O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador Faixa de Gaza. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Faixa de Gaza. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CARINHO MATERNAL NA FAIXA DE GAZA

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer,professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio


             A foto não é de hoje, mas de dois anos atrás.  Ano da graça (ou da desgraça) de 2014. Tive acesso a ela há pouco tempo, pela internet, onde começou a circular novamente nas últimas semanas.  E tanto me impressionou que aqui escrevo em homenagem à menina que tem sua infância roubada em meio aos horrores da Faixa de Gaza (ver no Google site “fotógrafos registram dramade crianças na guerra - o horror da Faixa de Gaza”).

            Não sei seu nome, mas ele não é um só.  É mais de um, são milhares, milhões, infelizmente estuprados em suas frágeis e jovens vida; desgraçadamente agredidos em sua inocência.  Milhões de crianças que deveriam estar brincando despreocupadas e estão, ao contrário, sofrendo ataques que transformam em pó tudo aquilo que antes constituía o “habitat” delas.  Pequenos e pequenas que correm o risco de serem incluídas nas tristíssimas estatísticas das mortes que povoam os fatos absurdos que ocorrem hoje no Oriente Médio, avançam pelo Ocidente e aportam na velha e civilizada Europa.

            Você é uma de tantas, apesar de ser única.  Ninguém possui este mesmo olhar, esta mesma beleza tisnada pelo sol e pela pólvora, esmaecida pela poeira que voa dos escombros que um dia foram seu lar, sua casa, sua cidade.  Ninguém como você, apesar de ser irmã de infortúnio de tantas outras.  E para marcar bem sua unicidade irrepetível você faz um gesto.  Um gesto que eternizou na história sua refinada sensibilidade de criança.
            Provavelmente muitas vezes sua mãe – ou qualquer outra pessoa chegada a você – quis proteger seus olhos dos horrores que aconteciam a seu lado e à sua volta.  Talvez nessas ocasiões tenham posto sobre seus olhos inocentes a mão protetora poupando-os da visão da violência inclemente e contínua.

            Não sei se você reproduziu esse gesto que lhe trazia um sentimento de conforto, de amparo contra o medo inexplicável e arrebatador que lhe tomava o coração e as entranhas.  Seja essa ou não a verdadeira interpretação, em todo caso é a minha.  Vendo sua mãozinha sobre os olhos da boneca que você certamente muito ama, isso intuí, pensei e rezei.  Você quis poupar sua filha de celuloide daquilo que sua mãe um dia poupou você.  Quis preservar sua inocência, impedindo-a de ver a morte campeando por todo lado e ceifando vidas de toda sorte, inclusive muitíssimas de crianças iguais a você.

            Vedando a visão de sua boneca do que acontecia à sua volta, você talvez expressasse aquilo que tinha medo de ver.  Não podendo defender-se, defendia a outra, de celuloide, não viva.  Ou melhor, viva sim, mas apenas em seu coração e imaginação de criança.  E por assim ser viva, digna de seu gesto de carinho. 

            Devemos à sensibilidade daquele ou daquela que a fotografou o testemunho desse carinho de mulher e mãe que brota instintivo da menina que você ainda é.  A foto dá testemunho daquele instante em que você, com o mundo desabando, defende a vida, impedindo-a de ver a morte que parece vencer.  Mesmo que essa vida fosse apenas de uma boneca.


            Com a mão sobre os olhos da boneca, você não quer que ela veja aquilo que também não quer enxergar: as perdas trazidas pela violência, a morte de seres queridos, o desgoverno que prolonga indefinidamente absurdas guerras que ceifam vidas diariamente.  Mais ainda: não quer que ela veja o futuro que talvez não virá para você, como não veio para muitas crianças e não virá talvez para muitas e mais outras.

            Se este futuro não chegar, a boneca deixará de ter a mãe que é você. Deixará, portanto, de ser alguém vivo no coração e na imaginação de uma menina para ser um brinquedo quebrado e jogado em meio aos escombros de um lugar por onde passou a máquina mortífera da guerra. 

Nada há mais triste e melancólico que as fotos feitas após um bombardeio ou um ataque, onde só se veem - após a retirada dos corpos - ruínas semeadas de pés de sapatos desemparelhados, brinquedos quebrados, objetos esfacelados.  Restos tristes de um lugar que já foi cheio de vida e agora só exibe destruição e desolação.

            Não sei se você ainda vive, menina de quem não sei o nome. Se sim, estará mais crescida do que naquela foto.  Talvez já não brinque tanto de bonecas.  Mas seu rostinho assustado e choroso foi eternizado através das lentes de um fotógrafo sensível. Um comovente e desesperado gesto de carinho maternal que dá testemunho da teimosia da vida em meio ao avanço aparentemente inexorável da violência e da morte.
  
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do departamento de Teologia da PUC-Rio

A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
  
 Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

domingo, 25 de novembro de 2012

A FAIXA DE GAZA E A PAZ QUE DEMORA


Por MARIA CLARA BINGEMER


 
            Há  uma semana o mundo acompanha angustiado o desenrolar dos bombardeios e ataques  na faixa de Gaza. E agora já passa de cem o número de mortos.  A paz está  novamente de luto no Oriente Médio.

            De  várias partes figuras da diplomacia internacional se mobilizam para conseguir  a paz.  O presidente do Egito chegou a anunciar que o cessar fogo estaria  próximo e aconteceria hoje à noite.  Mas, passada  a meia-noite  deste dia 20 de novembro continuam os  bombardeios.

            A  violência começou com represálias menos violentas, mas aumentou  exponencialmente quando o comandante Ahmed Jaabari, chefe das operações  militares do Hamas, foi morto durante um bombardeamento israelita na Faixa de  Gaza. Jaabari era o comandante das brigadas Ezzedin al Qasam, o braço armado  do Hamas. Segundo testemunhas, Jaabari morreu na explosão de seu automóvel  junto com um acompanhante. Ahmed Jaabari era a mais alta patente do Hamas a  ser morta desde que Israel invadiu Gaza há quatro  anos.
  
             O  Shin Bet, serviço secreto israelita, confirmou o ataque, que justificaram como  resposta à atividade terrorista exercida por Jaabari durante uma década. Os  israelitas responsabilizavam-no pelos constantes ataques ao seu território e  pelo emblemático sequestro do soldado Gilad Schalit, em  2006.

            Há  dias,  momentos de silêncio e aparente tranquilidade alternam-se com  dezenas de explosões de grande potência, que depois cessam para dar lugar a um  silêncio quebrado ocasionalmente por alguma outra detonação mais fraca. Os  bombardeios sobre a faixa palestina são incessantes e o lançamento de foguetes  das milícias palestinas contra Israel também não  para.

            Os  civis que residem ali recomeçam cada dia sua rotina sob a ameaça que já vivem  há tanto tempo. Com a esperança da trégua e do cessar fogo, algumas pessoas   foram comprar mantimentos para a eventualidade de o conflito continuar.   E aconteceu, infelizmente, o que esperavam.

            Enquanto  isso, a esperança de que o conflito seria interrompido reinava. O ministro das  Relações Exteriores turco, Ahmet Davutoglu, afirmara que a trégua entraria em  vigor à meia-noite deste dia 20, durante sua visita à Gaza junto com um grupo  de colegas árabes. O próprio presidente egípcio, Mohammed Mursi, assegurou   que "a farsa da agressão israelense contra Gaza“ terminaria. Declarou  que os esforços desdobrados pelo Egito para conseguir um cessar fogo entre  palestinos e israelenses dariam "resultados positivos nas próximas horas”.

No entanto,  a menos de duas horas do início da  suposta trégua  não havia nenhum acordo israelense sobre uma fórmula para  alcançar um cessar fogo. E o passar das horas confirmou que as esperanças não  tinham fundamento e a violência iria continuar.

            As  afirmações vão numa e noutra direção, seja afirmando o cessar fogo, seja  negando-o. Ora a esperança de paz se acende no coração das pessoas, ora  desaparece, esmagada pela violência que continua.

           Em  entrevista coletiva conjunta com a secretária de Estado dos EUA, Hillary  Clinton, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não fez  referência expressa à existência de um cessar fogo.
            Como  sempre acontece nessas ocasiões, as potências e os mandatários políticos  deliberam e decidem.  Em suas mãos movimentam-se os fios da vida de  inúmeras pessoas, mulheres, crianças, idosos. Vidas indefesas, projetos  sonhados e apenas começados são destruídos em  segundos.

            Em  tantos anos de conflitos incessantes, sem frutos favoráveis que resolvam de  uma vez por todas a situação, parece óbvio que a violência e o ataque armado  não são solução para nada, apenas pioram a situação de desentendimento e  conflito.  Porém, tudo continua e o ser humano parece não dar mostras de  conseguir efetivamente construir a paz.

            Ninguém  quer assumir nada de déficit.  Ninguém aceita perder uma polegada sequer  em prol das vidas alheias.  Enquanto isso, Gaza continua a arder sob o  fogo das armas de um e outro lado.  E as mães continuam a chorar os  filhos mortos, a esperança assassinada e o futuro sombrio.

            Enquanto  Gaza arder, o coração dos construtores da paz é obrigado a arder também, de  desejo e zelo, procurando toda ocasião possível existente para construir a  paz.


Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do  Departamento de Teologia da  PUC-Rio,  Autora de "Simone Weil - A força e a  fraqueza do  amor” (Ed.   Rocco).
         
http://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br


Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)