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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

A Mãe Terra possui surpresas desagradáveis

 Leonardo Boff

Desde a mais alta a


ntiguidade a Terra sempre foi tida com Mãe que junto com outras energias cósmicas, nos fornece tudo o que a vida sobre o planeta precisa. O gregos chamaram-na de Gaia ou Demeter,os romanos Magna Mater, os orientais Nana, os andinos de Pachamama. Todas as culturas a consideravam-na com um super Ente vivo que, por ser vivo, produz e reproduz vida.

Somente na modernidade europeia a partir do século XVII a Terra foi considerada com uma “mera coisa extensa”, sem propósito. A natureza que a cobre, não possui valor em si, somente quando for útil ao ser humano.Este não se considera parte da natureza ,mas seu “seu senhor e dono”.Fizeram de tudo com ela,sem qualquer respeito,umas boas e outras letais. Essa modernidade arrojada criou o princípio de sua própria autodestruição com armas de podem destruir totalmente a si mesmo e a vida.

Deixemos de lado este modo fúnebre de habitar a Terra ecocida e geocida, por mais ameaçador que possa ser em qualquer momento.Deixemo-nos desafiar (sem a pretensão de explicar) os últimos eventos extremos ocorridos:grandes enchentes no sul do  país e na Líbia, terremoto arrasador no Marrocos, fogos indomáveis no Canadá, nas Filipinas e alhures.

Em grande parte se está criando um consenso entre a comunidade científica (menos na política e nos grande oligopólios econômicos dominantes) de que a causa principal,não única, se deve à mudança do regime climático da Terra e os limites de insustentabilidade do planeta. É a famosa Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day):consumimos mais do que ele nos pode oferecer.E ele já não esquenta mais.

Como é um Super Ente vivo, reage, enviando-nos aquecimento global,ondas de eventos extremos, terremotos, furacões, vírus letais etc. Chegamos a um ponto de que se não trocarmos o modo devastador dos ecossistemas, podemos ir ao encontro de nosso extermínio como espécie humana. O últimos fatos são prenúncios.

De tudo deve-se tirar lições. Hoje conhecemos, o que era negado às gerações anteriores, como funcionam as placas tectônicas que compõem o solo da Terra.Conhecemos suas fendas perigosas, quais placas podem estar se movendo. A consequência é se construirmos nossas cidades e casas sobre estas fendas,poderá chegar um dia em que ocorre um deslocamento ou entrechoque de fendas,produzindo  um terremoto com sacrifícios humanos e culturais incalculáveis. Lá se vão obras da genialidade humana. A consequência que hoje devemos tirar: não podemos construir nossas habitações e cidades sobre estes lugares. Ou devemos desenvolver tecnologias, como os japoneses o fizeram, que edifícios tendo por base metais que equilibram todo o prédio a ponto de suportar os movimentos de terremotos.

Algo semelhante vale para as grandes enchentes de magnitude avassaladora. Sabemos que todo o rio tem seu leito por onde correm as águas. Mas a natureza previu que deve haver espaços suficientemente grandes em suas bordas que suportem alagamentos. Estes espaços são parte de se leito alargado. Neles em vão se edificam prédios e inteiras cidades. Ao chegar a enchente, as águas reclamam o seu espaço por onde elas escorrem.Então ocorrem as calamidades. Cientes destes dados, impõem-se medidas de contenção ou simplesmente não permitir que nesses lugares se construam casas, fábricas e bairros. Em termos mais radicais, estas partes da cidade devem encontrar um outro lugar seguro para não sofrerem sua danificação ou sua destruição.

Estes são conhecimentos que os governantes e operadores do  poder público devem tomar em conta. Caso contrário, por falta de conhecimento que beira à irresponsabilidade, deverão, de tempos em tempos, enfrentar catástrofes que matam pessoas, destroem casas e tornam certa região inabitável.

Estas catástrofes pertencem à história da Terra. Chegamos a conhecer 15 grandes extinções em massa. Uma das mais importantes ocorreu há 245 milhões de anos por ocasião da formação dos continentes (a partir do único Pangeia). Nela desapareceram 90% das espécies da vida animal,marinha e terrestre. A Terra precisou de alguns milhões de anos para refazer sua biodiversidade. A segunda maior extinção em massa ocorreu há 65 milhões de anos quando um asteroide de quase 10 km de extensão caiu em Yucatan, no sul do México. Isso provocou um  imenso maremoto,com grande volume de gás venenoso e uma treva imensa que obscureceu o sol e assim impediu a fotossíntese e 50% de todas as espécies pereceram.Os dinossauros que por 130 milhões de anos vagavam por parte da Terra foram as principais vítimas.

Curiosamente, depois de cada extinção em massa, a Terra conheceu uma floração fantástica de novas espécies. Depois da última, apareceram  especialmente os  mamíferos, dos quais nós mesmos descendemos.Mas misteriosamente começou também uma terceira extinção em massa. A atual não é como as duas anteriores que ocorreram de golpe. Ela se faz lentamente, por diversas fases, começando  na era glacial há 2,5 milhões de anos. Constata-se nos últimos tempos uma aceleração desta extinção. O regime climático está aumentando dia a dia  e eventos extremos se multiplicam como temos descrito. Entramos num alarme ecológico, pois, como disse severamente o Papa na Fratelli Tutti: “Estamos no mesmo barco,ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”.

Como diz Peter Ward, em seu livro “O fim da evolução”(Campus 1997):”Há 100 mil anos atrás, outro grande asteroide atingiu a Terra, dessa vez na África. Este asteroide chama-se homo sapiens”. Quer dizer, é o ser humano moderno que inaugurou o antropoceno,o necroceno e piroceno. Se grande é o risco,dizia um poeta alemão, grande também é a chance de salvação. É nessa que espero e confio,não obstante as calamidades descritas acima.

Leonardo Boff, escreveu O doloroso parto da Terra, Vozes  2021; Habitar a Terra  2022.

 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

O DOLOROSO PARTO DA MÃE TERRA: UMA BIOCIVILIZAÇÃO

 

    Leonardo Boff


 

A Cúpula das Mudanças Climáticas convocado pelo presidente Joe Biden, exprime um grito de alarme. Se não detivermos o aquecimento até o limite de 1,5 graus, conheceremos perigoso extermínio da biodiversidade e milhões de migrantes climáticos que, não podendo se adaptar às mudanças e por perderem seus meios de subsistência, sentem-se constrangidos a abandonar suas pátrias queridas e romper  os limites de outros países, causando graves problemas sociopolíticos.

 O CO2 permanece na atmosfera por cerca de 120 anos. Tarde acordamos por sua toxidade sobre os sistemas vivos e sobre o nosso futuro. Nos últimos anos ocorreu algo amedrontador: o degelo rápido do permafrost aquela parte congelada que vai do Canadá e atravessa toda a Sibéria. Acresce ainda o degelo célere das calotas polares e da Groelândia. Este fenômeno agrava o aquecimento global porque o metano é 25 vezes mais nocivos que o CO2. Cada cabeça de bovino, por ruminação e flatulência, emite  por dia entre 80-100 kg de metano lançado na atmosfera. Imagine-se o que significa tal quantidade com todos os rebanhos do mundo. Só no Brasil o número de bovinos  é maior do que a nossa população.

Por mais que fizermos, devido à acumulação de gazes de efeito estufa na atmosfera, não teremos como evitar efeitos extremos. Eles virão: tufões, estiagens prolongadas, verões extremamente quentes e nevascas excessivas, erosão da biodiversidade e perda da fertilidade dos solos e  outros.  O que podemos e devemos é prepararmo-nos para a sua irrupção e destarte minorar os efeitos desastrosos.

Ninguém na Cúpula do Clima teve coragem de apontar as causas primordiais de nosso aquecimento global: o nosso modo de produção capitalista em cujo DNA está o crescimento ilimitado que demanda a extração ilimitada de recursos naturais a ponto de debilitar fortemente a sustentabilidade do planeta. Uma Terra finita não tolera um projeto infinito. Aqui está a causa, entre outras menores, do aquecimento global. Todos sabem que aqui reside a questão originante. Por que ninguém a denuncia? Porque ela é diretamente anti-sistêmica, porque fere o coração do paradigma moderno tecno-científico do desenvolvimento/crescimento ilimitado, com o qual os Estados e as empresas estão comprometidos. Seriam obrigados a mudar o que seria contra sua lógica. Mas não o fazem pois o lucro prevalece sobre a vida. Somente o presidente argentino Alberto Fernández teve a coragem de denunciar:”A poluição é o caminho para o suicídio”. Sua afirmação se afina com a declaração há poucos anos da Academia Norte-americana de Ciências que fez uma declaração mais ou menos nestes termos: Se não cuidarmos, o aquecimento pode dar ‘um salto abrupto’ (expressão empregada) até atingir, em pouco tempo, cerca de 4 graus Celsius; com esse calor, afirma-se, dificilmente as espécies de adaptarão e milhões desaparecerão, inclusive milhões e milhões  de serem humanos.

Praticamente todos lamentam que os “decisions makers” políticos e empresariais mostram grave insuficiência consciente dos riscos que pesam sobre nossa Casa Comum. Não é descartado que algo ocorra semelhante ao que ocorreu com o Covid-19. Não obstante a advertência dos especialistas em vírus de que estaríamos na iminência da intrusão de um grave vírus, muito poucos se preparam para essa eventualidade. Por isso é imprevisível um salto para um novo nível de consciência coletiva que nos permita inaugurarmos uma nova normalidade diferente da anterior perversa para a humanidade e para a natureza. Questionamos: tiramos as lições enviadas pelo contra-ataque da Mãe Terra à humanidade através do Covid-19? A considerar o descuido generalizado parece que permanecemos na ilusão da volta à antiga e iníqua normalidade.

O discurso de nosso Presidente na Cúpula na Casa Branca foi de mera conveniência. Deu clara demonstração ser um lídimo representante da pós-verdade, pois realizou o dito da ancestral sabedoria chinesa: de um político não repare a boca que fala mas as mãos que operam. A boca contradisse totalmente o que as mãos fazem. A boca proferiu promessas, praticamente irrealizável e as mãos, através de seu ministro antiambiental, pratica sistemática devastação das florestas e a desmontagem dos organismos de preservação dos ecossistemas.

Como o “Inominável” é aliado do Covid-19 assim o ministro do Meio Ambiente é aliado dos madeireiros que ilegal e criminosamente comparecem como os principais responsáveis pelos 357,61 km2 de floresta abatida, a pior dos últimos anos. As mãos negam o que a boca diz.

Apesar de todos os pesares, cremos e esperamos que a humanidade vai aprender com o sofrimento e oxalá com amor: ou mudaremos ou nas palavras de Sigmunt Bauman, proferidas uma semana antes de morrer, vamos engrossar o cortejo dos que rumam na direção de sua própria sepultura.

A história humana e natural nunca é linear; conhece rupturas e da saltos para cima. Ela nos está convidando a nos reinventar. Não bastam meras melhorias e colocar esparadrapos sobre as chagas do corpo ferido da Mãe Terra. Somos forçados a um novo começo. Ele, consoante a Carta da Terra e a encíclica do Papa Francisco, cujos destinatários é toda a humanidade,”sobre o cuidado da Casa Comum”(Laudato Si  e a Fratelli tutti):”estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.35;54;137). A Terra passou por 15 grandes dizimações mas a vida sempre sempre sobreviveu. Não será agora que irá se autodestruir. Entrevemos um aprendizado difícil de toda a humanidade, porque não temos outra alternativa senão essa: ou  viver ou perecer. O próprio Freud, embora cético,, ansiava o triunfo da pulsão de vida sobre a pulsão de morte. A vida é chamada a mais vida e até à vida eterna.

Nessa esperança esperante acabo de publicar um livro,mais otimista que pessimista, mas de um realismo viável, que visa a garantir um horizonte promissor: O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social. É uma utopia? sim, mas necessária, para podermos caminhar. Releva lembrar que o utópico pertence ao real, feito não apenas de dados sempre  feitos, mas também por potencialidades ocultas que esperam irromper e ser feitas para permitir um nova pegada no chão da história. Não vale pisar em pegadas feitas por outros. Temos que criar as nossas próprias pegadas. Música nova, ouvidos novos. Crises novas, respostas novas. Ainda temos futuro, fortalecidos por Aquele que se anunciou “ser o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26). Ele nos ajudará a fazer uma travessia dolorosa mas verdadeira e feliz. Assim cremos e assim esperamos.

Leonardo Boff,ecoteólgo e filósofo e escreveu: O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social, Vozes 2021.

 

terça-feira, 20 de abril de 2021

A CURA DA MÃE TERRA E A PANDEMIA

 Marcelo Barros



 

Neste ano, o tema da Agenda Latino-americana 2021 é  a cura da Mãe Terra. Este tema foi expresso pelo título: “Retorno ou não retorno. É tarde, mas é nossa hora”. Chama-se de “não retorno” o ponto no qual o planeta Terra não pode mais recuperar as mínimas condições de sobrevivência. De fato, desde alguns anos, os cientistas vêm alertando que, se prosseguir neste ritmo, a destruição ecológica pode tornar a Terra um planeta desértico e sem vida

Embora ninguém tem certeza de como o Coronavírus apareceu na sociedade humana, está comprovado que o seu surgimento tem alguma coisa a ver com a destruição da natureza. Este vírus existia há bilhões de anos, adormecido na natureza, sem fazer mal a ninguém. Destruído o ecossistema, ele acorda e se multiplica desordenadamente infligindo a humanidade uma tragédia que parece sem fim.

É preciso abrirmos os olhos para vermos a relação entre uma coisa e outra. No mundo, mais de dois terços das grandes florestas estão destruídas, ou em séria ameaça de destruição. Calculam-se que, a cada ano, 50 mil espécies vivas desaparecem da Terra. Na última década, a temperatura média das águas dos oceanos aumentou em mais de um grau.

Diariamente, se lançam no ar, na terra e na água novos produtos químicos que  envenenam os processos da vida. Ainda por muitos anos depois de lançados, continuam causando morte. Por isso, o buraco de ozônio que protege a atmosfera terrestre aumentou e ameaça a vida de populações inteiras e de muitas espécies animais.

As mudanças climáticas que em outras eras geológicas vinham de mutações atmosféricas, agora são provocadas pela própria sociedade humana, especificamente pelo sistema social e econômico dominante que transforma a terra em mercadoria e se preocupa apenas com o seu lucro.

É preciso mudar o sistema de valores subjacente à economia global para torná-la compatível com a dignidade humana e com a sustentabilidade ecológica. O problema não é tecnológico. É cultural, social e político. Por isso, é importante tomarmos consciência da gravidade da situação, aprofundarmos os caminhos de sua superação e nos comprometermos em vivermos um modo novo de nos relacionarmos com a Terra, a água e o conjunto da natureza.  

Anualmente, a ONU consagra o 22 de abril como Dia internacional da Mãe Terra. Por feliz coincidência, para as Igrejas cristãs, esta comemoração sempre ocorre durante o tempo pascal, no qual as comunidades celebram a ressurreição do Cristo para serem testemunhas de que a vida vence a morte e o amor terá a última palavra neste mundo.

No Novo Testamento, o apóstolo Paulo falou do Cristo Ressuscitado como sendo o Cristo Cósmico. Hoje, para nós, a presença do Cristo se dá no outro humano, mas também na vida que pulsa no conjunto do universo e na resistência da Mãe Terra.

Há cinco anos, o papa Francisco publicou sua carta sobre o cuidado com a Terra, nossa casa comum (Laudato si). Ali ele propôs a compreensão de uma Ecologia integral que compreende, ao mesmo tempo, o cuidado ambiental, a busca da justiça social e política e também o desenvolvimento da interioridade que nos faz sentir parte do universo e em comunhão com todos os seres vivos. Nesta carta, o papa convida a humanidade inteira a desenvolver uma espiritualidade ecológica e pede às religiões que se unam para ajudar as pessoas a aprofundarem este caminho.

No mundo inteiro, a humanidade redescobre a atualidade dos cultos indígenas e afrodescendentes que aprofundam a intimidade com Deus na relação com a Terra, a água e os elementos do universo.

Também religiões inspiradas em livros, como a Bíblia, refazem caminhos de contemplação do Mistério Divino, presente na Terra e em todos os seres vivos. No Novo Testamento, o apóstolo Paulo falou do Cristo Ressuscitado como sendo o Cristo Cósmico.

Ainda na primeira metade do século XX, Theilhard de Chardin, paleontólogo e teólogo, afirmava: “Até aqui os cristãos buscaram Jesus Cristo em sua forma humana e divina. Agora, Ele se apresenta para nós em seu corpo cósmico que é a Terra”

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

ORAÇÃO À TERRA FERIDA, NOSSA GRANDE E GENEROSA MÃE

 



Por Leonardo Boff

Vivemos sob o Covid-19 tempos dramáticos que como um manto de sofrimento e de tristeza se estende sobre toda a humanidade. A doença e a morte quase foram naturalizadas em nosso país, dada a contaminação de milhões de pessoas e mais de 133 mil foram  já vitimadas, deixando famílias, parentes e amigos em profunda prostração por não poderem se despedir, fazer o ritual do velório e o viver o imprescindível luto.

 

Neste contexto temos que rezar à nossa boa e generosa Mãe Terra para  que tenha piedade de nós, seus filhos e filhas, apesar de todas as ofensas e agressões que por séculos lhe temos inflingido. Ela não é vingativa. Mas nos dá severas lições, como agora com o coronavírus, para aprendermos um outro modo de habitar a Casa Comum, para nos relacionarmos com cuidado,respeito e veneração para com ela, nossa Magna Mater, Grande Mãe, Pacha Mama e Gaia.

Nesse espírito de súplica humilde e com os olhos marejados de lágrimas que fiz esta oração:

 “Terra minha querida, Grande Mãe e Casa Comum!. Vieste nascendo lentamente, há milhões e milhões de anos, grávida de energias criadoras.

Teu corpo, feito de pó cósmico, era uma semente no ventre das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram, te lançando pelo espaço ilimitado.

Vieste aninhar-te, como embrião, no seio de uma estrela ancestral, no interior da Via-Láctea, transformada depois em Super Nova. Ela também sucumbiu de tanto  esplendor. Era o primeiro Sol.

E vieste então parar no  seio acolhedor de uma  Nebulosa, onde já, menina crescida, perambulavas em busca de um lar. E a Nebulosa se adensou virando o nosso  Sol, esplêndido de luz e de calor.

Ele se enamorou de ti, te atraiu e te quis em sua casa, junto com Marte, Mercúrio, Venus e outros filhos e filhas, os planetas. E celebrou o esponsal contigo. De teu  matrimônio com o Sol, nasceram filhos e filhas, frutos de  tua ilimitada fecundidade, desde os mais pequenininhos, bactérias, vírus e fungos até os maiores e mais complexos seres vivos. E como expressão nobre da história da vida, nos geraste a nós, homens e mulheres com inteligência,  amorosidade, solidariedade,  veneração e cuidado.

Através de nós, tu, Terra querida, sentes, pensas, amas, falas e veneras. E através de nossos olhos contemplas o céu estrelado onde estão tuas irmãs e teus irmãos. E  continuas crescendo, embora adulta, para dentro do universo rumo ao Grande Atrator que outro não é senão o Seio do Deus-Pai-e-Mãe de infinita ternura. Dele viemos e para ele retornamos com uma implenitude que só Ele pode preencher. Queremos, ó Deus, Pai e Mãe de bondade, mergulhar em Ti e estar em eterna comunhão de amor contigo para sempre junto com a Mãe Terra.

E agora, Terra querida, pensando em todos os sofredores do mundo afetados pelo Covid-19, realizo o gesto de Jesus na força de seu Espírito. Como ele, cheio de unção, te tomo em minhas mãos impuras, para pronunciar sobre ti a Palavra sagrada que o universo escondia e tu ansiavas por ouvir:

“Hoc est corpus meum: Isto é o meu corpo. Hoc  est sanguis meus: Isto é o meu sangue”  E então senti: o que era Terra se transformou em Paraíso e o que era  vida humana se transfigurou em vida divina. O que era pão se fez corpo de Deus e o que era vinho se fez sangue sagrado.

Finalmente, Terra, com teus filhos e filhas chegaste em Deus. Te fizeste divina por participação. Enfim em casa.

“Fazei isso em minha memória“. Por isso, de tempos em tempos,especialmente neste momento em que todos teus filhos e filhas sofrem sob a ação perigosa do Covid-19, cumpro o mandato do Senhor. Pronuncio a palavra essencial sobre ti, Mãe querida, e sobre todo  o universo. E junto com ele e contigo nos sentimos o Corpo de Deus, no pleno esplendor de sua glória. Amém,amém,Alleluia”.

 

Leonardo Boff é ecoteólogo e escritor e escreveu: “O parto doloroso da Mãe Terra: a nova etapa da Terra e da Humanidade” a sair no final do ano pela Vozes e a sair em breve:O Covid-19:um contra-ataque da Terra à Humanidade” também pela Vozes.

 

terça-feira, 21 de abril de 2020

PÁSCOA DA MÃE TERRA




Por Marcelo Barros

Embora não pareça, há profunda relação entre a celebração judaica e cristã da Páscoa e o dia da Mãe Terra que a ONU nos propõe celebrar no 22 de abril de cada ano. Cristo ressuscitado se manifesta a nós na terra que resiste e tenta superar o sistema que a agride e ameaça.

A maioria dos cientistas estão de acordo: a pandemia do Covid 19 foi mais rápida e cruel porque encontrou ambiente favorável na atmosfera poluída, nas águas profanadas pela mineração e na terra devastada pelo Capitalismo. Por isso, além de nos proteger como humanidade contra esse vírus mortal, é preciso deter a crise ecológica que fere o planeta. Para isso, a ONU nos convida a, mesmo em quarentena, comemorar o 22 de abril como “dia internacional da Mãe Terra”. O objetivo é nos fazer sentir como humanidade, filhos e filhas da Terra e, assim, renovar o nosso amor e nosso cuidado com nossa casa comum.

Há duas décadas, o Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), introduziu a ideia de “ponto de virada”, ou o ponto do não retorno. É o momento no qual não há mais como retomar ao que era antes. Os estudos mostraram que mudanças em alguns ecossistemas influenciam em transformações que passam a ocorrer em outros, como efeito, ou como uma peça de dominó derruba a outra. Quando se atinge determinado ponto, não há mais como restaurar a vida.

Atualmente, geleiras da Antártica se derretem. Em dez anos, o Oceano Atlântico teve aumento de um grau na sua temperatura. A Amazônia é transformada em pastagem. Quase dois terços das grandes florestas do mundo estão destruídas ou em ameaça de destruição. Calcula-se que, cada ano, 50 mil espécies desaparecem da Terra. A cada dia, lançam-se no ar, na terra e na água  produtos químicos que, mesmo anos depois de lançados, continuam a causar morte. Aumenta a emissão de dióxido de carbono e outros gases que causam o efeito estufa na atmosfera. O buraco de ozônio que protege a atmosfera terrestre aumentou e ameaça a vida de populações inteiras e de muitas espécies animais. Assim, o aumento entre 1 e 2ºC será suficiente para atingir o pronto do não retorno.

Nestes meses de quarentena forçada da humanidade, um fenômeno surpreendeu a todos: em vários lugares do mundo, extremamente agredidos pela sociedade dominante, rapidamente, a natureza se revelou com energias de recuperação. Na lagoa de Veneza, bastou 15 dias sem barcos de petróleo a sujar as águas e já se viam peixes e pássaros marinhos nas margens e pontes da cidade. O mesmo fenômeno tem ocorrido em diversos lugares do mundo.

Muitas pessoas se perguntam quantos dias ainda faltam para voltarmos à normalidade. Essa normalidade seria o comércio aberto, as ruas cheias de veículos, os aviões atravessando todo o planeta. E os governos que cortam verbas para a saúde e educação gastam, como, no ano passado, um trilhão e 822 bilhões em armas, portanto, cinco milhões por dia... As previsões para esse ano é de soma maior. Querem forçar as pessoas a trabalharem, correndo riscos, apenas para saciar a ambição da pequena elite da humanidade que desfruta dos benefícios desse sistema. Com vírus ou sem vírus, em todo o mundo, aumenta a desigualdade social.  A maioria da humanidade simplesmente ignora isso e o planeta sofre as consequências. 

É urgente estabelecer novo modo do ser humano se inserir na comunidade de todos os seres vivos que habitam o planeta. É preciso mudar a economia de modo a torná-la compatível com a dignidade humana e com a sustentabilidade ecológica. O problema não é tecnológico. É sobretudo cultural, social e político. Por isso, temos de nos dar conta da gravidade da situação e nos comprometermos em viver um modo novo de nos relacionar com a Terra, a água e o conjunto da natureza.  

Nesse caminho, as religiões e tradições espirituais têm uma responsabilidade imensa. Todas as tradições espirituais redescobrem a relação com a Terra, a água e os elementos do universo como caminhos de intimidade com o Mistério Divino. Para salvar a vida na Terra, precisamos retomar um estilo de vida mais sóbrio e comunitário. Nessa celebração pascal, celebramos o Cristo Cósmico que ressuscita e assume o corpo do planeta Terra.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

sexta-feira, 13 de março de 2020

CORONAVIRUS: UMA REPRESÁLIA DE GAIA, DA MÃE TERRA?




leonardo boff

Hoje é um dado da consciência coletiva dos que cultivam uma ecologia integral, como tantos cientistas como Brian Swimme e o Papa Francisco em sua encíclica “Sobre o cuidado da Casa Comum” que tudo está relacionado com tudo. Todos os seres do universo e da Terra, também nós, seres humanos, somos envolvidos por redes intrincadas de relações em todas as direções de sorte que nada existe fora da relação. Esta é também a tese básica da física quântica de Werner Heisenberg e de Niels Bohr.
Isso o sabiam os povos originários como vem expresso nas palavras sábias do cacique Seattle de 1856:”De uma coisa sabemos:a Terra não pertence ao homem. É o homem que pertence à Terra. Todas as coisas estão interligadas como o sangue que une uma família; tudo está relacionado entre si. O que fere a Terra fere também os filhos e filhas da Terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma.Tudo o que fizer à trama, a si mesmo fará”. Vale dizer, há uma íntima conexão entre a Terra e ser humano. Se agredimos a Terra, nos agredimos também a nós mesmos e vice-versa.
A mesma percepção tiveram os astronautas de suas naves espaciais e da Lua: Terra e humanidade constituem uma mesma e única entidade. Bem o testemunhou Isaac Asimov em 1982, a pedido do New York Times, fazendo um balanço dos 25 anos da era espacial:”O legado é a percepção de que, na perspectiva das naves espaciais, a Terra e a Humanidade formam uma única entidade (New York Times,9 de outubro de 1982). Nós somos Terra. Homem vem de húmus, terra fértil, ou o Adam bíblico significa o filho e a filha da Terra fecunda. Depois desta constatação, nunca mais sairá de nossa consciência de que o destino da Terra e da humanidade é indissociavelmente comum.
Infelizmente ocorre aquilo que o Papa em sua encíclica ecológica lamenta:”nunca maltratamos e ferimos nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos”(n.53). A voracidade do modo de acumulação de riqueza é tão devastadora que inauguramos,dizem alguns cientistas, uma nova era geológica: a do antropoceno. Quer dizer, quem ameaça a vida e acelera a sexta extinção em massa, dentro da qual já estamos, é o próprio ser humano. A agressão é tão violenta que por ano mais de mil espécies de seres vivos desaparecem, inaugurando algo pior que o antropoceno, o necroceno: a era da produção em massa da morte. Como Terra e Humanidde estão interligadas, a produção de morte em massa se produz não só na natureza mas no interior da própria humanidade. Milhões morrem de fome, de sede, vítimas da violência bélica ou social em todas as partes do mundo. E insensíveis, nada fazemos.
Não sem razão James Lovelock, o formulador da teoria da Terra como um superorganismo vivo que se autoregula, Gaia, escreveu um livro “A vingança de Gaia”(Intrínseca 2006). Estimo que as atuais doenças como a dengue, a chikungunya, a zica virus, sars, ebola, sarampo, o atual coronavirus e a generalizada degradação nas relações humanas, marcadas pela profunda desigualdade/injustiça social e pela falta de solidariedade mínima sejam uma represália de Gaia pelas ofensas que ininterruptamente lhe infligimos. Não diria como J.Lovelock ser “a vingança de Gaia”, pois ela, como Grande Mãe não se vinga, mas nos dá severos sinais de que está doente (tufões, derretimento das calotas polares, secas e inundações etc) e, no limite, pelo fato de não aprendermos a lição, nos faz uma represália como as doenças referidas.
Evoco o livro-testamento de Théodore Monod, talvez o único grande naturalista contemporâneo, já falecido, em seu livro “E se aventura humana vier a falhar”(Paris, Grasset 2000):”Somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana; seria o justo preço de nossas loucuras e de nossas crueldades”(p.246).
Isso não significa que os governos do mundo inteiro, resignados, deixem de combater o coronavirus, proteger as populações e buscar urgentemente uma vacina para enfrentá-lo, não obstante suas constantes mutações. Além de um desastre econômico-financeiro pode significar uma tragédia humana, com um incalculável número de vítimas.
Mas a Terra não se contentará com estes pequenos presentes. Ela suplica uma atitude diferente face a ela: de respeito a seus ritmos e limites, de cuidado por sua sustentabilidade e de sentirmo-nos mais que filhos e filhas da Mãe Terra, mas a própria Terra que sente, pensa, ama, venera e cuida. Assim como nos cuidamos, devemos cuidar dela. Ela não precisa de nós. Nós precisamos dela. Ela pode não nos querer mais sobre sua face. E continuará a girar pela espaço sideral mas sem nós porque fomos ecocidas e geocidas.
Como somos seres de inteligência e amantes da vida, podemos mudar o rumo de nosso destino. Que o Espírito Criador nos fortaleça nesse propósito.
Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra- proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010.


segunda-feira, 13 de maio de 2019

A MÃE JUDIA DE JESUS DE NAZARÉ




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Muitas vezes nos perguntamos, aqueles que praticamos a fé cristã e ainda mais os que a estudamos nos cursos de Teologia, por que a enorme importância dada a Maria, mãe de Jesus, dentro do Cristianismo.  As razões para essa perplexidade são muitas: a pouca quantidade de textos evangélicos que a mencionam, as afirmativas da exegese mais rigorosa de que esses mesmos textos não estão próximos ou afinados aos mais antigos e, portanto, não podem ser remetidos ao Jesus Histórico, já havendo recebido grande influência interpretativa das primeiras comunidades cristãs. Acrescente-se o fato de alguns evangelhos pouco ou nada mencionarem Maria, ficando sua presença explícita no texto restrita apenas a Mateus e Lucas. 
Por que então essa presença pequena, menor quantitativamente nos textos revelados, foi se impondo de maneira tão impressionante, a ponto de hoje, no Catolicismo e na Ortodoxia, ou seja, na maior parte do mundo cristão, ter uma posição tão central não apenas na revelação cristã, mas em tudo que se tornou o cristianismo histórico, a posteriori dessa mesma revelação?
Parece-nos que a razão deve ser buscada não tanto no Cristianismo, e sim no Judaísmo, que foi o berço do próprio Cristianismo. Após a volta do exílio da Babilônia, quando o povo eleito, sob a guia de Esdras, deu a si mesmo a reforma da Lei mosaica, fixando assim definitivamente as bases de sua fé monoteísta, várias questões práticas para a identidade do povo tiveram que ser firmemente estabelecidas.  E uma delas foi um maior rigor quanto à pertença ao povo. E isso estava ligado à linhagem e aos pais biológicos daqueles que nascessem e pretendessem integrar o conjunto do povo de Israel.
Consideraram então os que, reunidos em Assembleia, tomavam decisões sobre o futuro de seu povo,  que os filhos nascidos de estrangeiras que não se haviam unido a Deus em aliança não seriam contados entre os filhos de Israel.
A razão da Corte Mosaica é simples de entender. É sempre possível ter certeza da mãe de uma criança. Já o pai, naquele momento, seria  muito difícil de determinar em caso de dúvida.
Além disso, Israel estava em situação vulnerável no exílio, como uma nação em servidão. Não é razoável imaginar que os israelitas teriam tido fácil acesso, por exemplo, a virgens babilônias, jamais tocadas por homens. Ademais, as situações de estupros de mulheres eram muito frequentes naquelas sociedades. Isso tornava ainda mais problemática a identificação da criança. Em sendo assim, a Corte Mosaica optou pelo óbvio, a saber, a decisão pela matrilinearidade, como única solução possível que asseguraria que a criança era, de fato, israelita. Essas crianças, juntamente com suas mães, foram despedidas pelos judeus, e retornaram para seus lares na Babilônia.
Tal matrilinearidade, enquanto identificação positiva de identidade, pode ser fundamentada na Torá por diversos ângulos. E foi o que a Corte Mosaica decidiu fazer para sustentar sua deliberação. A fundamentação ocorre a partir de Deuteronomio 7,3-4 : “Não se casem com pessoas de lá. Não dêem suas filhas aos filhos delas, nem tomem as filhas delas para os seus filhos, pois elas desviariam seus filhos de seguir-me para servir a outros deuses e, por causa disso, a ira do Senhor se acenderia contra vocês e rapidamente os destruiria.”
Toda essa raiz histórica da importância da mãe judia para a identidade do povo de Israel explica muitas coisas.  Como, por exemplo, a severidade na punição do adultério, que representaria um perigo, uma vez que poderia gerar filhos não judeus, já que não se sabia quem era o parceiro sexual da mulher surpreendida em adultério.  Mas também traz uma firmeza positiva em relação aos filhos legítimos das judias.  E gera um respeito imenso pelo lugar da mãe na sociedade.
Na mulher mãe está a fonte da vida e da vida consagrada a Deus, na pertença ao povo e na aliança irrevogável com Deus.  Em seu ventre repousa o segredo da Aliança.  E por isso esse ventre que gera e dá à luz, esses peitos que amamentam os filhos do povo, serão louvados e cantados em todos os tons pelo povo de Israel. Como em Lc 11,27: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram!
É verdade que os evangelhos, já escritos quando a comunidade cristã rompia com a exclusividade da conexão com a sinagoga e acolhia em seu seio gentios de todas as procedências do mundo antigo, mostram Jesus insistindo que muito mais bem aventurados que os que saem do ventre de uma mãe judia, como ele, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.  No entanto, a comunidade cristã igualmente viu que Maria, a mãe do Mestre, entrava nas duas categorias.  Judia fiel, levou no ventre e amamentou ao peito o filho que depois falaria às multidões, faria milagres e anunciaria a todos o Reino de Deus.  Porém, não menos foi aquela que viveu plenamente a obediência, que significa ouvir a Palavra de Deus e colocá-la em prática. 
 Mãe judia do homem Jesus, a Igreja proclama Maria igualmente “Theotokos”, ou seja, mãe de Deus.  E é Paulo que proclama com força, em sua carta aos Gálatas, que por ela chegou a plenitude dos tempos. “Na plenitude dos tempos Deus enviou seu Filho nascido de mulher”. Maio é o mês dessa mulher.  É também o mês das mães, de todas aquelas que carregam em seus ventres os legítimos filhos de um povo que espera a libertação e espera contra toda esperança.  
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.  
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 23 de abril de 2019

PÁSCOA PARA NÓS E PARA A MÃE TERRA



 Por Marcelo Barros 

A chegada da primavera é ocasião de festa para todos os povos.  Muitas comunidades tradicionais, indígenas e africanas, celebram a primavera com ritos para que as pessoas se renovem e readquiram a energia  da juventude. A festa da Páscoa nasceu em tempos imemoriais, em ritos de primavera e renovação da vida. O próprio termo “Páscoa” significa passagem. Não indica somente mudança de estação, mas a decisão de passar de uma vida acomodada e rotineira para um novo modo de viver. É possível que, em seu início, Páscoa fosse o nome de uma dança sagrada, na qual se ensaiavam passos para o futuro e para a vida.

Nesse ano de 2019, a festa cristã da Páscoa coincide com a celebração da Pessah judaica que começou na sexta-feira 19 e dura uma semana. No judaísmo, o título da festa é “Pezah zeman herutenu” : “a estação da nossa libertação”. O cristianismo fala de “festa da Ressurreição”. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. A Páscoa judaica tornou-se a comemoração da noite em que o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Foi quando celebrava a Páscoa com sua comunidade que Jesus foi preso e assassinado.. Na madrugada do domingo que se seguia ao grande sábado da festa, Jesus deixou-se ver, vivo. O Senhor ressuscitado revela-se com o corpo ferido e chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito. Mas, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33). 

Ser discípulo/a de Jesus é testemunhar ao mundo essa energia da ressurreição, atuante nele e por seu Espírito, em todas as pessoas que o aceitam. Essa energia de ressurreição é força de resistência e vigor nas lutas pacificas pela transformação do país e do mundo. No mundo, os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder; uma sociedade cruel e sem compaixão. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente.

Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente a situação social, política, ou econômica, mas vale como profecia e grito de liberdade para dar força a quem assume as lutas pela transformação do mundo.

   No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta aparentemente mais asquerosa é chamada a uma mudança radical. Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação do ser humano para esse caminho pascal.

Nesse ano de 2019, no Ocidente, a festa da Páscoa coincide com a celebração do Dia mundial da mãe-Terra, data aprovada pela assembleia geral da ONU e mantida a cada ano no dia 22 de abril.

Os desequilíbrios climáticos que vimos assistindo, na forma de ondas de calor mais fortes do que o costumeiro, furacões que atingiram a África oriental e nas chuvas torrenciais que provocam destruições em nossas cidades revela que precisamos mudar o modo de organizar a sociedade, baseado na exploração da natureza. O dia mundial da mãe Terra quer provocar uma maior consciência da urgência do cuidado que devemos ter com a mãe Terra, agredida e ameaçada em seu sistema de vida.

A ressurreição é a energia de Deus para transformar o universo. Celebremos, então, esta festa e vivamos este caminho pascal no aprofundamento da solidariedade como forma de viver a fé e a intimidade com Deus, a renovação de nossas vidas e a comunhão amorosa com a mãe Terra e todo o universo que nos rodeia. Como cantam as comunidades: “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor. Da terra, água surgiu. Era noite e o sol brilhou”.    
      
 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

BATISMO DA MÃE TERRA



Por Marcelo Barros

Nesse domingo 13 de janeiro, as Igrejas de tradição latina e também as orientais encerraram o ciclo litúrgico do Natal, festejando a memória do batismo de Jesus. Em muitas regiões do mundo, nos primeiros dias do ano, as pessoas buscam entrar no mar ou banhar-se em um rio como rito de purificação para o ano novo. Grupos espirituais e comunidades tradicionais realizam ritos de purificação pela água, pelo ar e pelo fogo, elementos comuns da mãe Terra, sem os quais a vida não existiria ou não seria a mesma.

O rito original do batismo (em grego, o termo significa mergulho), feito pelo profeta João Batista no rio Jordão, significava um compromisso de purificação e renovação de vida. O batismo era um desses ritos de renascimento, no qual somos convidados/as a sermos parte da Terra. Ao nos unirmos à água, primeiro elemento da vida, assumimos o compromisso de nunca nos distanciarmos da Terra a qual pertencemos. O próprio Jesus, ao assumir o batismo no Jordão, fez esse sinal de se unir à terra e à água para ser profeta do reino divino que vem ao mundo. Então, não podemos permitir que a ambição humana continue a contaminar a flora, a fauna e o mundo mineral.  A Terra, a água e a natureza não podem ser reduzidas a meras mercadorias.

Precisamos cuidar da vida com a mesma ternura que uma mãe vela por seu filho ou filha doente. Nosso planeta é mais do que apenas uma bola imensa que gira ao redor do sol. É um organismo vivo dentro do conjunto do sistema solar. Sua diversidade é comparável ao equilíbrio que há entre os órgãos de nosso corpo, diversidade e equilíbrio indispensáveis para que possamos viver. 

Todos nós desejamos um futuro melhor para a humanidade e para o planeta Terra, tão ameaçado pela crise ecológica. Entretanto, para que nossos votos possam ser eficazes, é importante que o nosso desejo se concretize em ações de solidariedade que levem a uma nova organização da sociedade. Nossos desejos de um futuro melhor devem se concretizar no apoio aos movimentos populares e fóruns que trabalham por um novo mundo possível.  Toda a humanidade se encontra envolvida em uma crise  que atinge as bases do sistema social e econômico dominante. Essa situação joga as novas gerações em uma situação deprimente de insegurança e desemprego estrutural e ameaça destruir até as próprias condições da vida no planeta Terra.

A partir dessa semana, muitas pessoas voltam ao seu ritmo habitual da vida e do trabalho. A Agenda latino-americana desse ano de 2019 é dedicada às “grandes causas no pequeno”. De fato, temos que redescobrir que as Grandes Causas estão também comprometidas nesse imenso âmbito do “pequeno” do nosso dia a dia, do pessoal-privado, da intimidade, do familiar, das amizades, da nossa casa, do entretenimento, do ócio... Em tudo o que vivemos, mergulhemos na comunhão com a Mãe Terra, nos sintamos unidos/as a toda a humanidade e todos os seres vivos. Assim, em nós, se atualizam o batismo de Jesus, o mergulho místico de todas as pessoas que são nossos mestres e mestras em todas as religiões e o batismo da Mãe-Terra.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br





terça-feira, 24 de abril de 2018

A MÃE TERRA E O CUIDADO



por Marcelo Barros

No calendário da ONU, o dia 22 de abril é o Dia Internacional da Mãe Terra. Esse dia foi criado para recordar a urgência de um cuidado maior com o planeta, "nossa casa comum". De fato, no ano 2000, a Carta da Terra nos fazia essa advertência:: «Estamos num momento crítico da história da Terra, na qual a humanidade deve escolher o seu futuro…A escolha nossa é: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e cuidarmos uns dos outros ou arriscamos nossa própria destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo). Essa mesma proposta, o papa Francisco retoma em sua carta sobre o cuidado com a Terra. 

Atualmente, no mundo inteiro, os grupos comprometidos com o futuro da humanidade e os movimentos sociais estão de acordo: a sustentabilidade da vida e do planeta devem ocupar o primeiro lugar em nossas preocupações e compromissos sociais. E esse cuidado com a Terra não pode acontecer apenas porque se a Terra se tornar inabitável, a primeira vítima dessa tragédia seremos nós mesmos, seres humanos. É claro que não podemos ser indiferentes a essa constatação. No entanto, eticamente, a Terra e a natureza têm direitos à sua integridade e a vocação humana é sermos os jardineiros da criação e não seus assassinos.

No Brasil em que vivemos, conforme o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, que monitora a devastação da floresta, em 2017, o desmatamento na Amazônia cresceu quase 30%. É o pior resultado desde 2008. Pará, Rondônia e Mato Grosso foram os estados que mais desmataram. Todos os biomas brasileiros correm risco sérios de não cumprirem mais o seu papel de úteros da vida e das águas. Isso afeta o clima em todo o planeta, ameaça a renovação das águas e põe em risco toda a vida no planeta. O conhecido biólogo Edward O. Wilson escreve: Num grama de terra ou seja, em menos de um punhado, vivem cerca de dez bilhões de bactérias pertencentes até a seis mil espécies diferentes”. 

A Terra é Mãe fecunda. No entanto, cientistas de todo o mundo confirmam: esse modelo de desenvolvimento depredador de tal forma destrói a natureza que a Terra ultrapassou em 40% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Neste momento, mesmo se não nos damos conta disso, estamos esgotando o sistema de vida na Terra mais do que ela é capaz de renová-lo. As consequências disso já são desastrosas, mas, como adverte a Carta da Terra, em breve, podem ser fatais. Na encíclica Laudato sii, o papa propõe como saída para esse impasse uma aliança da humanidade pela vida. Concretamente, sugere que essa aliança seja motivada e conduzida por uma unidade das religiões e tradições espirituais em defesa da Terra.

De fato, desde os tempos mais antigos, as culturas e religiões sempre têm testemunhado a crença na Terra como Grande Mãe, Magna Mater, Inana e Pachamama. Os povos originários de ontem e de hoje tinham e têm clara consciência de que a Terra é geradora de todos os viventes. Somente um ser vivo pode produzir vida em suas mais diferentes formas. A Terra é, pois, nossa Mãe universal. Embora ela não seja um ser vivo como nós ou como os animais, ela se constitui como uma espécie de organismo vivo que respira e é capaz de sentir o nosso amor. Hoje, cada vez mais a própria Ciência se detém admirada ao perceber o mistério que encerra a vida no planeta. De acordo com as descobertas e conclusões da Ciência, o planeta Terra existe há 4, 4 bilhões de anos. Num momento avançado de sua evolução, de sua complexidade e de sua auto-organização, começou a sentir, a pensar e a amar. Foi quando emergiu o ser humano. Em seu discurso à assembleia geral da ONU (2009), Leonardo Boff afirmou: "Com razão nas línguas ocidentais homo/homem vem de húmus, terra fecunda. E em hebraico Adam se deriva de adamah, terra cultivável. Por isso, o ser humano é a própria Terra que anda, que sente, que pensa e que ama, como dizia o poeta indígena e cantador argentino Atahualpa Yupanqui".

Durante séculos e séculos, em todo o mundo, prevaleceu essa visão da Terra como Mãe cuidadosa da Vida. Ela começou a desaparecer com o surgimento do que se chamou "espírito científico" no século XVI e com o desenvolvimento do sistema capitalista. A partir de então, a Terra começou a ser considerada como uma realidade sem espírito, mero reservatório de recursos naturais, disponíveis para a acumulação e o consumo humano. Tornou-se apenas uma mercadoria, entregue ao ser humano para ser submetida, mesmo com violência. 

Neste novo paradigma não se coloca a questão dos limites de suporte do sistema-Terra nem dos bens e serviços naturais não renováveis. Pressupunha-se que os recursos seriam infinitos e que poderíamos ir crescendo ilimitadamente na direção do futuro. O que efetivamente é uma grande ilusão. Estamos agora sofrendo as consequências dessa visão mercantil. É urgente mudarmos o nosso modo de ver a Terra. É preciso retomarmos nossos sentimentos mais profundos: cultivar a compaixão e os sonhos que nos inspiram ações salvadoras. Nossa missão, no conjunto dos seres, é a de ser os guardiães e cuidadores desta sagrada herança que recebemos do universo: a Terra, nossa Mãe.

Conforme a Bíblia, a ressurreição de Jesus inaugurou uma renovação de toda a criação. Ela é salva e resgatada como a humanidade. Quem crê é convidado/a a olhar a Terra com tudo o que ela contém como um grande corpo cósmico de Deus a nos abrigar e acolher em seu regaço maternal. 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

MÃE NATUREZA


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Às vezes, a Mãe Natureza faz as coisas pelo avesso.  Em quase todos os pontos do país a água cai torrencialmente, não apenas em pancadas ocasionais, como as tradicionais chuvas de verão, mas em verdadeiras torrentes que a tudo inundam, arrastando casas e vidas em sua marcha implacável e destruidora.

Nas grandes cidades, o desastre não é menor. Os rios transbordam, a rede de esgotos mal preparada para assumir a avalanche de água que cai inclemente e incessante inunda ruas, entra nas casas sem para isso ser convidada e obriga as pessoas a subirem no teto dos ônibus a fim de não morrerem afogadas.  As águas  transformam o outono em um contínuo e violento dilúvio.

Talvez esta situação que vivemos nos convide a uma frutífera reflexão sobre o que andamos fazendo com o nosso planeta, de tal modo que a Mãe Natureza, a Criação, resolveu rebelar-se e mandar-nos tristes e mortíferos sinais.  Em que irresponsáveis desmatamentos e enlouquecidas construções nos estamos metendo para que a água que São Francisco chamou de irmã e que experimentamos tantas vezes como  aquela substância translúcida, que cai dos céus nos dias tórridos de verão, refrescando-nos, e que corre, mansa e benfazeja, pelos sulcos da terra, encantando os olhos e fecundando a vida, pareça ser, como nunca, neste ano,  nossa inimiga. 

Apresenta-se avassaladora, como todas as outras forças da natureza. Sua energia descomunal vem produzindo desastres assombrosos. E num processo crescente, a cada ano parece que mais e mais perdemos o controle que de alguma forma acreditávamos exercer sobre os elementos da natureza, ou pelo menos sobre as conseqüências que seu ímpeto pode provocar. As chuvas não se limitam a fecundar a terra, mas ceifam vidas e mesmo colheitas.  Os mares, onde crianças nadam e se deleitam, mostram sua face aterradora: sua vastidão imensurável, seu volume espantoso, sua profundidade inacessível, sua força indomável, faz-nos sentir dramaticamente insignificantes e frágeis.  São múltiplas e muitas as experiências humanas face a este elemento. Muitos e múltiplos são, por isso, também os significados da água no universo arquetípico e simbólico.

As Escrituras Sagradas, no Primeiro Testamento conservaram, em suas páginas e relatos, esta ambivalência experiencial da água em dois relatos ricamente simbólicos:  o dilúvio e a passagem do Mar Vermelho. No primeiro, a água inunda, destrói e se configura como uma força, frente à qual as criaturas pouco valem. No segundo,  ela é representação da justiça divina, abrindo-se para deixar passar os hebreus, o povo eleito do Senhor e fechando-se sobre o Faraó e seus soldados, que perecem castigados pelo próprio pecado.  Nos dois casos, podemos, de fato, entrever que, apesar das circunstâncias diferentes, as águas não apenas são essenciais à vida humana, como também remetem ao mistério de Deus. Sua magnitude infinita provoca-nos fascínio mas também temor. Inescrutável, como os abismos do mar, é o seu profundo mistério. Ele nos é verdadeiramente próximo e íntimo. Esta proximidade, porém, não anula sua infinita distância e mistério. À sua frente, nada somos por nossa própria força e o que somos, devemo-lo a Ele. Suave, como a água que escorre sobre o dorso dos corpos e da terra, é a sua presença. Mas igualmente vigorosa e impressionante, como as tempestades que vergam as árvores e revolvem os mares, é a força de seu poder. Justa, abrindo-se diante de seu povo e fechando-se mortalmente sobre seus inimigos, é o braço forte de sua justiça que restaura e corrige. 

Diante de mais uma estação que deixa como nunca um saldo amargo de morte e destruições, respeitemos a Mãe Natureza, criação de Deus, que ao ser desrespeitada, torna-se fonte de morte e não de vida para o ser humano que com ela não soube relacionar-se.
  
 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia  da PUC-Rio e autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.
 
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