porém, que estas se contrapõem e se atritam, sendo o amor ferido e não cicatrizando esta ferida, é a Verdade que se torna insuportável.

     Pode então chegar o momento em que o amor mesmo pede o distanciamento físico, a fim de salvar-se de uma possível corrosão. Quantas vezes já assistimos a cenas de amantes dizendo-se mutuamente: "precisamos de um tempo afastados"! Aí descobrimos a resposta: o amor fica onde sempre esteve: no coração das pessoas.

     A passagem do Evangelho citada no início abre-se ao nosso entendimento. Ela está associada a uma outra do mesmo evangelista. Nossa Senhora, igual a uma mãe zelosa, reclama do Filho a longa ausência  inesperada. "Não sabíeis que devo ocupar-me primeiro das Coisas do Pai"?, responde Jesus. "Coisas do Pai", esta era a sua obsessão que Ele chamava de "Reino de Deus". (Vinte séculos depois, um grande profeta fez esta mesma afirmação com outros termos: "minhas Causas valem  mais do que minha  vida" - Pedro Casaldáliga.)

     Todos concordam que a família é a primeira escola de aprendizagem em função da vida. Sua tarefa é educar (do latim "ex-ducere") que significa conduzir de dentro para fora. Por conseguinte, o molde constitutivo de cada pessoa tem a ela mesma como ponto de partida e não está determinada pelos laços de sangue. O seu destino é maior do que as fronteiras da família. Um belo dia ela ultrapassa estas fronteiras e sai em busca do seu destino. Isso não se dá sem sofrimento. Por isso a família é também a escola onde se aprende a última lição do amor: não é possível amar sem sofrer.

     Quando se diz que o lugar de guardar o amor é o coração, isto quer dizer que ele permanece vivo ali onde a vida palpita, torna-se um bem de reserva à espera das surpresas do tempo. Como escreve o sociólogo Jessé de Souza: "tudo o que por nós é feito por nós pode ser desfeito".

     Sobre este assunto há uma outra passagem bíblica bastante ilustrativa:  a Parábola do Filho Pródigo, a saga de um jovem inexperiente que abandona o convívio da família em busca de aventuras. Ele é movido por sonhos e fantasias imaginados em um outro mundo, muito além da rotina familiar. O pai acolhe sua opção de partir com dor e compreensão, oferecendo-lhe a benção e a herança. Não há ruptura de amor de parte a parte, ao contrário, ao reconhecer-se fracassado, o filho voltará à casa do pai confiante na sua acolhida misericordiosa, e, ao mesmo tempo o abraço paterno cheio de comoção é o reconhecimento de que seu filho aprendera a lição que só se aprende arriscando-se a abrir seus próprios caminhos.

     Talvez esta quarentena com sua exigência de isolamento compulsório seja uma boa oportunidade de reavaliar todas estas questões. Cremos que o tempo é mestre da vida e que Deus nos educa através dos sinais do tempo. Desde que ninguém pretenda fazer de sua percepção da Verdade um dogma irrevogável, e seja conduzido pela virtude da sinceridade, acontecerá o melhor desfecho: a parte da Verdade em cada um (a Verdade total só a Deus compete) há de confrontar-se com os fatos reais e sofrer grandes impactos, até que prevaleça a única Verdade definitivamente libertadora, a de Deus agindo em nossa História.  Amém.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

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