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domingo, 25 de julho de 2021

MULHER NEGRA DE ONDE VEM?

 


Shirley Pinheiro 

 

Vem das lutas pela igualdade,

 das guerrilhas pela paridade.

Das lágrimas  contidas em busca de preservar sua vida.

Vem das fábricas, vem das lavouras, dos balcões, vem das escolas, das Universidades também.

Vem desbravando preconceito,

nunca teve outro  jeito!

Não  é  teu cabelo que te define,

Muito menos a cor escura da pele.

É  tua alma sonhadora,

Ferrenha  lutadora.

Buscando com unhas, dentes  e garras,

O espaço  que lhe  é  de direito.

Direito sim ,porque não!

Afinal antes de ser negra.

Você  e  eu ,somos seres  humanos.

Criado do mesmo barro e pelo mesmo Criador.

Viemos a este espaço  terrestre,

Pra ser feliz e,não  sentir dor.

No entanto vivemos na guerra insana e desumana,

Criado por aqueles  que se acham senhor.

A luta será  continua,  não nos deixaremos  ser vitimas,

Nem permitiremos  ter a vida ceifada.

Pois além  de sermos mulher,

 e ter a pele negra, carregamos

 nas nossas entranhas, a herança  das nossas ancestrais.

As negras, que nunca se deixaram morrer,

Lutaram para continuar a viver.

Através  de nós

através  de você.

Mulher negra!

 

Shirley Pinheiro  25/07/2019

 

Em homenagem a Mulher  Negra  e Caribenha através  de Tereza de Benguela.

 

*Arte Lana Furtado

sábado, 24 de abril de 2021

NESTA PANDEMIA, ONDE ESTÁ DEUS?

 


Pe Fabio Potiguar dos Santos


 

Nesta noite escura que atravessa o mundo e, principalmente o Brasil, diante de tanta dor e sofrimento do povo por causa de uma crise sanitária, política, econômica e social agravada por um gestor incompetente e irresponsável, sem consciência e sensibilidade; ante da morte não de números, mas de pessoas com suas famílias enlutadas, ricas e pobres, sem fazer os ritos de despedidas mais completamente; perante a angústia, a ansiedade, a depressão, o pânico e outros transtornos psíquicos causados neste cenário onde há dias que mais morre gente do que nasce no Brasil e, nos sentindo “o próximo da fila” que possa vir a ter o covid-19 ou morrer em decorrência dele: diante, ante e perante podemos nos perguntar por onde anda Deus.

 

É meu o grito do salmista. “Ó Senhor, por que ficais assim tão longe, e, no tempo da aflição vos escondeis?” ( Sl 10,1). “Até quando, ó Senhor, me esquecereis? Até quando  escondereis de mim a vossa face?” (Sl 13,2). Talvez possa até dizer, é nosso esse brado do semita.

 

Grito muito mais ainda com Castro Alves em Navios Negreiros e Vozes da África diante do sofrimento do povo negro escravizado pelos cristãos nas Américas de um ponta a outra. Protestantes e católicos que também dizimaram muitos e tantos povos indígenas. Crime contra a Humanidade. Vergonha para consciência cristã. João Paulo II várias vezes pediu perdão por isso, e também o amado papa Francisco. E Deus, por onde andava Deus naqueles tempos e nos tempos de hoje quando parece não ver as novas formas de escravidão, exploração do povo, o abuso de menores ou os maus-tratos de idosos, o sofrimento psíquico e psiquiátrico que atinge do mais rico aos mais humildes, a opressão dos pobres e a devastação e da natureza?

 

Com a pandemia essa escandalosa exploração e destruição não só se tornaram mais evidentes, como se acentuaram de forma assustadora e criminosa. Diante de tudo isso me junto a este poeta abolicionista: “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes. Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, Senhor Deus?.” 

 

Epicuro, na antiguidade, já questionava: “Ou bem Deus deseja suprimir o mal, mas não pode, ou Ele pode mas não quer. Se Deus o quer mas não pode, Ele é impotente, o que é contrário à sua natureza. Se Ele pode mas não quer, Ele é malvado, o que é contrário à sua natureza. Se Ele o não o quer nem o pode, Ele é ao mesmo tempo impotente e malvado, o que significaria dizer que Ele não é Deus. Mas se Ele pode e quer, o que só convém a Ele, de onde vem então o mal e por que Ele não lhe suprime? ”

 

O papa Bento XVI na Audiência Geral no dia 27 de setembro de 2006, se referindo a São Tomé dizia: “Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos. Temos a coragem para dizer: não te compreendo, Senhor, ouve-me, ajuda-me a compreender. Desta forma, com esta franqueza que é o verdadeiro modo de rezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade de compreender, ao mesmo tempo colocamo-nos na atitude confiante de quem espera luz e força de quem é capaz de as doar”. O livro Introdução ao Cristianismo é um dos mais importantes do teólogo Ratzinger. Assim ele escreveu: “Tanto o crente quanto o incrédulo, cada um à sua maneira compartilham a dúvida e a fé, sempre entendidos que não procuram fugir de si mesmos e da verdade de sua existência. Ninguém pode escapar completamente da dúvida, mas nem mesmo da fé. Para um, a fé se faz presente contra a dúvida, para o outro na dúvida e na forma da dúvida”

 

Conhecemos e, costumamos repetir ao longo de nossas vidas, principalmente naqueles mais difíceis juntos com o pai do menino epilético: “Senhor eu creio, mas aumentai a minha fé” (Mc 9,24). Essa tradução está errada, erradíssima. A tradução mais próxima do original seria: “Eu creio! Ajuda minha incredulidade! ”

 

No grego está escrito: “ Πιστεύω - pisteuó (eu creio) + βοήθει – boétei (ajuda) + μου (minha) + τῇ -te (a) + ἀπιστίᾳ - apistia (não-fé). Creio, ajuda minha incredulidade”. A minha fé e a minha não-fé caminham juntas.  Ajuda, Senhor, minhas trevas luminosas, tão clara e tão escura.

 

A nossa fé não uma fé é estúpida, imbecil, ignorante. A verdade absoluta não é absolutista. A nossa fé interroga e faz perguntas com os salmistas ou com apóstolo Tomé.

 

O grande e bom Carlo Maria Martini, teólogo, biblista, pastor e cardeal por muitos anos de Milão, um bispo realmente progressista, na inauguração da Cátedra dos Não-Crentes”, em 1987 dizia: “Eu acredito que cada um de nós tem dentro de si um incrédulo e um crente, que falam um com  o outro, que se questionam, que continuamente enviam perguntas pungentes e perturbadoras um ao outro. O não-crente que está em mim perturba o crente que está em mim e vice-versa. A apropriação deste diálogo interior é importante, pois permite a cada um crescer na autoconsciência”.

 

Onde está Deus? Amado irmão e irmã, companheira e companheiro, o Cristianismo tem a honestidade de não ter uma explicação. Estamos diante do mistério de Deus, do mistério da mulher e do homem e do mistério dos cosmos. E o mistério não podemos agarrá-lo, escapa-nos das mãos.

 

Porém, o Cristianismo tem algo maior do que toda e qualquer explicação. Não se assuste! Deus é o primeiro escandalizado com o escândalo do mal, aquele que mais sofre. Deus sofre com a gente e muito mais do que a gente com o mal que devasta o mundo: a fome, as guerras, as catástrofes, as doenças, o sofrimento e morte de inocentes, o mal moral causado pela maldade humana. Ele não é um espectador desinteressado e distante, desligado assistindo indiferente o drama, a tragédia e a comédia da existência humana e da criação.  Ele sofre por nós, conosco e em nós. Mais, Deus sofre em si mesmo.

 

Ele sofre por nós, quando por nós e para nossa salvação assumiu nossa carne de agonia e de prazer, de vida e de morte, ressuscitando depois para dar sentido a nossa totalidade psicossomático e espiritual. Ele sofre conosco chorando nossas lágrimas em solidariedade e consolo.

 

Ele sofre em nós, no mais íntimo, ou no outro, quando bem disse: “ Eu tive fome, sede... Eu estive doente, preso, estrangeiro...” (Mt 25,35). Deus sofre em cada pessoa que sofre suas angústias independente de sua classe social, sofre no sofrimento da exploração econômica, social, política promovido por um uma cartilha  perversa exclusivista e excludente. Deus sofre na Criação explorada e devastada por esse mesmo modelo contra a Deus, contra a Humanidade e contra a Ecologia.

 

Deus sofre e nos convoca a acabar com esse sofrimento ou, ao menos amenizá-lo, através do nosso compromisso e engajamento que neste momento, mais do que nunca tem duas frentes. Uma emergencial, para os doentes e os que passam fome. Outra, estruturante, na construção de uma justiça Ecosocial que promova uma sociedade fraterna, pacífica e feliz. Isto mesmo, feliz.

 

Precisamos voltar a sorrir de novo. Nestes tempos de pandemia e pandemônios suplicamos Àquele que sofre conosco que venha com sua presença ficar bem no meio e dentro de nós.

 

Concluo com uma mística, um momento de espiritualidade.

Ó Deus, renove em nós a esperança, o sonho e a utopia, a teimosia, a poesia. Deus, renove em nós a força, a garra, a coragem e a energia. Deus, renove em nós a alegria, a felicidade, o júbilo, o contentamento, a delícia, o gozo, o prazer, a arte, a música e a dança. Nós precisamos cantar e dançar! Deus, renove em nós a saúde física, psíquica e espiritual restaurando  o corpo, a alma e o espírito de todas e todos, de cada um e cada uma. Deus, renove em nós aquela sua benção que nos guarda, protege e defende de todos os perigos visíveis e invisíveis. Deus, renova em nós a paz, calma, serenidade, tranquilidade, suavidade, mansidão e leveza. O seu nome, ó Deus, é Deus-conosco, o Emanuel, que chora nossas lágrimas e sorrir nossos sorrisos. Fica conosco e em nós!

 

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

 

 

quarta-feira, 17 de março de 2021

"ONDE ESTÃO OS JOVENS? EM TEMPOS DE CORONAVIRUS" (2)

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(17/03/2021)

 

     Sempre apreciei uma certa alegoria sobre a temática do amor, que tem como protagonista um jovem apaixonado. Um dia ele decidiu visitar a sua bem-amada e, para isso, caminhou léguas e léguas floresta a dentro, até chegar onde ela morava e bater  à porta. - Quem é? Perguntou uma voz vinda de dentro da casa. - Sou eu, respondeu ele. E a voz replicou - não te conheço. E a porta não se abriu.

 

     Intrigado com esta reação, o rapaz retornou pelo mesmo caminho e, durante meses, demorou-se a refletir sobre o seu significado. Por fim, julgou ter desvendado o segredo e aventurou-se em repetir a jornada. Da mesma voz escutou a pergunta  - quem é? E respondeu de imediato - sou tu, meu amor. E a porta se abriu, e foram felizes para sempre.

 

     É típica de um coração jovem esta total e imediata simbiose do eu com o tu, do sujeito com o  objeto da paixão. À medida em que se vai amadurecendo, vão emergindo as diferenças individuais e os parceiros do amor descobrem que essa utopia de "um só corpo e uma só alma" tem que ser construída ao longo de toda a vida, sem prazo de validade, através mais das diferenças e menos das convergências. Coração e razão se aliam para mudar os arroubos da paixão em consistências do amor.

 

     A despeito de parecer  apenas fruto da imaturidade, estes ímpetos juvenis não são estéreis, não são inúteis, eles tem o poder de fecundar e acionar o processo de renovação do desenvolvimento humano. É melhor comprovar esta verdade por meio de acontecimentos reais do que por especulações teóricas.

 

     Um fato incontestável é que tanto os poderes constituídos quanto os movimentos revolucionários procuram cooptar as paixões juvenis para seus interesses.  Quem são os escolhidos por grupos extremados para virar "homens bombas" ("mulheres bombas") em atentados terroristas? - São jovens na sua grande maioria.

    Por outra parte, quem é que manda o maior contingente de participantes, os mais dinâmicos e criativos, para os encontros do Forum Internacional, que se sucedem, desde décadas e tem como bandeira de frente o slogan "Um Outro Mundo É Possivel"? - É a juventude, a juventude, sempre de novo a juventude.

 

     Daí a indagação dos que viveram, de olhos abertos, as décadas de 60, 70, 80, neste país: onde anda aquela multidão de jovens que ocupavam ruas e praças em protesto contra um mundo que teria de ser um outro, mais humano? - muitos preferiram apagar a memória do seu passado. Outros viram definhar seus sonhos sob a pressão de cansaço e

 desilusões. Sem contar o grande número dos que foram anestesiados pelas seduções do Mercado e tiveram seus sonhos reduzidos a objetos de consumo.

 

    Uma parte deles, no entanto, ultrapassou-se e prossegue na luta, com novo ardor fundado  na Fé, seja de ordem religiosa, seja de outra ordem superior, transcendental. Por isso não consideram a História humana como um dado simplesmente lógico, técnico, racional, e sim como um Reino onde irrompem muitas vezes o inesperado, o imprevisível, surpresas inimagináveis, intervenções divinas. Estes aprenderam a "esperar contra toda esperança." E acabam convertendo-se em um marco reinicial de grandes mudanças históricas. O famoso filósofo dinamarquês Kierkegaard chama esta utopia de "paixão pelo possível". Os jovens daquela época mudaram esta legenda para outra mais apaixonante: "seja realista, exija o impossível."

 

     Estes precedentes nos estimulam a responder: os jovens  estão em alguma parte, em toda parte, à espreita de um novo momento. Precisamos crer nisso, sob pena de não termos mais no que crer, pois neles está o futuro.

Cabe-nos abrir caminhos para que eles se aventurem como protagonistas de mudanças radicais; oferecer-lhes objetivos maiores do que o mero gozo de bens supérfluos, o mero clarão dos holofotes midiáticos, o mero sucesso profissional, descompromissado de outras Causas nobres. Ou o mero e medíocre "bom comportamento"

 

     Enquanto isso, deixemos que eles escutem a voz de um jovem ancião, claudicando de uma perna, mas energizando a juventude do mundo com palavras candentes:

"Queridos jovens, eu peço que vocês sejam revolucionários". "Ficarei feliz vendo vocês correrem mais rápido do que as pessoas lentas e medrosas. Corram atraídos por aquele Rosto tão amável que adoramos na Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre. Precisamos de suas intuições, de sua fé e de seus impulsos. E quando vocês chegarem aonde ainda não chegamos, tenham paciência de esperar por nós" (Papa Francisco, homilia aos jovens, no Rio de Janeiro e  Exortação Apostólica "Cristo Vive")

sábado, 13 de março de 2021

ONDE ESTÃO OS JOVENS? - EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(12/03/2021)

 

     O assunto juventude voltou a ser destaque com a má notícia de que a nova variante do coronavírus já não faz distinção de faixa etária, e isso agrava a crise de leitos, uma vez que os jovens, sendo mais resistentes ao vírus, ocuparão por mais tempo as UTIs.

     À parte isso, a pergunta feita acima é redundante. Não dá para imaginar um só momento da História em que ela não se faça ouvir em muitas vozes e muitos lugares: onde estão os jovens? Por trás dela se esconde a idéia de que a juventude é o termômetro da sociedade. Quando os jovens estão fervendo, a sociedade está quente. Quando eles esquentam, a sociedade está morna. Quando eles esfriam, a sociedade congela.

     Daí a curiosidade de indagar: a que nível de temperatura estamos nesta situação crítica que hoje atravessamos? 

     Antes de ter início a pandemia, ao participar dos movimentos de rua, em defesa da democracia e dos direitos humanos, eu me surpreendia, não poucas vezes, com o grande número de jovens ali presentes. Contudo, esta visibilidade diluída na multidão, não caracteriza a juventude. Onde os jovens estiverem, se não forem os protagonistas, ou não assumirem uma tarefa em que possam exercer o seu protagonismo, eles perdem identidade, não provam a que vieram.

     É interessante observar um detalhe nos quatro Evangelhos. Raríssimas vezes os seus autores registram a faixa etária dos personagens. Quando isso acontece, a referência é a figura de um jovem. Deu-se o caso de um deles que se aproximou de Jesus cheio de vibrações: "Mestre, eu te seguirei, onde quer que fores!" Jesus não deixou por menos: "As raposas têm suas covas, os pássaros os seus ninhos, mas eu não tenho sequer onde repousar a cabeça" Mt. 8,20. É como se dissesse: se você procura alguma vantagem pessoal, passe adiante; só tenho a oferecer minha Palavra. Seguir-me é confiar e lançar-se!

     Com isso Jesus sugere que é justamente desse tipo de gente que Ele estava precisando: aventureiros, não presos às tradições, apreciadores de propostas ousadas. Este cenário se reproduz em todas as épocas. Há sempre um jovem, em alguma encruzilhada do mundo, buscando a chance de realizar um sonho, uma utopia, uma aventura, uma loucura. E é a partir desta matéria prima que a História tem produzido heróis e heroínas, revolucionários, santos e santas. S. Francisco tinha 24 anos quando abriu o Evangelho, leu um texto e disse "é isso que eu procuro, é isso que eu quero, é isso que farei de todo coração". Algum tempo depois, ele acrescentará "O Senhor me chamou pra ser um novo louco no mundo".

     Se eu falasse neste momento para uma plateia constituída só de jovens , a minha primeira pergunta seria esta: o que é feito de seus sonhos? Seu sonho é você e sua possibilidade. Por isso ele é maior do que você. E mais bonito. É ele que o torna uma pessoa apaixonada. Sem paixão um jovem torna-se irreconhecível. Uma caricatura. A paixão é que o leva a sentir, pensar, decidir e entregar-se por inteiro. Já o sonho constitui um desejo sem medida, sem peso, sem preço e sem limite. Um sentimento que ultrapassa a fronteira da normalidade e se aproxima da loucura. Por isso os grandes santos e revolucionários   sempre foram chamados de loucos pelos seus contemporâneos.

     Os poderes ditatoriais, em todos os tempos, tentam arrebanhar os jovens para seu serviço. Em nosso país atualmente, isso não acontece por incompetência dos comandantes. Mas Hitler o conseguiu porque seus assessores eram gênios da maldade. Outros são gênios da mediocridade.

     Talvez algum jovem me diria: "a realidade é insuportável, ela não abre nenhuma brecha para entrarmos com nossos sonhos". Talvez um adulto acrescentaria: "o modelo social dominante, comandado pelo Mercado e a Sociedade de Consumo tem os jovens como seus melhores clientes e é perito em seduzi-los. Não lhes rouba os sonhos, mas muda-os de sonhos idealistas para sonhos consumistas. Poucos escapam."

     Como convencer um jovem de que ele é maior do que a realidade porque possui a consciência dela e o poder de transformá-la?

 

     Chegamos a um impasse, e não podemos concluir, neste ponto, este pretensioso diálogo. Enquanto esperamos o próximo capítulo, meditemos sobre estas palavras do jovem Jesus de Nazaré: "Eu vim ao mundo trazer fogo e o que quero é que este fogo acenda" Lc.12,49.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

ONDE O PAPA FRANCISCO E SÃO PAULO SE ENCONTRAM.


por Eduardo Hoornaert



Entre as não poucas surpresas que o Papa Francisco causa, há uma que merece particular atenção: sua aproximação com as ideias do apóstolo Paulo. Embora o atual papa não costume citar São Paulo, vale a pena prestar atenção ao fato que ambos militam a favor dos imigrantes. Na sua Carta aos Romanos, Paulo abre perspectivas de vida ao imigrantes orientais em Roma, assim como Papa Francisco se empenha a criar espaços de vida aos imigrantes na Europa de hoje. É nesse sentido que apresento a Carta aos Romanos neste trabalho. Você verá sem dificuldade que os pontos de comparação com as situações que hoje, tais quais são denunciadas pelo atual papa, assim também com as iniciativas no sentido de remediar a essas situações, são impressionantes.

Roma, uma cidade de imigrantes.

No tempo do surgimento do cristianismo, Roma é uma encruzilhada de povos. O bispo Irineu, no século II, escreve acertadamente: ‘para lá tudo converge’. Cidade de perto de um milhão de habitantes (um número enorme para a época), a Capital do Império é o local para onde se dirigem imigrantes, principalmente provenientes das províncias orientais, em busca de trabalho. Em Roma se fala grego, uma língua adotada pelos que vêm da Síria, da Ásia Menor, da Capadócia, do Egito e dos diversos países em torno do Mar Mediterrâneo. Pois o grego de Roma é como o inglês hoje: uma língua mal falada (a ‘koinè’), mas que possibilita a comunicação entre as ‘nações’. Só na administração, no exército e entre os imigrantes provenientes da África se fala latim.

A influência de Roma sobre esses povos das províncias nunca foi construtiva, como nos lembra o historiador inglês Toynbee. Roma nunca apresentou ideias realmente novas, nunca teve carisma, sempre manipulou, dominou, imperou. A verdadeira vida cultural e espiritual provém das cidades-estados do Oriente, como Atenas, Antioquia, Alexandria, Éfeso, Corinto, Esparta, etc. Cidades helenizadas, decerto, mas onde pulsa a vida dos povos originários. Roma apenas traz o patriarcalismo (patria potestas; pater familias), a ‘Paz Romana’ (a paz como ordem imposta, tranquilidade dos submissos, sob o jugo dos poderosos) e o famoso ‘Direito Romano’, indispensável para que a Paz Romana possa funcionar. Um direito não baseado na democracia grega, mas de caráter corporativista, patriarcal e autoritário.

Entre o luxo e o lixo.

A sociedade romana, sem classes no sentido atual da palavra, funciona através do‘apadrinhamento’. Para sobreviver, é preciso ter um ‘padrinho’, do qual se espera receber favores. O próprio estado romano é um grande e beneficente padrinho, que escolhe seus apadrinhados. O número fechado dos que são beneficiados em Roma com distribuições gratuitas de ‘pão e circo’ (‘panem et circenses’) é restrito a não mais de 200.000 pessoas, ou seja, 20 % da população da megacidade. Os demais são os chamados ‘humildes’: escravos, libertos, infames (pessoas sobre as quais não convém falar em ambientes bem-educados, como gladiadores, bestiários, dançarinos, cantores, prostitutas, mulheres, crianças), cardadores (que cardam a lã e o linho), sapateiros, pisoeiros (que trabalham nos moinhos de pisoar os panos e os couros), carpinteiros, os que estão no curtume. 

Eles vivem nas estreitas e fedorentas ‘insulae’ (favelas) da grande cidade.  Pois, como se diz, para viver em Roma é preciso abrir os olhos (para contemplar os esplendores de templos e palácios) e tapar o nariz (para poder suportar o fedor). É preciso, sobretudo, reprimir o sentimento do coração ao ver o abandono em que vive a imensa maioria. Roma vive entre o luxo e o lixo. Para gostar de Roma, é preciso manter o coração insensível diante dos sofrimentos do ‘povo profano e vulgar’ e não interferir nos mecanismos que fazer funcionar a sociedade: dinheiros públicos drenados para mãos privadas, ganhos oficiais investidos em grandes propriedades de terra, a taxação regressiva, que cai com enorme peso sobre os ombros dos artesãos, comerciantes e agricultores, enquanto os ricos praticamente não pagam impostos.

O movimento de Jesus em Roma.

O cristianismo emergente é um dos ingredientes do ‘caldeirão romano’, um conglomerado de diversas correntes (chamadas em grego ‘heresias’) que se formam em torno de mestres apreciados. Nas décadas 130-160, por exemplo, em Roma convivem seguidores de Valentino, que vem do Egito, de Marcião, proveniente da Capadócia, de Taciano da Mesopotâmia e de Justino da Palestina. Ireneu é de Esmirna e é em Roma que Tertuliano, o africano, encontra o montanismo, um movimento proveniente da Frígia.

Não podemos perder de vista que, em Roma, esses militantes das diversas correntes do movimento de Jesus vivem todos ‘em paróquia’, um termo grego que indica os que vivem sem casa, na rua, entregues à própria sorte. A reação do movimento cristão diante da ‘paróquia’ é explicada pelo historiador J. H. Elliott em seu livro ‘Um Lar para quem não tem Casa, Interpretação sociológica da Primeira Carta de Pedro’ (Edições Paulinas, São Paulo, 1985). Naquela carta, atribuída a Pedro, se explica como os seguidores de Jesus vivem seu ‘tempo de paróquia' (1Pd 1, 17), fora de sua pátria, sem cidadania romana (2, 11), sem estabilidade, sem segurança. 

 Para essas pessoas, o movimento procura antes de tudo criar um ‘lar’, um abrigo social, um apoio emocional, uma nova cidadania, um recanto de paz e fraternidade no meio da cidade cruel, uma ‘casa de Deus para quem não tem casa’ (2, 11 comparado com 2, 18): Deus oferece sua casa aos que não têm casa (2, 5 e 4,17). Os que são forçados a viver como ‘domésticos’ (2, 18) em famílias bem situadas, encontram na comunidade cristã um aconchego. Ali se sentem em casa, à vontade. A Carta recomenda: ‘aproveitem do tempo de sua paróquia para levar uma vida exemplar no meio dos que não conhecem a Deus’ (2, 12). Esse modelo ‘paroquiano’ não só funciona em Roma, mas igualmente em Corinto (Carta de Clemente), na Síria (Didaqué e Carta de Tiago), na região do Mar Egeu (Carta a Timóteo), em Alexandria (Carta de Barnabé), em diferentes cidades da Ásia Menor (Cartas de Inácio de Antioquia).

A Carta aos Romanos.

É dentro desse contexto imigrante que se situa a Carta aos Romanos (doravante Rm). Ao longo da história, grandes inteligências se debruçaram sobre essa Carta e a interpretaram sob diversos ângulos, sem dar a devida atenção à realidade da imigração dentro da qual se situa a Carta. Assim, Agostinho (século V) vê na Carta uma confirmação de sua doutrina do pecado original (Rm 5), Anselmo de Cantuária (século XI) enxerga nela a doutrina do sacrifício de Cristo em benefício de toda a humanidade (Rm 3, 21-26), enquanto Lutero (século XVI) nela se baseia para afirmar que ‘o justo se justifica pela fé’ (Rm 1, 17) e combater uma igreja baseada em indulgências, romarias e devoções.

Não podemos dizer que essas leituras históricas devem ser descartadas, mas é bom ficar atento ao fato que elas, em sua maioria, são baseadas numa leitura ‘fora do contexto’. Retira-se uma frase, por vezes uma expressão ou mesmo uma palavra, e com isso se procura enfocar um determinado problema contemporâneo do comentarista, sem prestar a devida atenção à intencionalidade própria do autor de Rm. Vale, então, se colocar a pergunta: como Paulo chegou à ideia de escrever os núcleos do movimento de Jesus existentes em Roma? Qual o ímpeto que o leva a escrever um texto tão impactante? Qual a ideia que o impulsiona?

Paulo é informado acerca da situação do movimento em Roma.

No ano 54, residindo em Corinto, Paulo se prepara para viajar à Espanha, e pensa passar por Roma onde pretende visitar as comunidades que ali conseguiram se formar. Nisso, recebe a visita de um casal, Aquilas e Prisca, que acaba de chegar de Roma e traz as últimas notícias (Rm 16, 3-4). A conversa lhe rende muito, pois o casal informa acerca da política do jovem Imperador Nero em relação aos judeus que, alguns anos antes, tinham sido banidos da cidade de Roma por seu padrasto Claudio. Parece que o novo Imperador quer sinalizar que Roma acolhe sem distinção todas as ‘nações’ (leia: os imigrantes). Contudo, acrescentam Aquilas e Prisca, o gesto do novo Imperador não vem acompanhado de nenhum programa social que facilite a integração desses pobres e desamparados, que afluem em grande número à capital.

 Abandonados à própria sorte, eles vagam por ruas e alamedas, arranjam-se em praças públicas e cometem furtos para sobreviver. Então as forças de repressão entram em campo e reprimem os imigrantes do Oriente, sob os aplausos dos habitantes bem situados.
Essa situação, dizem Aquilas e Prisca, atinge em cheio a congregação de militantes do movimento de Jesus que conseguiu se estabelecer em Roma. Os arranjos de Nero, ao mesmo tempo em que facilitam o afluxo de imigrantes judeus na congregação de Jesus, aumentam nela determinadas tensões internas já existentes. Acirra-se o tradicional desentendimento entre três segmentos de militantes no movimento: judeus que falam aramaico, judeus que se expressam em grego (chamados ‘helenistas’) e não judeus, chamados ‘gregos’ ou ‘gentios’. Por causa de suas experiências no Oriente, Paulo entende perfeitamente essa problemática e percebe, com pesar, que um problema que afeta desde muito o movimento no Mediterrâneo oriental, na Síria e na Ásia, agora se manifesta em Roma também. É um problema endêmico do mundo de imigrantes.

Paulo toma posição.

As informações fornecidas por Aquilas e Prisca reforçam em Paulo a convicção que o movimento de Jesus está assentado em premissas diametralmente opostas aos planos e arranjos da administração do Império Romano. Essa administração pretende difundir a Paz Romana, enquanto o movimento propugna o ‘universalismo das nações’. O impressionante consiste no fato que um cidadão romano (Paulo de Tarso) se projeta, na Carta aos Romanos, como líder anti-romano, ou seja, opositor da ideia da Paz Romana, do Direito Romano, do patriarcalismo romano. Ele entende perfeitamente aonde a administração romana quer chegar quando chama os agrupamentos esparsos de imigrantes em Roma indiscriminadamente pelo termo genérico ‘nações’ (gentios). Gregos, frígios, macedônios, gálatas, capadócios, judeus etc., todos são tratados como sendo parte de ‘nações’ a serem assimiladas pela política unificadora da Paz Romana.

Pois o relacionamento do Estado Romano com esses segmentos da sociedade é basicamente de ordem repressiva. Paulo sabe como vivem as diversas ‘nações’ numa metrópole como Antioquia. Ele compreende que as coisas se passam mais ou menos da mesma forma em Roma. Ele sabe que todas essas ‘nações’ enfrentam basicamente os mesmos problemas, compartilham os mesmos sofrimentos e esperanças. Todas elas vivem ‘em exilio’ (em ‘paróquia’: Rm 15, 18), muitas vezes sem teto, sem amparo por parte das autoridades e sem segurança. Os imigrantes são normalmente escravos ou servidores subalternos. Paulo compreende que o mais importante, para abrir um horizonte de vida para essas populações sofredoras, consiste em dar às ‘nações’ um senso de coesão, por cima das diferenças. Para Paulo, trata-se de estabelecer um relacionamento dinâmico com o universo dos imigrantes, judeus e não judeus. Nada de discutir assuntos que possam dividir os grupos entre si, nada no sentido de insistir em diferenças entre línguas, religiões, usos e costumes, nada no sentido de defender um segmento (os judeus, por exemplo), em detrimento de outro. Para Paulo, defender ‘as nações’ significa dinamizar a coesão entre todos os grupos de imigrantes. O povo de Deus não é etnia, religião ou língua. É a união existente entre os mais diversos grupos étnicos, linguísticos e religiosos.

A (oculta) linguagem irônica da Carta aos Romanos.

Paulo não pode falar em termos explícitos do plano que tem em mente, já que a oficialidade romana exerce um controle contínuo sobre o universo dos imigrantes. Ele opta por tomar de empréstimo, dando-lhes um discreto toque irônico, terminologias costumeiras do linguajar palaciano imperial. Ele fala em ‘Jesus Cristo Nosso Senhor’, uma expressão palaciana que insinua o seguinte: Jesus é o verdadeiro Senhor das nações, não Nero. A recomendação no sentido de ‘obedecer ao Nosso Senhor Jesus, Ungido, Filho de Deus, nosso Pai’ (Rm 15, 18) deixa entender algo assim: ‘não obedeçam ao Senhor Nero, Filho de Deus, Pai das nações’. ‘Olhar para Jesus’ é o mesmo que ‘não olhar para o Imperador’. 

Esse modo de interpretar formulações clássicas do linguajar cristão não nos é costumeiro e pode parecer estranho. Mas é acompanhar o que se escreve hoje sobre esse particular, principalmente entre autores norte-americanos, que interpretam Rm a partir da estratégia seguida por militantes de Jesus dentro de grandes cidades do Império Romano. Se você quiser saber mais sobre esse tema, leia, por exemplo:  Crossan, J.D. & Reed, J.L., Em Busca de Paulo. Como o apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Império Romano, Paulinas, São Paulo, 2007, ou ainda: Horsley, R.A., Paulo e o Império, Paulus, São Paulo, 2004.

O universalismo militante.

Numa frase memorável da Carta aos Gálatas, Paulo expressa de forma lapidar o que, em sua opinião, tem de ser o comportamento entre as ‘nações’:

Não há judeu ou grego,
senhor ou escravo,
homem ou mulher,
somos todos unidos em Jesus, o Ungido (Gl 3, 28).

A frase é de grande ousadia. Numa sociedade em que pessoas do sexo masculino têm a seu serviço um ou mais escravos e ‘governam’ as suas mulheres, falar em ‘grego, mulher, escravo’ é coisa ousada. É confrontar o ‘forte’ (judeu, macho, senhor) com o ‘fraco’ (grego, mulher, escravo). Gerd Theissen aprofundou esse tema num texto intitulado ‘Os Fortes e os Fracos em Corinto’ (Theissen, G., Sociologia da Cristandade primitiva, Ed. Sinodal, São Leopoldo, 1987, 133-147). Ali se vê que o universalismo de Paulo é um universalismo ‘desordenado’ (a expressão é do filósofo esloveno Slavoj Zizek), ou seja, irreconciliável com os ordenamentos da sociedade estabelecida. Um universalismo militante.

É fazendo esse tipo de considerações que descobrimos o tema central da Carta aos Romanos. Ele vai enunciado bem no início da carta, precisamente no versículo 16 do primeiro capítulo:

Não tenho vergonha da mensagem:
Poder de Deus que intenciona a salvação de todos que lhe dão fé
O judeu em primeiro lugar, mas o grego também.

Eis o ponto: equiparar judeu e grego, grego e bárbaro (Rm 1, 14), sábio e ignorante, com Lei ou sem Lei, circunciso ou incircunciso, observador ou não do sábado, frequentador ou não do Templo. Equiparar todos que ‘vivem na fidelidade’ (Rm 1, 17). Eis o leitmotiv, a ideia que impulsiona. Quem lê Rm atentamente percebe que os trechos, tão diversificados entre si, em forma de espiral, de diálogo ou de desabafo, na realidade giram todos em torno da questão do universalismo militante. Foi isso que o filósofo francês Alain Badiou nos lembrou em 1997 ao escrever seu livro ‘Saint Paul, La Fondation de l’Universalisme’ (Presses Universitaires de France, Paris, 1997).

É a reconciliação (Rm 5, 1-11): todas as nações são chamadas por Deus. Mas cada uma a seu modo. Há o modo judeu, que opera por meio da circuncisão, da Lei, do sábado e do kashkrut, mas há igualmente o modo grego, ou seja, dos mais diversos povos que compõem a população metropolitana, que opera segundo ditames cultuais e culturais próprios. Cada povo segue a ‘fidelidade’ por meio de ritos apropriados à sua cultura. Deus não rejeita cultos e culturas, ele rejeita ‘a injustiça dos homens que mantêm a verdade prisioneira da injustiça’ (Rm 1, 18).

A ‘desconsideração’.

Podemos concluir chamando a atenção para um aspecto importante do ecumenismo de Paulo, Ele recomenda uma postura de ‘desconsideração’ em relação ao que eventualmente possa opor ‘nação’ contra ‘nação’ em termos de raça, religião, nacionalidade, gênero, posição social ou mentalidade. Para Paulo, não adianta discutir esses pontos. Ele não trata de ritos, dietas, observância de dias santos, pureza cerimonial, correta execução de atos litúrgicos, diferentes confissões religiosas, opções sexuais. São assuntos vivamente discutidos na época, mas Paulo não lhes dá importância: ‘a circuncisão não é nada, o prepúcio não interessa’ (1Cor 7, 18). 

Quando lhe perguntam se os ‘goim’ (‘gente de fora’, os que não são ‘filhos da Aliança’, termo traduzido em português por ‘gentios’) devem ser circuncidados para aderir ao movimento de Jesus, ele responde categoricamente: ‘não’. O movimento tanto comporta circuncisos como incircuncisos. Um seguidor de Jesus trata da mesma forma quem pertence ao ‘am berit’ (povo eleito) e quem é ‘goi’, ou seja, não é ‘filho de Abraão’. ‘O Ungido derrubou o muro’ (entre as nações); ‘não é a circuncisão ou a não circuncisão que tem importância, mas o ser na nova criação’ (Gl 6, 15-16). Quem é da ‘nova criação’ desconsidera discussões legalistas, rituais, litúrgicas, religiosas. Discussões que não levam a nada e só servem para opor entre si pessoas, nações, culturas. 

O dom inestimável do Papa Francisco.

Fiz as considerações acima, em torno da Carta aos Romanos, para mostrar que em muitos pontos as posturas de São Paulo combinam com os posicionamentos do Papa Francisco. O papa faz um elo por cima de um arco de dois mil anos, ele recorre diretamente á primeira tradição cristã e penso que é nesse sentido que ele é, para o mundo de hoje (não só para a igreja católica), um ‘dom inestimável’, como escreve o filósofo polonês Zygmunt Bauman, falecido no mês de janeiro 2017.

Não posso deixar de citar aqui alguns parágrafos de um pequeno artigo que Bauman escreveu a respeito do papa, e que, assim penso, combinam bem com o que escrevi acima acerca da comparação entre o papa atual e São Paulo:

‘Entre os personagens hoje dotados de autoridade em nível mundial, somente Jorge Mario Bergoglio compreendeu e definiu claramente as prioridades a serem enfrentadas: 

- recordar a importância da arte do diálogo, que nunca aprendemos o suficiente e que, neste momento, parece esquecida: uma conversa que leva a considerar os pontos de vista, os valores e as prioridades diferentes das nossas; uma conversa que não visa a derrotar, humilhar ou ridicularizar um adversário, mas guiada pela empatia e voltada à compreensão recíproca, capaz de elaborar um ‘modus convivendi’ e uma verdadeira solidariedade comum no trabalho conjunto para tornar o mundo mais hospitaleiro para a bondade, a justiça, a misericórdia e o amor;

- lutar contra a desigualdade galopante e profunda, contra a pobreza e o sofrimento e a humilhação que provoca, junto com a rejeição ou a falta de respeito pela dignidade humana e, portanto, também contra as suas causas: avidez, cegueira moral, indiferença à dor dos outros seres humanos, acompanhada por autorreferencialidade de interesses, intenções e ações;
 
- inserir esses e outros problemas de gravidade semelhante nos currículos das escolas de todos os níveis, do mais baixo ao mais alto; Francisco confiou à educação a tarefa de fazer renascer os critérios morais perdidos e restaurar vitalidade aos valores espirituais para levá-los de volta à magnificência e à eminência corroídas por um materialismo sem limites, por um consumismos desenfreado e por uma busca de lucro continua e desonesta. Desse modo, ele nos convidou para nos prepararmos para uma luta longa e difícil; na educação, não há soluções rápidas, atalhos, resultados imediatos. Como nos adverte e nos ensina o antigo provérbio chinês: “Se os seus projetos forem para um ano, semeie grão; se os seus projetos forem para dez anos, plante árvores; se os seus projetos forem para cem anos, eduque as pessoas’ (veja IHU, Unisinos, São Leopoldo).

  Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/

sexta-feira, 1 de julho de 2016

PARA ONDE VAMOS? IMPASSES DA ATUAL CRISE BRASILEIRA


Por Leonardo Boff



A atual crise brasileira, talvez a mais profunda de nossa história, está pondo em xeque o sentido de nosso futuro e o tipo de Brasil queremos construir.

Celso Furtado com frequência afirmava que nunca conseguimos realizar nossa autoconstrução, porque forças poderosas internas e externas ou articuladas entre si sempre o tinham e têm impedido.

Efetivamente, aqui se formou um bloco coeso, fortemente solidificado, constituído por um capitalismo que nunca foi civilizado (manteve a sua voracidade manchesteriana das origens), financeiro e rentista, associado ao empresariado conservador e antissocial e ao latifúndio voraz que não teme avançar sobre as terras do donos originários de nosso país, os indígenas e de acréscimo as dos quilombolas. Estes sempre frustraram qualquer reforma política e agrária, de sorte que hoje 83% da população vive nas cidades (bem dizendo, nas periferias miseráveis), pois esta sentia-se deslocada e expulsa do campo. Estas elites altamente endinheiradas se associaram a poucas famílias que controlam os meios de comunicação ou são donos delas.

Esse bloco histórico será difícil de ser desmontado, uma vez que o tempo das revoluções já passou. As poucas mudanças de orientação popular e social introduzidas pelos governos do PT estão sendo bombardeadas com os canhões mais poderosos. Os herdeiros da Casa Grande e o grupo do privilégio estão voltando e impondo seu projeto de Brasil.

Para sermos sucintos e irmos logo ao ponto central, trata-se do enfrentamento de duas visões de Brasil.

A primeira: ou nos submetemos à lógica imperial, que nos quer sócios incorporados e subalternos, numa espécie de intencionada recolonizarão, obrigando-nos a ser apenas fornecedores dos produtos in natura(commodities, grãos, minério, água virtual etc.) que eles pouco possuem e dos quais precisam urgentemente.

A segunda: ou continuamos teimosamente com a vontade de reinventar o Brasil, com um projeto sobre bases novas, sustentado por nossa rica cultura, nossas riquezas naturais (extremamente importantes após a constatação dos limites da Terra e do aquecimento crescente), capaz de aportar elementos importantes para o devenir futuro da humanidade globalizada.

Esta segunda alternativa realizaria o sonho maior dos que pensaram um Brasil verdadeiramente independente, desde Joaquim Nabuco, Florestán Fernandes, Caio Prado Jr e Darcy Ribeiro até Luiz Gonzaga de Souza Lima num livro que até agora não mereceu a devida apreciação e atenção (“A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada”, RiMA, São Carlos, SP 2011) e da maioria dos movimentos sociais de cunho libertário.

Estes sempre projetaram uma nação autônoma e soberana mas aberta ao mundo inteiro.

A primeira alternativa que agora volta triunfante sob o presidente interino Mchel Temer e seu ministro das relações exteriores José Serra, prevê um Brasil que se rende resignadamente ao mais forte, bem dentro da lógica hegeliana do senhor e do servo. Em troca recebe imensas vantagens, beneficiando especialmente os endinheirados (Jessé Souza) e os seus controlados.

Estes nunca se interessaram pelas grandes maiorias de negros e de pobres que eles desprezam, considerando-os peso morto de nossa história. Nunca apoiaram seus movimentos. E quando podem, os rebaixam, difamam suas práticas e com o apoio de fortes setores do parlamento do  por eles controlado, os criminalizam.

Eles contam com o apoio dos USA, como o nosso maior analista de política internacional Moniz Bandeira, em sucessivas entrevistas, tem chamado atenção, pois não aceitam a emergência de um potência independente  nos trópicos.

Donde nos poderá vir uma saída? De cima não poderá vir nada de verdadeiramente transformador. Estou convencido de que ela só poderá vir de baixo, dos movimentos sociais articulados, de outros movimentos interessados em mudanças estruturais, de setores de partidos vinculados à causa popular. O dia em que as comunidades favelizadas se conscientizarem e projetarem um outro destino para si e para o Brasil, haverá a grande transformação, palavra que hoje substitui a de revolução. As cidades estremecerão.

Ai sim poderão os poderosos serem alijado de seus tronos, como dizem as Escrituras, o povo ganhará centralidade e o Brasil terá sua merecida independência.

Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil e escritor.