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domingo, 26 de dezembro de 2021

GRAVAR NUM DISCO VOADOR. LANCAR NO ESPAÇO SIDERAL

 Fabio Potiguar dos Santos


Eu vou fazer uma canção pra ela. Uma canção singela, brasileira. Para lançar depois do carnaval. Eu vou fazer um iê iê iê romântico. Um anticomputador sentimental. Eu vou fazer uma canção de amor.  Para gravar num disco voador. Eu vou fazer uma canção de amor. Para gravar num disco voador. Uma canção dizendo tudo a ela. Que ainda estou sozinho, apaixonado. Para lançar no espaço sideral

Caetano Veloso canta na sua música “Não Identificado”, gravado por ele em 1969 e um ano antes, por nada mais nada menos pelo corpo e voz de Gal Costa, que ele, o filho de Dona Canô,  ia gravar um disco não numa gravadora e tão pouco lançar na rádio ou na televisão. Esse cara é genial! Conectado lá e, que o diga, logado mais ainda agora no seu último álbum. Tá ligado? Penso e sinto o mesmo. É preciso inventar e se reinventar o tempo todo, principalmente desde de agosto de 2016 pra cá. Precisamos mais do que a lua se reinventar nova, crescente, gibosa, cheia, minguante. Teimosamente se inventar cotidianamente com o sol.  Esta canção se tornou para mim como um hino de ano novo.

Mais do que nunca, com o avanço das iníquas ondas do nazifascismo cheias de ódio   é preciso inventividade intelectual e afetiva proposta por esta canção. Igualmente, com o aumento da pobreza e o desequilíbrio ecológico pautados por uma agenda econômica ultra neoliberal, é necessária muita criatividade cheia de amorosidade, sabedoria e força para o enfrentamento das injustiças ecosociais que a humanidade clama e a terra geme. Ao mesmo tempo, com o adoençamento físico, psíquico e espiritual que nos entristece e nos angustia, que nos deprime e causa ansiedades e outras dores, a gente tem que ter mesmo esse engenho de gravar um disco voador e lançá-lo no espaço sideral com uma canção de amor, brasileira.

Cantar de Caetano a Dalva de Oliveira que naquela “Marcha de quarta-feira de Cinzas” não via mais ninguém a sorrir, a se abraçar, a se beijar, a cantar e a dançar cantigas de amor, mas, nos juntamos agora eu e você, leitora e leitora amiga/a a essa Diva, e cheia de esperança entoava fortemente que, no entanto, é preciso cantar “Mais que nunca é preciso cantar. É preciso cantar. E alegrar a cidade. A tristeza que a gente tem. Qualquer dia vai se acaba. Todos vão sorrir. Voltou a esperança. É o povo que dança. Contente da vida feliz a cantar”. Das folhas cibernéticas deste artigo ainda que o ódio, mesmo que as agressões e mesmo assim com tantos opressores e oprimidos no país e no mundo, nós, sem alienação, “enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”, Belchior, pois a gente via sorrir de novo.  “Vê, como é bonita a vida. Vê, há esperança ainda. Vê, as nuvens vão passando. Vê, um novo céu se abrindo. Vê, o sol iluminando. Por onde nós vamos indo”. Que tal a gente escutá-las em uma dessas plataformas digitais?

2022. Vamos gravar num disco voador, muita criatividade. 2022. Vamos lançar músicas no espaço sideral, bastante inventividade. 2022.  Vamos cantar uma canção de amor copiosas engenhosidades. Canta, Santo Amaro! Melhor, canta, Natal! Canta, Recife! Canta, Brasil e mundo inteiro porque “a verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão” como na canção tão antiga e tão nova do Salmo 85.  A frase de começo desta canção de amor será a mesma do início do livro bíblico dos Cânticos dos Cânticos, do Amado cantando para Amada, “beija-me com os beijos de tua boca”. Quando a gente estiver cantando e dançando em ciranda  e coco, frevo e maracatu,  samba e bossa, baião e xaxado, funk e rap, reggae e brega, clássica e pop, forró e rock roll  e toda diversidade musical,  me lembrarei dos salmistas bailando com címbalos sonoros o Salmo 25 “Quando o Senhor reconduziu nossos cativos, parecíamos sonhar; encheu-se de sorriso nossa boca, nossos lábios, de canções”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 24 de abril de 2021

NESTA PANDEMIA, ONDE ESTÁ DEUS?

 


Pe Fabio Potiguar dos Santos


 

Nesta noite escura que atravessa o mundo e, principalmente o Brasil, diante de tanta dor e sofrimento do povo por causa de uma crise sanitária, política, econômica e social agravada por um gestor incompetente e irresponsável, sem consciência e sensibilidade; ante da morte não de números, mas de pessoas com suas famílias enlutadas, ricas e pobres, sem fazer os ritos de despedidas mais completamente; perante a angústia, a ansiedade, a depressão, o pânico e outros transtornos psíquicos causados neste cenário onde há dias que mais morre gente do que nasce no Brasil e, nos sentindo “o próximo da fila” que possa vir a ter o covid-19 ou morrer em decorrência dele: diante, ante e perante podemos nos perguntar por onde anda Deus.

 

É meu o grito do salmista. “Ó Senhor, por que ficais assim tão longe, e, no tempo da aflição vos escondeis?” ( Sl 10,1). “Até quando, ó Senhor, me esquecereis? Até quando  escondereis de mim a vossa face?” (Sl 13,2). Talvez possa até dizer, é nosso esse brado do semita.

 

Grito muito mais ainda com Castro Alves em Navios Negreiros e Vozes da África diante do sofrimento do povo negro escravizado pelos cristãos nas Américas de um ponta a outra. Protestantes e católicos que também dizimaram muitos e tantos povos indígenas. Crime contra a Humanidade. Vergonha para consciência cristã. João Paulo II várias vezes pediu perdão por isso, e também o amado papa Francisco. E Deus, por onde andava Deus naqueles tempos e nos tempos de hoje quando parece não ver as novas formas de escravidão, exploração do povo, o abuso de menores ou os maus-tratos de idosos, o sofrimento psíquico e psiquiátrico que atinge do mais rico aos mais humildes, a opressão dos pobres e a devastação e da natureza?

 

Com a pandemia essa escandalosa exploração e destruição não só se tornaram mais evidentes, como se acentuaram de forma assustadora e criminosa. Diante de tudo isso me junto a este poeta abolicionista: “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes. Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, Senhor Deus?.” 

 

Epicuro, na antiguidade, já questionava: “Ou bem Deus deseja suprimir o mal, mas não pode, ou Ele pode mas não quer. Se Deus o quer mas não pode, Ele é impotente, o que é contrário à sua natureza. Se Ele pode mas não quer, Ele é malvado, o que é contrário à sua natureza. Se Ele o não o quer nem o pode, Ele é ao mesmo tempo impotente e malvado, o que significaria dizer que Ele não é Deus. Mas se Ele pode e quer, o que só convém a Ele, de onde vem então o mal e por que Ele não lhe suprime? ”

 

O papa Bento XVI na Audiência Geral no dia 27 de setembro de 2006, se referindo a São Tomé dizia: “Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos. Temos a coragem para dizer: não te compreendo, Senhor, ouve-me, ajuda-me a compreender. Desta forma, com esta franqueza que é o verdadeiro modo de rezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade de compreender, ao mesmo tempo colocamo-nos na atitude confiante de quem espera luz e força de quem é capaz de as doar”. O livro Introdução ao Cristianismo é um dos mais importantes do teólogo Ratzinger. Assim ele escreveu: “Tanto o crente quanto o incrédulo, cada um à sua maneira compartilham a dúvida e a fé, sempre entendidos que não procuram fugir de si mesmos e da verdade de sua existência. Ninguém pode escapar completamente da dúvida, mas nem mesmo da fé. Para um, a fé se faz presente contra a dúvida, para o outro na dúvida e na forma da dúvida”

 

Conhecemos e, costumamos repetir ao longo de nossas vidas, principalmente naqueles mais difíceis juntos com o pai do menino epilético: “Senhor eu creio, mas aumentai a minha fé” (Mc 9,24). Essa tradução está errada, erradíssima. A tradução mais próxima do original seria: “Eu creio! Ajuda minha incredulidade! ”

 

No grego está escrito: “ Πιστεύω - pisteuó (eu creio) + βοήθει – boétei (ajuda) + μου (minha) + τῇ -te (a) + ἀπιστίᾳ - apistia (não-fé). Creio, ajuda minha incredulidade”. A minha fé e a minha não-fé caminham juntas.  Ajuda, Senhor, minhas trevas luminosas, tão clara e tão escura.

 

A nossa fé não uma fé é estúpida, imbecil, ignorante. A verdade absoluta não é absolutista. A nossa fé interroga e faz perguntas com os salmistas ou com apóstolo Tomé.

 

O grande e bom Carlo Maria Martini, teólogo, biblista, pastor e cardeal por muitos anos de Milão, um bispo realmente progressista, na inauguração da Cátedra dos Não-Crentes”, em 1987 dizia: “Eu acredito que cada um de nós tem dentro de si um incrédulo e um crente, que falam um com  o outro, que se questionam, que continuamente enviam perguntas pungentes e perturbadoras um ao outro. O não-crente que está em mim perturba o crente que está em mim e vice-versa. A apropriação deste diálogo interior é importante, pois permite a cada um crescer na autoconsciência”.

 

Onde está Deus? Amado irmão e irmã, companheira e companheiro, o Cristianismo tem a honestidade de não ter uma explicação. Estamos diante do mistério de Deus, do mistério da mulher e do homem e do mistério dos cosmos. E o mistério não podemos agarrá-lo, escapa-nos das mãos.

 

Porém, o Cristianismo tem algo maior do que toda e qualquer explicação. Não se assuste! Deus é o primeiro escandalizado com o escândalo do mal, aquele que mais sofre. Deus sofre com a gente e muito mais do que a gente com o mal que devasta o mundo: a fome, as guerras, as catástrofes, as doenças, o sofrimento e morte de inocentes, o mal moral causado pela maldade humana. Ele não é um espectador desinteressado e distante, desligado assistindo indiferente o drama, a tragédia e a comédia da existência humana e da criação.  Ele sofre por nós, conosco e em nós. Mais, Deus sofre em si mesmo.

 

Ele sofre por nós, quando por nós e para nossa salvação assumiu nossa carne de agonia e de prazer, de vida e de morte, ressuscitando depois para dar sentido a nossa totalidade psicossomático e espiritual. Ele sofre conosco chorando nossas lágrimas em solidariedade e consolo.

 

Ele sofre em nós, no mais íntimo, ou no outro, quando bem disse: “ Eu tive fome, sede... Eu estive doente, preso, estrangeiro...” (Mt 25,35). Deus sofre em cada pessoa que sofre suas angústias independente de sua classe social, sofre no sofrimento da exploração econômica, social, política promovido por um uma cartilha  perversa exclusivista e excludente. Deus sofre na Criação explorada e devastada por esse mesmo modelo contra a Deus, contra a Humanidade e contra a Ecologia.

 

Deus sofre e nos convoca a acabar com esse sofrimento ou, ao menos amenizá-lo, através do nosso compromisso e engajamento que neste momento, mais do que nunca tem duas frentes. Uma emergencial, para os doentes e os que passam fome. Outra, estruturante, na construção de uma justiça Ecosocial que promova uma sociedade fraterna, pacífica e feliz. Isto mesmo, feliz.

 

Precisamos voltar a sorrir de novo. Nestes tempos de pandemia e pandemônios suplicamos Àquele que sofre conosco que venha com sua presença ficar bem no meio e dentro de nós.

 

Concluo com uma mística, um momento de espiritualidade.

Ó Deus, renove em nós a esperança, o sonho e a utopia, a teimosia, a poesia. Deus, renove em nós a força, a garra, a coragem e a energia. Deus, renove em nós a alegria, a felicidade, o júbilo, o contentamento, a delícia, o gozo, o prazer, a arte, a música e a dança. Nós precisamos cantar e dançar! Deus, renove em nós a saúde física, psíquica e espiritual restaurando  o corpo, a alma e o espírito de todas e todos, de cada um e cada uma. Deus, renove em nós aquela sua benção que nos guarda, protege e defende de todos os perigos visíveis e invisíveis. Deus, renova em nós a paz, calma, serenidade, tranquilidade, suavidade, mansidão e leveza. O seu nome, ó Deus, é Deus-conosco, o Emanuel, que chora nossas lágrimas e sorrir nossos sorrisos. Fica conosco e em nós!

 

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

 

 

domingo, 4 de abril de 2021

PÁSCOA. EU VI A MISÉRIA DO MEU POVO, EU CONHEÇO O SEU SOFRIMENTO. EU DESCI PARA LIBERTÁ-LOS

 

 

Pe Fabio Potiguar dos Santos


 

O Senhor disse a Moisés: “Eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi  o seu clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias . Por isso eu desci a fim de libertá-lo das mãos dos egípcios, e para libertá-los eu vou fazê-lo subir a uma terra boa e vasta…  Agora o clamor dos filhos de Israel chegou até a mim e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo. Vai, pois, e te enviarei à Faraó para fazer libertar e fazer sair do Egito o meu povo. ” (Ex 3,7-10).

Esta passagem bíblica é a manifestação do compromisso de Deus com o Povo. É o anúncio da Páscoa dos Hebreus. É a profecia da Páscoa Definitiva a ser inaugurada com a Morte e a Ressurreição de Jesus. Jesus, humano conosco. Jesus, Deus com o Pai e o Espírito Santo. Páscoa jubilosamente celebrada hoje, Domingo da Ressurreição.

Na Páscoa da Antiga Aliança Deus liberta seu povo da escravidão tirânica do faraó opressor. Na Páscoa da Nova e Eterna Aliança Deus liberta seu povo do pecado e da escravidão da morte eterna. Pecado de cada pessoa e o pecado social das desigualdades e das injustiças que ainda hoje sofre o povo de Deus, muito mais agora em tempos de pandemias e pandemônios. Vamos, então, à luz do capítulo três e versículos de sete a nove do livro do Êxodo, ler, refletir e sentir o próprio Deus e sua ação Pascal Libertadora.

Eu vi a miséria do meu povo.  Em Jesus, o Emanuel -   Deus conosco -  Deus vê com os olhos humanos de Jesus e com seu olhar divino a nossa miséria. Aquela miséria inerente à nossa condição humana de seres famintos, sedentos, carentes, necessitados, incompletos e inacabados. Falo aqui no sentido existencial da palavra e não a miséria no aspecto financeiro.  Mas Deus ver igualmente a miséria socioeconômica do seu povo e da natureza destruída e devastada, sua Criação.  O Evangelho do Ressuscitado nos convoca às bem-aventuranças da justiça e da paz.  O homem novo e a mulher nova renascidos na Páscoa, ressuscitados com Jesus Cristo pelo poder do Espírito Santo só serão novos de verdade, se forem instrumentos das exigidas transformações econômicas, sociais,  culturais e ambientais, sem  excludentes e excluídos, sem opressores e oprimidos.  Sem faraós.

Eu conheço as suas angústias. Deus sabe de nossas angústias, Ele é também carne de nossa carne e ossos de nossos ossos.  Ele é o Verbo Encarnado angustiado no Monte das Oliveiras e no monte do Calvário.  Deus não é um Deus distante, indiferente, desligado e desinteressados de nós. Um sarcástico.  Ele confessou na sua angústia suprema que a carne é fraca.  Não era um ensinamento de Deus para os homens. Era uma confidência do Deus feito carne que confidenciava que a carne é fraca. Deus conhece muito bem a dor da depressão.  “Minha alma está perto perturbada até a morte”(Mc 14,34). Ele nos dias de sua vida terrestre ofereceu súplicas ao Pai, por nós, com clamor e lágrimas (Hb 5,7). Deus chora! ( Jo 11, 35). Jesus Chorou cantam Mano Brown, DJ KL Jay, Ice Blue e Edi Rock do Racionais MC’s.  Deus conhece a pobreza, o preconceito e a discriminação de ser o Nazareno e Galileu. Quem são nazarenos e galileus de hoje?  Nós conhecemos? Conhece a tortura na prisão e a morte de cruz.  “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos torturados, como sendo-o vós mesmos também no corpo” (Hb 13,3).

Deus tem fome e sede. “Tive fome e me deste de comer tive sede e me deste de beber... tive preso e me foste ver” (Mt 25,35-36).  Ele gritou na cruz “tenho sede!” (Jo 19,28).  Deus conhece as nossas angústias e sofre os nossos sofrimentos muito mais do que nós sofremos com as nossas dores.  O Dom Helder vai mais longe no mistério pascal e faz uma oração : ““Mais que comum dos dias, olhei o mais que pude os rostos dos pobres, gastos pela fome, esmagados pelas humilhações, e neles descobri teu rosto, Cristo Ressuscitado!”.

 

 

Eu desci a fim de libertá-lo.  O Filho desceu do céu e veio à terra. Desceu até aonde nós tínhamos descido nas trevas do pecado e da morte.  Desceu até o homem e a mulher em suas condições humilhantes, degradantes, vexatória, desumanas e cruéis ferindo a sua dignidade de pessoa, seja enquanto indivíduo ou membro de uma sociedade.  Desceu à terra, “ a Criação geme como em dores de parto esperando também a glória e a condição de filha de Deus” ( Rm 8,22).  Desceu até debaixo da terra, na chamada “mansão dos mortos”, aonde estavam, na imagem alegórica bíblica os nossos primeiros pai e mãe, Adão e Eva. Aliás, existe uma Antiga Homilia do Sábado Santo do século IV sobre essa descida. Sugiro a leitura. É para mim um dos textos mais bonitos da literatura universal. Se no último Domingo de Ramos o papa Francisco nos disse que “ Jesus sobe à cruz para descer ao nosso sofrimento” , podemos dizer também que ele desceu à terra para nos levantar para terra e, além da terra, o céu.

Eu vou fazê-lo subir a uma terra boa e vasta. Aquele que morreu e ressuscitou subiu aos céus em sua ascensão. Nós que com ele morremos e ressuscitamos, também com ele subimos aos céus. (Ef 2,6). Somos agora terrestres e celestes. Humanos e divinos. Já subimos pelo batismo, mas vai chegar um dia, quando, da hora de nossa páscoa definitiva, em que subiremos para esta terra boa e vasta do céu para sempre numa festa que nunca se acaba. Dom Helder  Camara, na Missa dos Quilombos, com Dom Pedro Casaldáliga e Dom José Maria Pires, Milton Nascimento e Pedro Tierra, reza a Nossa Senhora: “Pede ao teu Filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver. ... Mariama, Mãe querida, nossa Mãe!”. Outra dica. Procure no youtube e se arrepie do começo ao fim!

Festa! Contudo, não somos alienados nem alienantes.  A Páscoa de Jesus tem incidência na promoção da dignidade de cada pessoa humana e na preservação do meio ambiente.  Ele faz subir os que estão sofrendo violações de seus direitos civis, políticos, econômicos sociais culturais e ambientais.  Daí o nosso compromisso de, enquanto ressuscitados com Cristo promover, proteger e reparar os Direitos Humanos na sua indivisibilidade e interdependência e o direito da Mãe Terra à vida. Todo desenvolvimento econômico e social só é legítimo quando sustentável.

Como concluir essa nossa partilha? Bendito seja Deus que nos vê, nos conhece, desceu até nós e nos fez subir com Ele. A sua Páscoa é nossa Páscoa.

  Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

ELA CHEGOU BEM PERTO DE MIM, OLHOU BEM DENTRO DE MEUS OLHOS, NO CAROÇO DOS MEUS OLHOS

 Pe Fabio Potiguar dos Santos

Ela chegou bem perto de mim, olhou bem dentro de meus olhos, no caroço dos meus olhos – aquela parte onde tem um frecha, uma brecha, uma janela, uma porta para alma- e disse, bem baixinho, quase sussurrando, mas como se fosse um grito: “Não, Deus não existe! É somente uma poesia para suportar esta vida de muita dor.

 Seja o Tupã ou Guaracy dos índios, seu padre! Também o Montubá ou Olorum dos orixás trazidos pelo sofrido povo da África é também só poesia. O senhor gosta de poesia, não é mesmo, seu padre? Tão pouco esse Deus de Abraão em que creem os judeus, cristãos e muçulmanos. Odeio esse seu Deus cristão católico, só menos perverso ao das seitas fundamentalistas dos pentecostais. 

Seu Deus, seu padre, é uma droga, uma maconha, um ópio. Acreditar nele é dá um atestado de que não passa de um sarcástico, um impotente, um malvado assistindo de sua mais alta tecnologia celestial o drama, a tragédia e a comédia da existência humana. Professar minha fé em qualquer um deles, seja daqui do Ocidente ou as deidades hindus ou a mística budista é o mesmo que confessar que ele matou meu filho com os tiros de balas perdidas. 

Então deixa-o de fora. Assim não terá mérito nem culpa. Ainda quando cria não pedia nem agradecia pelas chuvas. Se não chovesse, sabendo Deus o que isso significa para um sertanejo, então ele é muito mau. Se chovesse, então ele é bom? Decidi que era uma questão climática e não religiosa e pronto. Fale alguma coisa, padre! Fale alguma coisa, desde que não seja essa outra poesia sua de que Deus é um Deus Humilde e Sofredor de suas homilias, dos seus artigos, do seu livro. 

No começo até que gostei da ideia, dessas suas palavras de um Deus não caricato nas missas e cultos cheios de ostentação mundana, profana, pagã, luxuosa, cafona. No começo até gostei desse Deus na terra com jarra, bacia e o toalhas nas mãos e nos céus de bandeja e avental.  Sim, no começo até gostei de ouvir o senhor   falar de um Deus que sofre conosco e em nós, carne de nossa carne de agonia e prazer. Um Deus mais solidário do que poderoso. Também era interessante a vitória desse Deus depois de crucificado e morto, vencer sem revanches, de triunfar sem triunfalismos. Ria quando o senhor dizia que se fosse um de nós seria bem provável que fôssemos tirar onda com a cara dos sumos sacerdotes Anás e Caifás numa visita de supressa a casa deles ou numa reunião do Sinédrio inteiro, sem não antes passar por Pilatos e Herodes quando fosse se exibir para todo mundo no templo de Jerusalém. Sim, por um tempo essa vitória discreta e com sobriedade tinha todo a ver com quem se dizia manso e humilde do coração. 

Mas, até nisso também não creio mais. Meu filho morreu! E para não ter problemas comigo   nem com ele, de crente que era, já não creio mais. Não sou ateia nem agnóstica. O ateísmo é uma profissão de fé ao inverso e pelo avesso. Eu não professo nem de um jeito nem de outro. Não afirmo nem nego. O agnosticismo, seu padre, é aquela indiferença onde tanto faz deus existir ou não. Pronto, seu padre, não sou ateia nem agnóstica. Não creio e pronto, seu padre, entendeu? Ela perguntou se havia entendido e nem me esperou responder. Foi embora. 

O que posso dizer sobre tudo que ouvi? Essa mulher tem mais fé do que muita gente aí, inclusive eu. Seu relacionamento com Deus é honesto. Talvez tenha sido a pessoa mais crente que já encontrei ou aquela que perdeu a fé e se encontrou de outro modo. Quanto a mim, vou por aqui, na alegria e na agonia da fé. Na consolação e desolação da fé. Nas certezas e nas dúvidas da fé. Nas vias teológicas afirmativa e negativa. 

A via   catafática da revelação, da afirmação e, a via apofática do mistério, da negação. Luz e escuridão. Trevas Luminosas. Essa fé que me enche de força, de amor, de paz, de alegria e de esperança.  Essa fé que me enche de fé. Vou por aqui. As vezes minha fé é tão pequena e tão sofrida, menor do que um grão de areia, que não move montanhas, mas contudo, é a minha fé. Andar com fé eu vou e com todo sentimento e razão, cantar e dançar com Gilberto Gil “Andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá ... a fé tá na maré, na luz, na escuridão ...a fé tá na manhã, a fé tá no anoitecer. Oh, oh, no calor do verão”.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

sábado, 28 de novembro de 2020

ADVENTO

 

  


Pe Fabio Potiguar dos Santos

 


PRIMEIRA E SEGUNDA VINDA DO SENHOR

E SUA VINDA INTERMEDIÁRIA

Nasci em Currais Novos, porta do Seridó potiguar. A padroeira da cidade é a mesma do sertão: Santana, esposa de Joaquim, mão de Maria e avó de Jesus.

A imagem barroca banhada a ouro trazida nos já idos 1808, retrata Santana com Maria menina em seus braços com um livro aberto nas mãos. Eu, menino danado e curioso, no meio da missa, puxando a saia de mamãe ou braço de papai, perguntava o que tinha escrito naquele livrinho. Multidão grande em frente a Matriz. Queria ver melhor. Papai me levantava bem alto  – me emociono agora nos braços  parrudos do meu pai -  e me dizia qualquer coisa para fazer abrir um sorriso largo em minha cara, um sorriso que somente um menino sabe dar , fazer brilhar os meus  olhos com um brilho que somente uma criança de cinco anos sabe olhar brilhando assim.  “O Reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do baú coisas velhas e novas”. São palavras de Jesus. No baú da minha memória, lembrança nos braços de papai, arrancam lembranças perdidas, coisas antigas do tempo em que a criança era criança e, no meio dessas coisas perdidas me encontro menino e meu pai  um jovem pai. Coisas novas, sou criança.

Você pode está se perguntando: “E o advento, a imagem barroca banhada a ouro... e o livrinho?”  Desculpas por meus devaneios! Eles e as repetições fazem parte do meu estilo deselegante de escrever.

Só depois de mais um pouco de anos quando a gente vira coroinha e sobe nos altares para botar velas, flores e a santa no andor, eu fiquei conhecendo a frase: “Um dia a salvação virá”.

Santana e Joaquim, como judeus piedosos, transmitiam, como todos os pais aos seus filhos, a esperança de Israel: a vinda do Messias. Só Deus sabia que essa linda menina um dia seria a mãe do seu Filho. Deus quis também uma mulher. Um dia a menina-moça Maria recebe a visita de um anjo lhe anunciando como a escolhida para ser a mãe do Salvador. No princípio dos tempos o Espírito de Deus pairava sobre as águas e tudo foi criado, na plenitude dos tempos esse mesmo Espírito paira sobre as águas do ventre virginal de Maria e tudo é recriado. Criação e Nova Criação.

Advento é a preparação ao Natal. A Igreja durante quatro semanas nos mergulha no Mistério da Encarnação do Filho de Deus. Aquele que desceu do céu e veio a terra e se fez para sempre um de nós. Deus enviou seu Filho Amado para realizar uma Nova Criação antropológica e cósmica por meio de sua morte e ressurreição no poder amoroso do Espírito.  Essa foi a primeira vinda de Cristo. Fazendo memória celebrativa da primeira vinda de Cristo, a Igreja nos envolve também, na alegre esperança da sua Segunda vinda. Pois bem, se preparando no advento para celebrar no Natal, a primeira vinda de Cristo , nós nos preparamos para sua segunda vinda, quando voltará para plenificar a Nova Criação inaugurada na Páscoa-Pentecoste.

Primeira e Segunda vinda de Cristo.  Há todavia, uma vinda intermediária entre uma e outra. Todos os dias Jesus vem ao nosso encontro em cada pessoa: o pai, a mãe, o filho, o irmão, o marido, a esposa,  o colega de trabalho ou de escola e faculdade, o irmão na igreja  e principalmente no pobre, naquel que tem fome, sede, está nu, sem casa, doente ou na prisão ou ainda  carente de amor e de cuidados...  Jesus vem em cada momento de oração pessoal diária,  na leitura orante ou estudada da Palavra de Deus, na Liturgia das Horas, nos sacramentos...  Jesus vem bem especialmente no Culto Dominical evangélico e na Celebração da Missa, onde em torno da Mesa da Palavra e da Mesa Eucarística , damos por Ele, com Ele e Nele, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória enquanto  esperamos sua nova  vinda.

Deus nos ajude com a sua graça a vivermos um santo e abençoado Advento. Ele vem, “Tu vens numa manhã de domingo, eu já escuto os teus sinais. Tu vens, tu vens”.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife