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sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Uma democracia que forçosamente está por vir

 Leonardo Boff


 

Estamos todos empenhados em salvaguardar uma democracia mínima diante de um presidente desvairado que continuamente a ameaça. Como vivemos uma crise geral, paradigmática e irremissível, convém já agora sonhar com outro tipo de democracia.

Parto de um pressuposto,segundo dados de cientistas sérios,de que enfrentaremos dentro de poucos anos, devido ao acelerado e irrefreável aquecimento climático, grave risco de sobrevivência da espécie humana. A Terra será outra. Se quisermos continuar sobre este planeta temos que, por primeiro, minorar os efeitos danosos, com ciência e técnica e por fim, elaborarmos um outro paradigma civilzatório, amigável à vida e sentidono-nos irmãos e irmãs de  todos os demais seres vivos. Pois possuimos com eles o mesmo código  genético de base. Dizem-me:”você é pessimista”! Respondo com Saramago:”não sou pessimista; a realidade é que é pésssima” Já em 1962 a bióloga estadunidense Rachel Carson em seu famoso “A primavera silenciosa“(Silent Spring) advertia sobre a crise ecológica e concluía:”A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida sem destruir a si mesma e em perder o direito de ser chamada de civilização“. Por isso a urgência de mudarmos de paradigma e de modelo de democracia.

Dentro deste contexto realista proponho a urgência  de um outro tipo de democracia: a sócio-ecológica. Ela representaria a culminância do ideal democrático.

Subjacente a ela vigora também ideia originária de toda a  democracia:tudo o que interessa a todos e a todas deve ser pensado e decidido por todos e por todas.

Há uma democracia direta em pequenas comunidades. Quando são maiores, projetou-se a democracia representativa. Como, geralmente, os poderosos a controlam, propôs-se uma democracia participativa e popular  na qual os do andar de baixo podem participar na formulação e acompanhamento das políticas sociais. Avançou-se mais e descobrimos a democracia comunitária, vivida pelos povos andinos, na qual todos participam de tudo dentro de uma grande harmonia ser humano-natureza. Viu-se que a democracia é um valor universal (N.Bobbio) a ser vivida cotidianamente, uma democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos). Face ao risco da eclipse da espécie humana, todos para se salvar se  uniriam ao redor da superdemocracia planetária (J.Attali).

Mais ou menos nesta linha, penso numa democracia sócio-ecolôgica.Os sobreviventes das mutações da Terra, estabilizando seu clima médio por volta de 40 ou mais graus Celsius, como forma de sobrevivência, forçosamente, terão que  a se relacionar em harmonia com a natureza e com a Mãe Terra. Dai se propõem a constuir uma democracia sócio-ecológica. È social por envolver a toda a sociedade. É ecológica porque o ecológico será o eixo estruturador de tudo.Não como uma técnica para garantir a sustentabilidade do modo de vida humana e natural mas como uma arte, um novo modo de convivência terna e fraterna com a natureza. Não obrigarão mais a natureza a adaptar-se aos propósitos humanos. Estes se adequarão aos ritmos da natureza, cuidando dela, dando-lhe repouso para se regenerar. Sentir-se-ão não apenas parte da natureza mas a própria natureza, de sorte que cuidando dela, estão cuidando de si mesmos, coisa que os indígenas já sabiam.

Esse tipo de democracia sócio-ecológica possui um base cosmológica. Sabemos pela nova cosmogênese, pelas ciências do universo,da Terra e da vida que todos os seres são interdependentes. Tudo no universo é relação e nada existe fora da relação A constante básica que sustenta e mantém o universo ainda em expansão  é constituída pela sinergia,pela simbiose e pela inter-retro-relacionalidade de todos com todos. Mesmo a compreensão de Darwin da sobrevivência dos mais adaptado se inscreve dentro desta constante universal. Por isso cada ser possui o seu lugar dentro do Todo. Até o mais débil pelo jogo das interrelações tem sua chance de sobreviver.

A singularidade do ser humano e isso foi comprovado pelos neurólogos, geneticistas, bioantropólogos e cosmólogos, é comparecer como um ser-nó-de-relações, de amorosidade, de cooperação, de solidariedade e de compaixão.Tal singularidade aparece melhor quando a comparamos com os símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas com 1,6% de carga genética. Eles possuem também uma vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação e hierarquização. Mas nós nos diferenciamos deles pelo surgimento da cooperação. Concretamente, quando nossos ancestrais humanóides saiam para buscar seus alimentos, não os comiam individualmennte. Traziam-nos para o grupo e viviam a comensalidade solidária. Esta os fez humanos, seres de amor de cuidadeo e cooperação.

A ONU admitiu que tanto a natureza quanto a Terra são sujeitos de direitos.São os novos cidadãos com quais devemos conviver amigavelmente. A Terra é uma entidade biogeofísica, Gaia, que articula todos os elementos para continuar viva e produzir todo tipo de vida. Num momento avançado de sua evolução e complexidade, ela começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Surgiu,então, o ser humano, homem e mulher que são a Terra pensante e amante.

Ela se organizou em sociedades, também democráticas, das mais diferentes formas.Mas hoje porque soou o alarme ecológico planetário devemos, com sabedoria,  forjar uma democracia diferente, a  sócio-ecológica.

Se quiermos sobreviver juntos, esta democracia se caracterizará por ser uma biocracia, uma geocracia, uma sociocracia, uma cosmocracia, em fim, uma democracia  ecológico-social ou sócio-ecoógica. O tempo urge. Devemos gerar uma nova consciência e nos preparamos para as mudanças e adaptação que não tardarão em chegar.

Leonardo Boff escreveu com Jürgen Moltmann “Há esperança para a criação ameaçada? Vozes 2014.

 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O PIOR ESTÁ AINDA POR CHEGAR

Leonardo Boff


As grandes enchentes ocorridas na Alemanha e na Bélgica em julho. mês do verão europeu, causando centenas de vítimas, associadas a um aquecimento abrupto que chegou em alguns lugares a mais de 50 graus, nos obriga a pensar e a tomar decisões em vista do equilíbrio da Terra. Alguns analistas chegaram a dizer: a Terra não se aqueceu; ela se tornou, em alguns lugares, uma fornalha.

Isso significa que dezenas de organismos vivos não conseguem se adaptar e acabam morrendo. Atualmente com o atual aquecimento que no último século cresceu em mais de um grau Celsius, e se chegar, como previsto, a dois graus cerca de um milhão de espécies vivas estarão à borda de seu desaparecimento depois de milhões de anos vivendo neste planeta.

Entendemos a resignação e o ceticismo de muitos meteórologos e cosmólogos que afirmam termos chegado tarde demais no combate ao aquecimento global. Não estamos indo ao encontro dele. Estamos gravemente dentro dele. Argumentam, desolados, temos pouco que fazer, pois o dióxido de carbono já está excessivamente acumulado, pois, permanece na atmosfera entre 100 a 120 anos, agravado pelo metano,20 vezes mais tóxico, embora fique por pouco tempo no ar. Por surpresa geral, ele irrompeu, devido  ao degelo das calotas polares e do parmafrost que vai do Canadá e atravessa toda a Sibéria.E fez crescer o aquecimento global.

A intrusão do Covid-19, por ser planetário. nos obriga a pensar e a agir de modo diferente. É notório que a pandemia é consequência do antropoceno, quer dizer, do excessivo avanço agressivo do sistema imperante, baseado no lucro ilimitado. Ele ultrapassou os limites suportáveis pela Terra. Pelo desmatamento à la Ricardo Salles/Bolsonaro, pelo cultivo de monoculturas e pela  geral poluição do meio ambiente, chegou-se a destruir o habitat dos vírus. Sem saber para onde ir, saltaram para outros animais, imunes dos vírus e deles passaram a nós que não possuímos esta imunidade.

Vale pensar o que significa o fato de que o inteiro planeta foi afetado, por um lado igualando a todos, e por outro aumentando as desigualdades porque a grande maioria não consegue viver o isolamento social, evitar as conglomerações, especialmente, no transporte coletivo e nas lojas. Não afetou os demais seres vivos, nossos animais domésticos.

Devemos reconhecer: os visados fomos nós humanos. A Mãe Terra,desde os anos 70 do século passado,. reconhecida como um organismo vivo, Gaia, e pela ONU (no dia 22 de abril de 2009) aprovada verdadeiramente como Mãe-Terra, nos enviou um sinal e uma advertência: “parem de agredir todos os ecossistemas que me compõem; já não me concedem o tempo suficiente para repor o que me tiram durante um ano e de me regenerar”.

Como o paradigma vigente considera a Terra ainda como um mero meio de produção, num sentido utilitarista, não estão prestando atenção a suas advertências. Ela, como super-orgnismo vivo, nos dá sinais inequívocos, como agora,, com as grandes enchentes na Europa, o excessivo frio no hemisfério sul e a gama de vírus já enviados (zica, ebola, chikungunya e outros).

Como somos cabeças duras e vige uma clamorosa ausência de consciência ecológica, podemos ir ao encontro de um caminho sem retorno.

Curiosamente, como já foi comentado por outros, “os profetas do neoliberalismo estão se transformando em promotores da economia social  porque concebem, diante da catástrofe atual, que já não será possível fazer o mesmo que antes e que será necessário voltar aos imperativos sociais”. O pior que nos poderia acontecer é voltar ao antes, cheio de contradições perversas, inimigo da vida da natureza e indiferente ao destino das grandes maioria pobres e se armando até os dentes com armas de destruição em massa, absolutamente inúteis face aos vírus.

Temos que forçosamente mudar, superar os velhos soberanismos que tornava os outros países  até hostis ou submetidos à feroz competição. O vírus mostrou que não contam para nada os limites das nações. O que, realmente, conta é a solidariedade entre todos e o cuidado de uns com os outros e para com a natureza, para que, preservada, não nos envie vírus ainda piores. Agora é da nova era da Casa Comum dentro da qual estão as nações.

David Quamen, o grande especialista em vírus, deixou esta advertência: ou mudamos nossa relação para com a natureza sendo respeitosos, sinergéticos e cuidadosos, caso contrário ela nos enviará outros vírus, quem sabe um tão letal que nossas vacinas não poderão ataca-los e levarão grande parte da humanidade.

Ao não determos o aquecimento global e ao não mudarmos de paradigma para com a natureza, conheceremos dias piores. Se não podemos mais deter o aumento do aquecimento global, com a ciência e a técnica que possuímos, podemos pelo menos mitigar seus efeitos deletérios e salvar o máximo da imensa biodiversidade do planeta.

Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos: devemos escolher entre seguir a mesma rota que nos leva a um abismo ou mudar forçosamente e garantir um futuro para todos, mais frugal, mais solidário e mais cuidadoso para com a natureza e a Casa Comum.

Já há 30 anos repito esta lição e sinto-me um profeta no deserto. Mas cumpro o meu dever que é de todos os que despertaram um dia.Devemos  falar e agora já gritar.

Leonardo Boff ecofilósofo e escreveu Habitar a Terra: a via para a fraternidade universal a sair pela Vozes dentro de pouco; Covid-19, a Mãe Terra contra-ataque a Humanidade, Vozes 2020.

 

sábado, 24 de abril de 2021

NESTA PANDEMIA, ONDE ESTÁ DEUS?

 


Pe Fabio Potiguar dos Santos


 

Nesta noite escura que atravessa o mundo e, principalmente o Brasil, diante de tanta dor e sofrimento do povo por causa de uma crise sanitária, política, econômica e social agravada por um gestor incompetente e irresponsável, sem consciência e sensibilidade; ante da morte não de números, mas de pessoas com suas famílias enlutadas, ricas e pobres, sem fazer os ritos de despedidas mais completamente; perante a angústia, a ansiedade, a depressão, o pânico e outros transtornos psíquicos causados neste cenário onde há dias que mais morre gente do que nasce no Brasil e, nos sentindo “o próximo da fila” que possa vir a ter o covid-19 ou morrer em decorrência dele: diante, ante e perante podemos nos perguntar por onde anda Deus.

 

É meu o grito do salmista. “Ó Senhor, por que ficais assim tão longe, e, no tempo da aflição vos escondeis?” ( Sl 10,1). “Até quando, ó Senhor, me esquecereis? Até quando  escondereis de mim a vossa face?” (Sl 13,2). Talvez possa até dizer, é nosso esse brado do semita.

 

Grito muito mais ainda com Castro Alves em Navios Negreiros e Vozes da África diante do sofrimento do povo negro escravizado pelos cristãos nas Américas de um ponta a outra. Protestantes e católicos que também dizimaram muitos e tantos povos indígenas. Crime contra a Humanidade. Vergonha para consciência cristã. João Paulo II várias vezes pediu perdão por isso, e também o amado papa Francisco. E Deus, por onde andava Deus naqueles tempos e nos tempos de hoje quando parece não ver as novas formas de escravidão, exploração do povo, o abuso de menores ou os maus-tratos de idosos, o sofrimento psíquico e psiquiátrico que atinge do mais rico aos mais humildes, a opressão dos pobres e a devastação e da natureza?

 

Com a pandemia essa escandalosa exploração e destruição não só se tornaram mais evidentes, como se acentuaram de forma assustadora e criminosa. Diante de tudo isso me junto a este poeta abolicionista: “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes. Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, Senhor Deus?.” 

 

Epicuro, na antiguidade, já questionava: “Ou bem Deus deseja suprimir o mal, mas não pode, ou Ele pode mas não quer. Se Deus o quer mas não pode, Ele é impotente, o que é contrário à sua natureza. Se Ele pode mas não quer, Ele é malvado, o que é contrário à sua natureza. Se Ele o não o quer nem o pode, Ele é ao mesmo tempo impotente e malvado, o que significaria dizer que Ele não é Deus. Mas se Ele pode e quer, o que só convém a Ele, de onde vem então o mal e por que Ele não lhe suprime? ”

 

O papa Bento XVI na Audiência Geral no dia 27 de setembro de 2006, se referindo a São Tomé dizia: “Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos. Temos a coragem para dizer: não te compreendo, Senhor, ouve-me, ajuda-me a compreender. Desta forma, com esta franqueza que é o verdadeiro modo de rezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade de compreender, ao mesmo tempo colocamo-nos na atitude confiante de quem espera luz e força de quem é capaz de as doar”. O livro Introdução ao Cristianismo é um dos mais importantes do teólogo Ratzinger. Assim ele escreveu: “Tanto o crente quanto o incrédulo, cada um à sua maneira compartilham a dúvida e a fé, sempre entendidos que não procuram fugir de si mesmos e da verdade de sua existência. Ninguém pode escapar completamente da dúvida, mas nem mesmo da fé. Para um, a fé se faz presente contra a dúvida, para o outro na dúvida e na forma da dúvida”

 

Conhecemos e, costumamos repetir ao longo de nossas vidas, principalmente naqueles mais difíceis juntos com o pai do menino epilético: “Senhor eu creio, mas aumentai a minha fé” (Mc 9,24). Essa tradução está errada, erradíssima. A tradução mais próxima do original seria: “Eu creio! Ajuda minha incredulidade! ”

 

No grego está escrito: “ Πιστεύω - pisteuó (eu creio) + βοήθει – boétei (ajuda) + μου (minha) + τῇ -te (a) + ἀπιστίᾳ - apistia (não-fé). Creio, ajuda minha incredulidade”. A minha fé e a minha não-fé caminham juntas.  Ajuda, Senhor, minhas trevas luminosas, tão clara e tão escura.

 

A nossa fé não uma fé é estúpida, imbecil, ignorante. A verdade absoluta não é absolutista. A nossa fé interroga e faz perguntas com os salmistas ou com apóstolo Tomé.

 

O grande e bom Carlo Maria Martini, teólogo, biblista, pastor e cardeal por muitos anos de Milão, um bispo realmente progressista, na inauguração da Cátedra dos Não-Crentes”, em 1987 dizia: “Eu acredito que cada um de nós tem dentro de si um incrédulo e um crente, que falam um com  o outro, que se questionam, que continuamente enviam perguntas pungentes e perturbadoras um ao outro. O não-crente que está em mim perturba o crente que está em mim e vice-versa. A apropriação deste diálogo interior é importante, pois permite a cada um crescer na autoconsciência”.

 

Onde está Deus? Amado irmão e irmã, companheira e companheiro, o Cristianismo tem a honestidade de não ter uma explicação. Estamos diante do mistério de Deus, do mistério da mulher e do homem e do mistério dos cosmos. E o mistério não podemos agarrá-lo, escapa-nos das mãos.

 

Porém, o Cristianismo tem algo maior do que toda e qualquer explicação. Não se assuste! Deus é o primeiro escandalizado com o escândalo do mal, aquele que mais sofre. Deus sofre com a gente e muito mais do que a gente com o mal que devasta o mundo: a fome, as guerras, as catástrofes, as doenças, o sofrimento e morte de inocentes, o mal moral causado pela maldade humana. Ele não é um espectador desinteressado e distante, desligado assistindo indiferente o drama, a tragédia e a comédia da existência humana e da criação.  Ele sofre por nós, conosco e em nós. Mais, Deus sofre em si mesmo.

 

Ele sofre por nós, quando por nós e para nossa salvação assumiu nossa carne de agonia e de prazer, de vida e de morte, ressuscitando depois para dar sentido a nossa totalidade psicossomático e espiritual. Ele sofre conosco chorando nossas lágrimas em solidariedade e consolo.

 

Ele sofre em nós, no mais íntimo, ou no outro, quando bem disse: “ Eu tive fome, sede... Eu estive doente, preso, estrangeiro...” (Mt 25,35). Deus sofre em cada pessoa que sofre suas angústias independente de sua classe social, sofre no sofrimento da exploração econômica, social, política promovido por um uma cartilha  perversa exclusivista e excludente. Deus sofre na Criação explorada e devastada por esse mesmo modelo contra a Deus, contra a Humanidade e contra a Ecologia.

 

Deus sofre e nos convoca a acabar com esse sofrimento ou, ao menos amenizá-lo, através do nosso compromisso e engajamento que neste momento, mais do que nunca tem duas frentes. Uma emergencial, para os doentes e os que passam fome. Outra, estruturante, na construção de uma justiça Ecosocial que promova uma sociedade fraterna, pacífica e feliz. Isto mesmo, feliz.

 

Precisamos voltar a sorrir de novo. Nestes tempos de pandemia e pandemônios suplicamos Àquele que sofre conosco que venha com sua presença ficar bem no meio e dentro de nós.

 

Concluo com uma mística, um momento de espiritualidade.

Ó Deus, renove em nós a esperança, o sonho e a utopia, a teimosia, a poesia. Deus, renove em nós a força, a garra, a coragem e a energia. Deus, renove em nós a alegria, a felicidade, o júbilo, o contentamento, a delícia, o gozo, o prazer, a arte, a música e a dança. Nós precisamos cantar e dançar! Deus, renove em nós a saúde física, psíquica e espiritual restaurando  o corpo, a alma e o espírito de todas e todos, de cada um e cada uma. Deus, renove em nós aquela sua benção que nos guarda, protege e defende de todos os perigos visíveis e invisíveis. Deus, renova em nós a paz, calma, serenidade, tranquilidade, suavidade, mansidão e leveza. O seu nome, ó Deus, é Deus-conosco, o Emanuel, que chora nossas lágrimas e sorrir nossos sorrisos. Fica conosco e em nós!

 

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

 

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A MADAME ESTÁ? (OU GEORGE FLOYD MORA AQUI)

 


 Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Há poucos dias o Brasil celebrou mais uma vez o Dia da Consciência Negra.  Infelizmente a celebração foi marcada pelo brutal assassinato por espancamento de um cidadão negro chamado João Alberto Vieira Freitas em um supermercado Carrefour de Porto Alegre. Casado e pai de quatro filhos, João Alberto morava na Vila do IAPI, lugar onde passou sua infância a grande cantora Elis Regina. 

            Diante do corpo espancado até a morte de João Alberto, talvez Elis Regina tivesse dificuldade de cantar seu grande sucesso “Black is beautiful”, de Marcos Valle, que diz: “black beauty is so peaceful”.  Era tudo menos pacífica a cena que todas as emissoras do país mostraram, com dois homens jogando-o ao chão, espancando-o e esmagando seu corpo até tirar-lhe o hálito da vida.  Ainda houve filmagem e fotografias para caracterizar bem a crueldade do macabro espetáculo. 

            Mas parece que não há racismo no Brasil. Pelo menos é isso que dizem muitos. Vivemos uma democracia racial.  Não pesou nada o fato de João Alberto ser negro para que acontecesse o seu massacre.  De minha parte, porém, creio que houve sim, porque o racismo infelizmente está entranhado na sociedade brasileira e é perversamente estrutural. 

            João Alberto teria, segundo depoimentos, molestado uma mulher dentro do supermercado e por isso fora interpelado pelos seguranças.  Perdeu a calma e agrediu um deles com um soco. Deveria ter sido contido e até eventualmente conduzido à delegacia.  Mas não.  Sem chance de defesa, foi massacrado. Como era negro devia ser perigoso. Então a violência que caiu sobre ele foi mortal. A desproporção entre seu comportamento e o tratamento que recebeu estava em direta relação com sua raça e a cor de sua pele.  

            Acontece que João Alberto compartilha essa condição e essa negritude com uma parte esmagadora de todo o povo brasileiro. Muitos poucos de nós podemos dizer que em nossas veias não corre gota alguma de sangue negro.  A miscigenação do europeu com o negro africano povoou este país com todas as nuances de pardos, mulatos e mestiços.  E apesar disso o racismo ainda permanece vivo produzindo horrores como o deste último Dia da Consciência Negra. 

O racismo no Brasil é velado e por isso mesmo mais insidioso.  Penetra nas consciências e nas mentalidades, e passa a ser encarado com naturalidade.  Como natural é que aquela que chega convidada para um jantar em algum prédio de classe média seja mandada pelo porteiro para o elevador dos fundos e a entrada de serviço pelo fato de ser negra.  

Natural também é o fato de que as cidades brasileiras hajam construído para si um verdadeiro apartheid social, abrigando os brancos nas zonas chiques, elegantes, mais seguras e bem policiadas, e enviado os negros para as favelas, os mocambos, as comunidades construídas em encostas que caem sistematicamente em cada enchente e onde a polícia não é uma segurança, mas um perigo a mais.  

Faz parte das coisas naturais igualmente que jovens negros abaixo de trinta anos sejam sistematicamente investigados nos transportes públicos e nas ruas a partir de determinada hora.  E nessas circunstâncias muitas vezes sejam presos, espoliados de seus documentos ou agredidos fisicamente. São negros, boa coisa não devem estar tramando. 

Assim foi natural na história do Brasil que a mulher negra se responsabilizasse pelos serviços na casa grande, limpando, lavando, passando, cozinhando e, de volta à senzala atender desejos e necessidades do senhor e de sua legítima e biológica descendência. Assim foi natural que as mulheres negras criassem filhos além dos seus próprios, amamentando, trocando fraldas, acalentando, adormecendo, acordando, alimentando os filhos da família, sendo chamadas carinhosamente de “mães pretas”. A suplência do papel materno na verdade era da mãe biológica, porque quem fazia tudo que de uma mãe se espera era a mulher negra. 

Mas além do trabalho doméstico, há outros nichos que se reconhecem como lugares adequados aos negros: o esporte, sobretudo o futebol; o samba; o desfile da escola de samba, onde as mulatas brilham com sua beleza estonteando os turistas estrangeiros.  Ali estão em seu espaço e seu lugar.  Se aparecem em espaço alternativo, cuidado.  Pode acontecer-lhes algo parecido com o que se passou com João Alberto.

A grande socióloga Lélia Gonzalez escreveu brilhantemente a respeito de nosso racismo estrutural e velado.  Narrou que cansou de abrir a porta de sua casa e escutar a cordial pergunta do vendedor: “A madame está? ”  Passou a responder: “Saiu”. Mas continuou ouvindo essa e outras perguntas, como: “Você trabalha na televisão?”,  “Você é artista?”. Sabia o que estava por trás desse trabalho e dessa arte. 

Chegamos a um ponto em que é preciso ver claro que a madame saiu porque não há mais lugar para ela.  O sistema doméstico não pode continuar sendo a reprodução do sistema casa grande e senzala que tristemente definiu um perfil do Brasil. Não temos o direito de criticar qualquer outro país por delitos raciais, pretextando que aqui contamos com leis que protegem a população negra.  O racismo é doença nossa. E doença grave.  George Floyd mora aqui.  E hoje se chama João Alberto, assim como ontem foi João Pedro e Marielle Franco. E também não consegue respirar. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros 

 

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sexta-feira, 27 de julho de 2018

ESTÁ CONFUSO MAS EU SONHO




Por Leonardo Boff
“Faz escuro mas eu canto porque a manhã vai chegar”, proclamou o poeta Thiago de Mello na época sombria da ditadura civil-militar de 1964.
”Está confuso mas eu sonho” digo eu, nestes tempos não menos sombrios. O sonho ninguém pode prender. Ele antecipa o futuro e anuncia o amanhã.
Ninguém pode dizer o que vai ser deste país após o golpe parlamentar-jurídico-mediático de 2016. Faz escuro e tudo está confuso mas eu sonho. Este sonho está rodando em minha cabeça há muitos dias e resolvi expressá-lo para alimentar a nossa inarredável esperança.
Sonho ver um Brasil construído de baixo para cima e de dentro para fora, forjando uma democracia popular, participativa e sócio-ecológica, reconhecendo como novos cidadãos com direitos, a natureza e a Mãe Terra.
Sonho ver o povo organizado em redes de movimentos, povo cidadão, com competência social para gerar as suas próprias oportunidades e moldar o seu próprio destino, livre da dependência dos poderosos e resgatando a própria auto-estima.
Sonho ver a utopia mínima plenamente realizada de comer pelo menos três vezes ao dia, de morar com decência, de ter frequentado a escola por oito anos, de cursar a universidade e a pós-graduação, de receber por seu trabalho um salário que satisfaça as necessidades essenciais de toda a família, de ter acesso à saúde básica e depois de ter labutado por toda uma vida, ganhar uma aposentadora digna para enfrentar, serenamente os achaques da velhice.
Sonho ver  celebrado o casamento entre o saber popular, de experiências feito, com o saber acadêmico, de estudos feito, ambos construindo um país para todos, sem excessos e também sem carências.
Sonho ver o povo celebrando suas festas com muita comida e alegria, dançando o seu São João, o seu Bumba-meu-Boi, seu samba, seu frevo, seu funk e seu esplêndido carnaval, expressão de uma sociedade sofrida mas que se encontrou na fraternura e na alegre celebração da vida.
Sonho ver aqueles que foram condenados  a sempre perder, sentirem-se vitoriosos porque o sofrimento não foi em vão e os amadureceu para, com outros, construírem um Brasi diferente, uno e diverso, hospitaleiro e alegre.
Sonho contar com políticos que se abaixam para estar à altura dos olhos do outro, despojados de arrogância, conscientes de representar as demandas populares, fazendo da política cuidado diligente da coisa pública.
Sonho andar por aí à noite sem medo de ser assaltado ou vítima de balas perdidas podendo desfrutar da liberdade de poder falar e criticar nas redes sociais  sem logo ser  ofendido e  difamado.
Sonho contemplar nossas florestas verdes, nossos imensos rios regenerados, nossas soberbas paisagens e a biodiversidade preservada, renovando o pacto natural com a Mãe Terra que tudo nos dá, reconhecendo seus direitos e por isso tratá-la com veneração e cuidado.
Sonho ver o povo místico e religioso, venerando a Deus como gosta, sentindo-se acompanhado por espíritos bons, por forças portadoras da energia cósmica do axé, dando um caráter mágico à realidade com a convicção de que, no fim, por causa de Deus-Pai-e-Mãe de infinita bondade e misericórdia, tudo vai dar certo.
Sonho que este sonho não seja apenas um sonho  mas uma realidade ridente e factível, fruto maduro de tantos séculos de resistência, de luta, de lágrimas, de suor  e de sangue.
Só então, só então, poderemos rir e cantar, cantar e dançar, dançar e celebrar um Brasil novo, o maior país latino do mundo, uma das províncias mais ricas e belas da Terra que a evolução ou Deus nos entregara.
Termino com o grande cantor das Comunidades eclesiais  de base, Zé Vicente               de  Crateús:
“Sonho que se sonha só pode ser pura ilusão, mas sonho que se sonha junto é sinal de solução. Então vamos sonhar companheiros e companheiras, sonhar ligeiro, sonhar em mutirão” (Zé Vicente de Crateús)
Assim o quer o povo brasileiro e nos ajude Deus.

Leonardo Boff é escritor e publicou: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependênca (Vozes) 2018.



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

QUEM ESTÁ MESMO NA SOMBRA DO NAZARENO?

Por Gilbraz Aragão



Sobre o livro Em busca de Jesus de Nazaré, uma análise literária, de Eduardo Hoornaert, Paulus, 2016.


“No meio de uma feira, uns poucos palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magos histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento.
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda aquela gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Lembrei-me de vós, funâmbulos da cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando, o corpo de Jesus
”
             (Abílio Manuel Guerra Junqueiro).


Das imagens ou símbolos ninguém se livra no jogo do conhecimento: a questão é como interpretamos as coisas. Dizer que “Jesus Cristo é o Senhor”, então, pode relativizar e questionar os senhores deste mundo (o pai, o padre ou pastor, o político, o professor, o patrão), como pode também sacralizá-los como enviados ou legados de Deus. O símbolo, escrito ou esculpido, liberta ou submete a gente. Posso olhar pra Jesus, por exemplo, e encontrar força para enfrentar as cruzes injustas, como a sua, ou então achar consolo ("Mais sofreu Jesus") para carregar como ele uma cruz tida como destino divino - porque eu ou a humanidade ofendemos a deus e precisamos pagar com o nosso suor e sangue! Durante mil anos, Orígenes e Agostinho ajudaram os cristãos a pensar na cruz de Cristo como resgate pago ao maligno pelas nossas almas; no século XI Anselmo pensou mais em satisfação devida a Deus pelos nossos pecados e, no século da Reforma, falava-se ainda em punição justa pelo pecado humano - não é à toa que o cristianismo foi associado à culpa e não ao perdão.

Depois da ciência moderna e de Darwin, sabe-se que o ser humano é criado em um processo de evolução, não havendo, portanto, um pecado "original" histórico - senão como uma tendência "originante" da “natureza” da gente para o ensimesmamento. E assim a hermenêutica transforma a saudade do "paraíso" em esperança: não nos é natural sermos naturais, podemos nos educar para uma amorosidade sempre maior, na direção do "ajardinamento" de tudo e com todos. Com isso, fica sem sentido a interpretação de que Jesus foi um emissário divino que veio para resgatar as vítimas da "queda original", juntamente com a visão da cruz como o momento do sacrifício divino que pagou o resgate do pecado.

Os bons teólogos cristãos discutem isso agora, articulando a possibilidade salvífica como uma experiência mais-que-natural de descentramento - vivida exemplarmente por Jesus Cristo, que com gosto amoroso acolheu o Outro, até em seus braços abertos na cruz. Cruz que foi consequência indesejada do seu amor histórico e político pelos outros, pelos pobres e desprezados (basta ver a irônica tabuleta nela dependurada, relacionando a pena às suas supostas pretensões de poder).

O livro que Eduardo está lançando, nessa linha, desenvolve uma leitura histórico-literária dos primeiros anos do movimento cristão, mostrando como, nos anos 50, Paulo apresenta Jesus como “o Ungido”; nos anos 60 a Carta aos Hebreus interpreta Jesus a partir da figura bíblica de Melquisedec e como depois, nos anos 70, Marcos retoma tudo isso e faz a memória de Jesus em um novo gênero literário que dá origem aos Evangelhos. O livro de Eduardo, assim, na contramão de leituras ortodoxas e descontextualizadoras (como a trilogia de Ratzinger sobre Jesus ou o best-seller Uma história politicamente incorreta da Bíblia, de Hutchinson), recupera e atualiza para nós a pesquisa sobre o Jesus Histórico, ajudando-nos a responder a uma questão atualíssima: alguém que se declara sem religião hoje, mas procura o seguimento de Jesus de Nazaré, é cristão? Ele parte do pressuposto pelas teologias contextuais, que consideram o processo histórico da experiência religiosa, lembrando que um cristão precisa saber qual foi a fé de Jesus, para poder orientar a sua fé (ainda que antropológica) em Jesus!

Em sua hermenêutica da Carta aos Hebreus, sobretudo, Eduardo afirma que ser cristão é tomar uma atitude diante da morte e se preparar para encarar a morte, se preciso for. Porque Jesus, pendurado numa cruz, dá testemunho da perversão do mundo e até de uma religião que mata inocentes em nome da moral. “O sacerdote segundo Melquisedec revela a maldade por trás da moralidade estabelecida. Diante da cruz, o mundo fica nu, revela a dinâmica que o move” (pg. 93).

Jesus nos ajuda a ter fé direito, justo na sua cruz (afinal, o sentido de uma vida se revela na sua morte, e o Homão da Galileia não morreu de hepatite numa cama ou atropelado por um camelo na rua!), e não por causa de algum milagre, mas sim apesar da ausência do divino ("Por que me abandonaste?!"). E não uma crença esotérica na temperatura dos infernos ou no mobiliário do céu, porém uma aposta obediente no mistério da vida, que nos escapa - o que tira o medo de morrer e de amar existencialmente, e de perdoar até aos inimigos ("Eles não sabem o que fazem!").

Então se a gente olha pras imagens de Jesus em crucifixos barrocos ou mesmo em cinema e teatro que atualmente apresentam um Cristo sanguinolento e contristado, deve descobrir que se trata de uma mística penitencial (vejam o "Senhor Morto" aplaudido na Semana Santa e as Vigílias da Páscoa esvaziadas!), de uma espiritualidade cristã que nos veio com a colonização do mundo ibérico do século XVI, acentuando a intervenção divina (Providência) em todos os momentos e cultivando um apreço pela humanidade empobrecida e humilhada - principalmente no presépio e na paixão - do santo maior, Cristo, que se liga à aceitação resignada do sofrimento humano e da morte. Aí não se espera seguimento ético histórica e existencialmente recontextualizado, mas pura imitação estética do santo (lembram dos crucificados das Filipinas?!).

Atribui-se já a Cirilo de Jerusalém a afirmação de que "o mundo inteiro se encheu de pedaços do lenho da cruz", e de toda sorte essa mística que perdura entre nós remonta à Idade Média, quando "o poder da cruz de Cristo encheu o mundo", como disse Atanásio de Alexandria. Não é de hoje (o poema acima é do final do século XIX) que há protesto contra uma imagem do crucificado que parece não ter ressuscitado, e muito menos brincado e dançado em vida - como todo moleque judeu em festa de casamento. Mas nas igrejas e muito além de suas paredes, a pessoa e mensagem de Jesus renovam-se atualmente como uma "Beleza tão antiga e tão nova". Aliás, foi pensando no Cristo que Dostoievsky sentenciou "A beleza salvará o mundo"!

Precisamos recontextualizar e descolonizar as imagens sagradas que nos foram passadas em certas interpretações dos textos sagrados. Pois é preciso passar da dependência do milagre “sobrenatural” que traz benefício do “santo” imitado, para a crença na possibilidade de sermos igualmente “santos” e capazes de fazer das nossas vidas um milagre “mais-que-natural” para a vida dos outros – pelo amor, que é (de) Deus! Qual deve ser mesmo o lugar de Jesus na vida dos cristãos?! Um objeto sagrado de culto mágico, do qual nos tornamos dependentes, ou uma pessoa mesmo de quem fazemos memória e a quem procuramos seguir, tornando-nos livres até de "nós" mesmos?

"Somos fuliginosos, perplexos, desgarrados e tristes. Somos seres humanos, transmudados por Cristo, homem divino. Somos bichos da terra, tão pequenos, mas o fogo do amor de Deus mora em nós. Por isto, temos a possibilidade da louca alegria. Cristo bailarino. Cristo dançarino. O mais próximo Próximo. Ali, na esquina, está ele, e nos olha. Naquele bar, naquele beco, naquela masmorra, hospital ou cortiço. Onde a carne sofre, aí está o Cristo, crucificado. Onde a carne ama, aí está o Cristo, glorificado. Onde está o homem, aí está o Cristo, suprema possibilidade do humano. Aqui" (Hélio Pellegrino. A burrice do Demônio. Rocco, 1989). A igreja medieval associou Apolo com o Diabo, mas as crônicas de Pelegrino nos ajudam a equilibrar a imagem de Jesus, recuperando a sua dimensão apolínea: "Cristo, à cabeceira da mesa, nos convoca para o ágape. O pão, o vinho, a alegre - e leve - embriaguez apolínea. Cristo Apolo, elegantíssimo na sua túnica, pregando pelos campos...".

A exegese romanceada de Gerd Theissen, em A sombra do Galileu (Vozes, 1991), é outro livro que guardo na cabeceira, porque nos ajuda a perguntar: Jesus foi um revolucionário? Um risco para a segurança? Ou apenas um sonhador, um poeta aldeão, um místico ambulante, como tantos houve na época entre gregos e romanos? Então, um jovem judeu é pressionado por Pilatos a colher informações sobre novos movimentos religiosos na Palestina e ele constantemente esbarra na figura de Jesus, a quem tenta encontrar. Sai à procura desse Galileu por toda parte, visando reconstruir uma imagem dele a partir das histórias que ouve da boca do povo. Mas não consegue alcançar o seu personagem a tempo: “... Sobre eles o sol descia. Espargia seus raios sobre a cruz de Jesus e as dos zelotas, sobre o morto e os dois agonizantes. Projetava sua luz sobre os soldados romanos e os espectadores que seguiam os acontecimentos, alguns curiosos e outros
aterrorizados. Estávamos à sombra do Galileu...”.

Pois bem, agora, essa história literária, Em busca de Jesus de Nazaré, de Eduardo Hoornaert, vai entrar com esses outros dois bons livros na minha mochila de mochileiro das galáxias, no meu saco de seguidor do Caminho do Galileu. Pois ele me ajuda a compreender que Jesus de Nazaré iniciou sua busca espiritual no grupo do Batista, mas o abandonou, revelando sua liderança natural e demonstrando insustentável liberdade (seu milagre providenciando vinho escandalizou puristas e legalistas, como o lava-pés até hoje escandaliza devotos), ele é impulsionado por afetividade e exibe um comportamento ético que espanta, ele sente necessidade de se abrir para um divino sempre maior e incluir sempre mais outros em seu cuidado, ele é condenado à morte em nome da moralidade vigente e resguardada pelos anciãos e religiosos do Templo. Eduardo, muitas vezes com passagens poéticas, ajuda a gente a recuperar uma estética jesuânica, na linha do Poeta:

“Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro”

(Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro).

Gilbraz Aragão é professor e Pesquisador no campo dos estudos de religião na Universidade Católica de Pernambuco. É coordenador do Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife

sexta-feira, 27 de maio de 2016

NO BRASIL CORRUPÇÃO NATURALIZADA ESTÁ SENDO DESMASCARADA

por Leonardo Boff



É estarrecedora a corrupção que se constatou no Brasil nos últimos tempos, especialmente aquela revelada pela Operação Lava Jato, vulgarmente chamada de “petrolão”, vale dizer, ligada a uma das maiores petroleiras do mundo, a Petrobrás do Brasil. Os números são sempre pelos milhões de dólares que escandalizam e vão além de qualquer bom senso, mesmo entre ladrões e mafiosos.

Os organismos norte-americanos de vigilância que espionaram a Presidenta Dilma, espionaram também a Petrobrás, devido ao fato de deter uma das maiores jazidas de gás e petróleo do mundo, que se encontra o Pre-Sal. Detectaram indícios de alta corrupção que estava ocorrendo na empresa. Alertaram, então, as autoridades brasileiras que iniciaram uma investigação. Encontraram uma teia imensa de corruptores e corruptos que envolviam grandes empreiteiras, altos funcionários da Petrobrás, gente do próprio Governo, doleiros e não ausentes setores do judiciário. Beneficiados foram especialmente políticos de quase todos os partidos (e há exceções louváveis) que financiavam suas custosas campanhas eleitorais com esse dinheiro da corrupção, sob forma de propinas milionárias.

Desde o início, as investigações que envolveram os principais órgãos da justiça e da polícia foram viciadas por um componente político. Focalizou-se particularmente, um partido, o PT que estava no poder e que seus opositores queriam, seja pela via legal da eleição ou por qualquer outro expediente ao arrepio da normalidade democrática, alijá-lo do poder. Os vazamentos, problemáticos em termos legais, praticamente se concentraram no PT relevando e até ocultando o envolvimento de outros partidos, máxime da oposição.

A partir daí se criou praticamente uma generalização (de si injusta porque recobre membros corretos, diria em sua grande maioria, nas bases partidárias dos municípios) de que corrupção era coisa do PT. Importa reconhecer que o partido se beneficiou dos esquemas de corrupção. Mas seria injusto considerar que detinha o monopólio da corrupção. Essa é endêmica na vida política e social do país e perpassa partidos e empresas e inclui muitíssimos cidadãos ricos seja sonegando altas somas de impostos, seja escondendo grande parte de suas fortuna em bancos estrangeiros ou um paraísos fiscais.

Raramente em nossa história recente temos assistido grandes empresários sendo presos, interrogados, condenados e encarcerados. A corrupção que se havia naturalizado nos mais altos estratos dos negócios e da política começou a ser desmascarada e posta sob os rigores da lei. Tal fato constitui um dado de altíssima relevância e um avanço no sentido da moralidade pública.

Mas para sermos realistas e não moralistas, não podemos reduzir a corrupção a este evento nefasto do “petrólão” desvelado pela Operação Lava Jato.

Importa reconhecer o fato de que o sistema do capital com sua cultura é em sua lógica também corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, gerando riqueza sob a forma de exploração do trabalhador e devastação dos escassos bens e serviços da natureza. Produz uma dupla injustiça, uma social e outra ecológica, esta última atualmente ameaçadora do equilíbrio do sistema-Terra e do sistema-vida. Os juros dos bancos privados no Brasil são dos mais altos do mundo e os ganhos, exorbitantes.

Thomas Piketty com o seu “Capitalismo do século XX” deixou claro que lá onde entram relações capitalistas logo surgem desigualdades que tensionam a sociedade e fragilizam a democracia que supõe uma igualdade básica de todos face à lei e os direitos garantidos com inclusão social.

As nossas formas de corrupção possuem raízes históricas no colonialismo e no escravagismo, em si violentos, que levavam as pessoas, para manterem um mínimo de liberdade, a corromper-se e a corromper. Inventou-se o famoso “jeitinho”.

Há também uma base política no arraigado patrimonialismo que não distingue o público do privado e leva as elites a tratarem a coisa pública como se fosse sua e a montar um tipo de Estado que lhes garante os privilégios.

Tudo isso gerou uma cultura da corrupção, como algo natural e intrínseco à vida social e política. Os corruptos são vistos como espertos e não como criminosos, o que de fato são. E tanto ele quanto os corruptores contam com a impunidade.

Filosoficamente pensando, qual é a raiz última da corrupção? Talvez o católico Lord Acton (1843-1902) que era historiador e pensador, nos ajude. Diz ele, a corrupção reside fundamentalmente no poder.Sempre citada é sua frase: ”o poder  tem a tendência a se corromper e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava:”meu dogma é a geral maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”.

A tradição filosófica e psicanalítica nos tem persuadido de que em todos os seres humanos há notória sede de poder. O poder não pode se garantir senão buscando ainda mais poder. E o poder se materializa sob muitas formas, no status, na busca de títulos mas principalmente no dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais poder.

Para consegui-lo não vale só o trabalho honesto mas todas as formas perversas que permitem multiplicar o dinheiro, quer dizer, assegurar mais e mais poder. É o caminho da corrupção, especialmente delapidando o bem publico, utilizando-se dos aparelhos do Estado.

A história mostra a ilusão desta pretensão. De repente pode-se perder tudo e ficar na miséria. Se a pessoa não puser sob controle a sua sede de poder e de acumulação, é castigada com o pesadelo de sentir-se perdida e sem chão.
O antidoto a essa sede de poder e de dinheiro, a nível pessoal é a honestidade, a transparência e a salvaguarda do valor sagrado da auto-dignidade. A nível político pelo sistema de controle e vigilância que todo o Estado deve ter.  Porque ambos não se verificam de forma adequada os corruptos campeiam impunes mas  se revelam desprezíveis e, finalmente, se tornam infelizes.

Será que saberemos tirar essas lições da corrupção naturalizada no Brasil e que finalmente foi desmascarada em parte pela Operação Lava Jato?

Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil on line e escritor