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terça-feira, 6 de abril de 2021

PÁSCOA, INSURREIÇÃO E RESSURREIÇÃO

 Marcelo Barros


 

Quando, no Brasil, atingimos a marca de mais de doze milhões de pessoas que contraíram o coronavírus e a cada dia sobe descontroladamente o número de pessoas falecidas, não é fácil falar em esperança. Menos ainda, parece ter sentido em insistir em fazer festa. No entanto, a festa encerra em si mesma algo de terapêutico e profundamente humano que está no coração de todas as culturas. Mesmo em meio a todo sofrimento provocado por esta pandemia, há uma semana, as comunidades judaicas celebravam a festa da Páscoa. Nesta semana, são as Igrejas cristãs do Ocidente que entram no clima da festa pascal.  

Até hoje, nas comunidades judaicas, a Páscoa é chamada “Pezah zeman herutenu” : “a estação da nossa libertação”. O cristianismo fala de “festa da Ressurreição”. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. Na Páscoa judaica se recorda a noite na qual,  antigamente, o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus. Ser cristão/ã é testemunhar ao mundo a energia da ressurreição, atuante em Jesus e por seu Espírito, em todas as pessoas que o acolhem.

 Os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder. A sociedade dominante se mostra cada vez mais cruel e sem compaixão. Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente esta situação social, política e econômica que vivemos. Não transformará os corações empedernidos de quem promove ou apoia as desigualdades sociais e a injustiça estrutural sobre as quais a sociedade se baseia. Nada poderá eliminar a pandemia, nem transformar a realidade se aqueles que dominam a sociedade optam por salvar acima de tudo o comércio, mesmo à custa de milhares de vidas. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente. No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta mais asquerosa é chamada a uma mudança radical. Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação de todo ser humano para o caminho pascal da liberdade.

Na Bíblia, o termo ressurreição sempre aparece como sinônimo de levantamento. Ressuscitar é levantar para a vida e para a liberdade. O termo começou a ser usado para expressar a restauração da liberdade do povo. E Jesus o usou mas sempre para indicar a vida nova que o Pai lhe deu, mas também a energia divina para transformar o universo e renovar a vida de toda a humanidade.

O nosso saudoso mestre e profeta Pedro Casaldáliga dizia que a missão dos discípulos e discípulas de Jesus é espalhar ressurreição pelo mundo. Essa missão se realiza quando se opta por viver em comunidade como parábola de um mundo novo. Essa é a vocação das Igrejas cristãs: ensaiar uma nova forma de comunhão humana. No entanto, essa missão transcende as fronteiras e muros das Igrejas. Quem, durante esta pandemia, deixa sua zona de conforto e segurança e se arrisca a organizar a solidariedade às pessoas e comunidades mais vulneráveis testemunha a ressurreição. Quem luta pela democratização da água como bem comum da humanidade e de todos os seres vivos cultiva ressurreição. Quem luta contra a energia nuclear e defende o progresso humano com justiça e a partir dos mais vulneráveis semeia ressurreição. Quem no dia a dia refaz os pequenos gestos de carinho e cuida dos sinais de delicadeza entre as pessoas e com todos os seres vivos testemunha ressurreição.

Em cada atitude desta, é o próprio Jesus ressuscitado que se revela vivo entre nós. Mesmo com o corpo ferido e as chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33). 

        

 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

DANÇA DA RESSURREIÇÃO


por Pe Fábio Potiguar

Primavera. Tudo volta à vida.  As folhas povoam uma outra vez as árvores. Parece, para nós nordestinos do semi-árido, como as chuvas depois da estiagem prolongada.

 Tudo seco, a caatinga mais parece um graveto pronto para o fogo. Fora as algarobas, não existem folhas nas árvores, assim como nas árvores europeias no  inverno. A chuva chega, é o que parecia morta, realmente morta, se vê agora cheia de vida, cheia de folhas verdejantes, como as árvores do Velho Mundo com a despedida do inverno e a chegada da primavera. Por lá a Páscoa coincide  com esse novo nascimento das plantas, dos passarinhos e dos sentimentos humanos. A mesma mágica que o inverno – como chama o sertanejo o período das chuvas -  realiza nas gentes desse sertão nordestino. Imagine que crianças, jovens, velhos, homens e mulheres saem a gritar e a pular de alegria pelas ruas para tomar banho de chuva e de bica que descem dos telhados da casa. Ah, como fiz isso!

Morava na Itália e fui celebrar  o Tríduo Pascal num mosteiro de monjas na Toscana. Era primavera.  Tudo pronto no Sábado Santo a noite para Celebração da Vigília Pascal. Já vai dar meia-noite. A Missa será bonita e longa, nós iremos despertar o dia que está dormindo. “Este é o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos” ( Sl 117,24 ). Este “dia” é Cristo. Tudo pronto. A fogueira fora da Igreja, o grande Círio Pascal, as velas para cada um dos fiéis... e o coração. “Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração! Vou cantar e tocar para vós: desperta, minh’alma, desperta! Despertem a harpa e a lira, eu irei acordar a aurora!” (Sl 107,2-3).

Partilho agora com você, meu amigo-irmão leitor,  as palavras que dirigi naquela noites para as irmãs trapistas. Vamos então ao texto.

João Batista no seio de Isabel saltou de alegria ao escutar a palavra de Maria que carregava a Palavra,  o Verbo Encarnado. Também nós saltamos de alegria no seio da Igreja, onde fomos misteriosamente plasmados, ao escutar a palavra do Anjo a nos anunciar que o Verbo Encarnado, morto por nós, ressuscitou.

O ambão é símbolo do sepulcro aberto. O Anjo do Anúncio sou eu, sinto de novo asas em meus braços. O Evangelho é Jesus Ressuscitado.

A minha boca é a do anjo. “Por que procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Ele não está aqui, ressuscitou!” O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia, aleluia, aleluia!

Isto não é um discurso, discursos fica para os políticos. Não é uma teoria, teoria á química, física, matemática e coisas mais. Nem sequer uma doutrina religiosa, é vida viva. É vida, e o nosso coração arde como ardem as brasas daquele fogo, que é o Espírito Santo. O nosso ser é todo luz na Luz de Cristo. O Círio Pascal é Cristo Ressuscitado. As velas somos nós. Somos ressuscitados com Cristo. Deus não nos criou para a morte e o cemitério e sim para a vida e ressurreição.  Saltamos de alegria na poesia e na mágica desta noite. Cantamos e dançamos no seio desta igreja inebriados na música e na dança da ressurreição. Isto mesmo.  A Dança da Ressurreição. A Ressurreição baila dentro em mim.

No Princípio do Tempo por meio de seu Filho – a Palavra Criadora -  e por meio do seu Espírito – a Força Amorosa Criadora – Deus criou num processo evolutivo todas as coisa: o céu, a terra e o mar com tudo o que neles existe. Criou a mulher e o homem.
Na Plenitude do Tempo o Pai realiza uma Nova Criação por meio do seu Verbo Encarnado, Jesus Morto e Ressuscitado, na glória e poder do Espírito.

No batismo aconteceu o maior e mais belo evento em nossa existência. O  Pai, pelo Filho, nos dá o Espírito e o “próprio Espírito Santo se une ao nosso espírito” e, nós nos tornamos “um só ser com Cristo”. Assim, sacramentalmente fomos crucificados ( Rm 6,6 ), mortos ( Rm 6,8 ) e sepultados ( Rm 6,4 ) com Ele para a vida velha e, ressuscitados ( Cl 2,12 ) e assentados nos céus ( Ef 2,6 ) com Cristo para uma vida nova.

A Páscoa tem incidência na nossa totalidade de ser, existir e agir.  É  ôntico, existencial e moralmente que somos atingidos por esse mistério. O meu ser – aquilo que eu sou – é configurado a Cristo, em outras palavras: eu não estou ressuscitado com Cristo, eu sou ressuscitado com Ele. “Porque  se nos tornamos  um só ser com Cristo por uma morte semelhante à sua, seremos um só ser com Ele também por uma ressurreição semelhante à sua” ( Rm 6,5 ). Assim sendo, a minha existência é também  associada com a sorte de Cristo, minhas tristezas e alegrias são uma participação nos seus sofrimentos e na sua glória, “se com Cristo sofremos com ele reinaremos”( 2 Tm 2,12 ) ou ainda nas palavras do apóstolo Paulo: “Para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se eu alcanço a sua ressurreição de entre os mortos... pois já fui alcançado por ele” ( Fl 3, 10-12 ). O agir segue o ser. Porque sou homem ajo humanamente. Se, pois, sou morto e ressuscitado com Cristo e em Cristo, o meu agir moral vai ser de continuamente ir morrendo com ele para o mal e ressuscitando com ele para o bem. “Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus” ( Rm 6,11 ).

Celebramos plenos de contentamento e júbilo essa noite. Porém há algo de paradoxal e contraditório: a Nova Criação eclodida nesta noite  santa se encontra envolvida no “já” e  “ainda não” de uma salvação já realizada e ainda por vir.

Essa novidade iniciada no Batismo, vai acontecendo na Liturgia e na Vida. Já somos mortos e ressuscitados com Cristo. Todavia, há em nós muito a morrer, e só Deus sabe de quantas e quantas ressurreições cotidianamente nós precisamos até chegar à sua realização completa.

Se é  verdade que morremos e ressuscitamos no batismo, então morramos e ressuscitemos na liturgia e na vida, até um dia em que, morremos de fato e ressuscitaremos plenamente.

Fiquemos com a poesia daquele jovem discípulo amado, agora já ancião e, no entanto, sempre novo, sempre homem novo em Cristo.

Vede que prova de amor nos deu o Pai:
sermos  chamados filhos de Deus.
E nós o somos!
Caríssimos,
desde já somos filhos de Deus,
mas o que nós seremos
ainda não se manifestou.
Sabemos que por ocasião desta manifestação
seremos semelhantes a ele,
porque o veremos tal como ele é.
 ( 1 Jo 3, 1- 2 ).

Fabio dos Santos é presbítero, membro da Comissão de Justiça e Paz, coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso na Arquidiocese de Olinda e Recife e capelão da igreja Nossa Senhora da Assunção das Fronteiras.



sexta-feira, 19 de abril de 2019

A RESSURREIÇÃO DE UM TORTURADO E CRUCIFICADO: JESUS DE NAZARÉ




por leonardo boff

A páscoa da ressurreição deste ano se celebra no contexto de um país onde quase toda a população está sendo sufocada por um governo de extrema-direita que tem um projeto político-social radicalmente ultra-neoliberal. Ele se mostra sem piedade e sem coração pois desmonta os avanços e os direitos de milhões de trabalhadores e de pessoas de outras categoriais sociais. Coloca à venda bens naturais pertencentes à soberania do país. Aceita a recolonização do Brasil no intuito indisfarçável de repassar a nossa riqueza para as mãos de pequenos e poderosos grupos nacionais e internacionais. Não há qualquer sentido de solidariedade e de empatia para com os mais pobres e com aqueles que vivem ameaçados de violência e até de morte pelo fato de serem negros e negras, de habitarem em favelas, indígenas, quilombolas ou de outra condição sexual.
Andando por este país e um pouco pelo mundo, ouço, de muitas partes, gemidos de sofrimento e de indignação. Então, parece-me ouvir as palavras sagradas:”Eu vi a opressão de meu povo, ouvi os gritos de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci pra libertá-los e faze-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa” (Ex 3,7-8).
Deus deixa sua transcendência (“Deus acima de todos?”), desce e se coloca no meio dos oprimidos para ajudá-los a fazer a passagem (pessach=páscoa) da opressão para a libertação.
Vale enfatizar o fato de que há algo de assustador e de perverso em curso: um chefe de estado exalta torturadores, elogia ditadores sanguinários e considera um mero acidente o fuzilmanto com 80 tiros, por militares, de um negro, pai de família. E ainda propõe o perdão pelos que promoveram o holocausto de seis milhões de judeus. Como falar de ressurreição num contexto de alguém que prega uma perene “sexta-feira santa” de violência? Ele tem continuamente o nome de Deus e de Jesus em seus lábios e esquece que somos herdeiros de um prisioneiro político, caluniado, perseguido, torturado e crucificado: Jesus de Nazaré. O que faz e diz é um escárnio, agravado pelo apoio de pastores de igrejas neo-pentecostais, cuja mensagem pouco ou nada tem a ver com o evangelho de Jesus.
Apesar desta infâmia, queremos celebrar a páscoa da ressureição que é a festa da vida e da floração como a do semi-árido nordestino. Após algumas chuvas, tudo ressuscita e reverdesse.
Os judeus, escravizados no Egito fizeram a experiência de uma travessia, de um êxodo da servidão para a liberdade em direção de “uma terra boa e vasta onde corre leite e mel”(símbolos de justiça e de paz: Ex 3,8). A “Pessach” judaica (Páscoa) celebra a libertação de todo um povo e não apenas de indivíduos.
A Pásscoa cristã se agrega à Pessach judaica, prolongando-a. Celebra a libertação da inteira humanidade pela entrega de Jesus, aceitando a injusta condenação à morte de cruz, imposta, não pelo Pai de bondade, mas como consequência de sua prática libertadora face aos desvalidos de seu tempo e por apresentar uma outra visão de Deus-Pai, bom e misericordioso e não mais um Deus castigador com normas e leis severas, fato inaceitável pela ortodoxia da época. Ele morreu em solidariedade para com todos os humanos, abrindo-lhes o acesso ao Deus de amor e de misericórdia.
A Páscoa cristã celebra a ressurreição de um torturado e crucificado. Ele fez a passagem e o êxodo da morte para a vida. Não voltou para a vida que tinha antes, limitada e mortal como a nossa. Mas nele irrompeu um outro tipo de vida não mais submetida à morte e que representa a realização de todas as potencialides presentes nela (e em nós). Aquele ser que vinha nascendo lentamente dentro do processo da cosmogênese e da antropogênese, alcançou por sua ressurreição tal plenitude que, enfim, acabou de nascer. Como disse Pierre Teilhard de Chardin, ele, plenamente realizado, explodiu e implodiu para dentro de Deus. São Paulo entre perplexo e encantado o chama de “novissimus Adam” (1 Cor 15,45), o novo Adão, a nova humanidade. Se o Messis ressuscitou, toda a sua comunidade, que somos todos nós, até cosmos do qual somos parte, participamos desse evento bem-aventurado. Ele é o “primeiro entre mutos irmãos e irmãs ( Rom 8, 29). Nós seguiremos a ele.
Apesar da “sexta-feira santa” do ódio e da exaltação da violência, a ressurreição nos infunde a esperança de que faremos a passagem (páscoa) desta situação sinistra para o resgate de nosso país, onde não haverá mais ninguém que ousará favorecer a cultura da violência nem exaltará a tortura, nem se mostrará insensível ao holocausto de milhões de pessoas. Aleluia. Feliz Páscoa a todos.
Leonardo Boff, téologo e filósofo, escreveu Paixão de Cristo-paixão do mundo”, Vozes 2005.


sexta-feira, 25 de março de 2016

DENTRO DA SEXTA-FEIRA SANTA POLÍTICA UM VISLUMBRE DE RESSURREIÇÃO

por Leonardo Boff

Vivemos politicamente no país uma situação de sexta-feira da paixão: há ódio, dilaceração das relações sociais, riscos de ruptura da ordem democrática e de passagem de uma democracia do direito e das leis para uma democracia da direita e sem leis. Há sinais inequívocos de que este cenário não seja impossível.

É neste contexto que celebramos a festa maior do cristianismo, a páscoa. Ela significa em hebraico, a “passagem” do cativeiro egípcio para a liberdade da terra prometida; metaforicamente, passagem dos turbilhões de uma crise para a paz serena de um Estado democrático de direito.

Foi refletindo sobre o significado profundo da sexta-feira santa   que o jovem estudante de teologia e depois um dos maiores filósofos da história F. Hegel tirou a sua famosa chave de leitura da história e da vida humana: a dialética. Ele via realizada na saga de Jesus a realização destes três passos: vida-morte-ressurreição.

A vida é a tese da positividade. A morte é a antítese da negatividade. A ressurreição é a síntese que incorpora a tese e a antítese numa síntese superior. A ressurreição é mais que a reanimação de um cadáver, como o de Lázaro, pois significaria a volta à vida anterior. A ressurreição é a introdução de algo novo, nascido das afirmações e contradições do passado. Esse “insight” sempre lembrado por ele, foi chamado de a “sexta-feira santa teórica”.

Se bem reparamos, a semana santa, para além de seu caráter religioso, representa um paradigma do processo histórico e da própria evolução. Tudo no universo, nos processos biológicos, humanos e biográficos se estrutura na forma da dialética. O primeiro momento é a tranquila serenidade e paz infinita daquele pontozinho quase infinito de onde viemos (tese). De repente, sem sabermos por quê, ele explode. Produz um incomensurável caos(antítese). A evolução do universo significa um processo de criar ordens cada vez mais altas e complexas que culminam com a emergência do espírito e da consciência (síntese).

Dentro desta síntese, transformada agora em nova tese, carrega sua antítese que desemboca numa nova síntese mais fecunda. E assim corre o devenir da história do universo, das sociedades e de cada pessoa.

Concretizando para a nossa situação atual. O Brasil entrou num processo de crise, cujas causas não cabe aqui referir. De uma situação tranquila( tese) entrou em processo de caos (antítse). Deste caos deve irromper uma nova ordem que possa dar horizonte e esperança ao país (síntese). Precisa-se definir novas estrelas-guia que nos orientem face à crise atual. A crise tem a função de acrisolar, purificar e tornar a todos mais maduros.

A questão toda se resume: quem possui a proposta político-social que supere a crise e crie uma convivência minimamente pacífica? Não será através de fórmulas já testadas e gastas que virá a superação da crise dando centralidade a políticas e a grupos de poder à custa do sacrifício da maioria da população.

Promissora é aquela que realiza para o maior número possível de pessoas um bem-estar mínimo, que lhe garanta trabalho, uma moradia modesta mas digna e lhe crie possibilidades de desenvolvimento e crescimento através da saúde e da educação sustentáveis. Em todo esse processo dialético há a experiência de vida, de morte e de transfiguração; de ordem, desordem e nova ordem; de tese, antítese e síntese. A complexidade segundo E. Morin se estrutura nesta dialética que é a da semente: ”se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, ficará só, mas se morrer, produzirá muito fruto”, como disse o Mestre.

Hoje a natureza, a humanidade e nossa sociedade vivem sob pesada sexta-feira santa ameaçadora.

A nossa esperança é que este padecimento se ordene a uma radiante transformação. O corrupto seja punido e o que politicamente se fez errado seja corrigido. Importa definir um rumo que de certa forma já foi apontado. Se o rumo estiver certo, o caminho pode conhecer subidas e descidas mas ele nos leva ao destino certo: a uma nova ordem de convivência onde não seja tão difícil tratarmos a natureza com compaixão e nossos próximos com humanidade e com cuidado.

Leonardo Boff é autor de Paixão de Cristo-paixão do mundo. Vozes 2002.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Ressurreição e Transformação



Por Marcelo Barros



Nesses dias, as comunidades cristãs celebram a ressurreição de Jesus, como o eixo fundante da fé e garantia de vida nova para todas as pessoas que creem. O apóstolo Paulo afirmou: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa fé é inútil e vazia. Além disso, nós (que cremos nisso) seríamos de todas as pessoas, as mais dignas de lástima” (1 Cor 15, 18- 19). No entanto, a fé de que Jesus ressuscitou não diz respeito somente a ele. Afirma que ele, Jesus, é o primeiro fruto de uma humanidade nova e início de um universo transformado. 

Através de todas as filosofias, culturas e religiões, a humanidade sempre se debateu diante da morte como um enigma e sobretudo como um escândalo. De tal forma, as pessoas aspiram à vida e a uma vida plena, que a ideia de uma vida que vence a morte está incrustrada no mais profundo do coração humano. Em todas as culturas e religiões, de algum modo, persiste um horizonte de esperança. A tradição judaica assume essa tradição quando ensina que, no final da história, o amor divino realizará uma transformação radical e absoluta do mundo e da vida. No primeiro testamento, o termo ressurreição aparece como parábola do ressurgimento do povo de Israel como povo livre e altaneiro, “de pé” e congregado pelo Espírito (Ver Ezequiel 36 e 37). No Novo Testamento, as cartas paulinas e os evangelhos afirmam que a ressurreição de Jesus é o inicio de um mundo novo e de uma humanidade renovada. A ressurreição de Jesus revela que, apesar de todo o poder do mal no mundo, quem venceu não foi o opressor e sim o oprimido. A vítima triunfou sobre o seu verdugo e nessa vitória, todos os povos, comunidades e pessoas podem ter esperança de justiça e libertação. 

Na América Latina, para a maioria das pessoas a realidade atual ainda é mais de cruz do que de ressurreição. Por isso, talvez, até hoje, os ritos que lembram a morte de Jesus têm mais popularidade do que a celebração da ressurreição. No entanto, é preciso que vejamos na própria cruz o sinal da vitória e possamos celebrar a cruz na esperança e na alegria antecipada da ressurreição já presente como força de resistência e profecia de justiça. Nas últimas décadas, diversos países latino-americanos vivem um processo social e político novo no qual os mais pobres vivem sua caminhada de libertação. 

Muitas pessoas ainda têm medo do termo revolução. Essa palavra parece ser sinônimo de violência.  Ao contrário, Paulo Freire definia revolução como todo processo transformador que vai até a raiz dos problemas, atinge toda a estrutura social e política e tem como efeito a paz e a liberdade para todos. 



Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  

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sábado, 5 de janeiro de 2013

RESSURREIÇÃO



por GORETTI SANTOS
 

Trago comigo o que consegui salvar das águas...
Sonhos antigos, de sorrisos, de companhia, de parcerias...
De alegria.
Eram sonhos de Verdade,
As águas inundaram este lugar...
Afogaram- me com eles, mas alguns, comigo, resistem...
E vêem a tona respirar ar puro,
E dizer
Que ainda vivo,
Que ainda caminho,
E que ainda
Amo.

    
Goretti Santos é fisioterapeuta e poeta. Clique no nome pra ler outros poemas.

sábado, 14 de abril de 2012

RESSURREIÇÃO: MODO DE VIVER


por Maria Clara Bingemer




O tempo pascal – os 40 dias que se seguem até a festa da Ascensão, quando cessam o tempo das aparições do Ressuscitado às testemunhas da primeira hora do Cristianismo – é ocupado pela Igreja com constantes e profundas meditações sobre a Ressurreição. Contemplando as passagens evangélicas, os fiéis são introduzidos não apenas no sentido da morte cruel do Galileu de Nazaré sobre o lenho da cruz. Mas também e sobretudo em um radicalmente novo modo de viver.
A narrativa da Ressurreição sempre nos recorda a morte. Só ressuscita quem morreu. E o suplício ignóbil pelo qual passou aquele homem que só fazia o bem intrigava e escandalizava a todos que nele haviam acreditado. A experiência de ver vivo o que haviam visto Crucificado e morto desvela fulgurantemente a resposta de Deus sobre o destino da humanidade: a vida em plenitude.

Mais importante, porém, do que recordar a morte daquele que se foi é aprender de sua vida e dispor-se a entrar em um novo modo de viver. O mistério pascal – morte e ressurreição de Jesus Cristo – não apenas ilumina e ajuda a reler sua vida, mas também ensina poderosamente qual é a vida que Deus diz que é plena, perene e que não é engolida pela morte.
Por isso, mais importante do que crer na ressurreição após a morte, é viver desde já como ressuscitados. É aceitar que o mistério da Ressurreição de Jesus Cristo da cruz e do túmulo configure nossa vida e lhe dê uma nova forma. Não forma física, pois não se trata de reencarnação, mas forma nova no espírito que por sua vez transfigura a corporeidade e a totalidade do humano.

Viver como ressuscitados é viver fora de si. Ser sábio de uma loucura repudiada pelos sábios deste mundo que crêem conhecer e dominar a riqueza e o poder, mas na verdade por elas são dominados. É “saber” com uma força indestrutível que somos criados pelo Autor da vida a cada minuto para viver e dar vida. E quanto mais vida dada, tanto mais vida recebida. Trata-se de conhecer o jogo que aí ganha nova preponderância: perder é ganhar, entregar-se e perder-se no amor e no serviço é encontrar-se e possuir-se.
Viver como ressuscitados é ter o olhar transfigurado pelo Espírito que permite ver beleza e dignidade onde parece só existir lixo e miséria. É ter ouvidos abertos para, em meio aos ruídos dissonantes, escutar murmúrios e clamores dos que amam e dos que sofrem e sentir-se comovido por eles. É sentir na boca o beijo exigente da fome e da sede de justiça e dar-se em eucarístico alimento para saciá-las. É estender as mãos para servir e ajudar aqueles que buscam um rumo em suas vidas solitárias e perdidas, e transmitir-lhes a inefável experiência de sentir-se amados, acompanhados e curados em suas feridas profundas e doloridas.

Viver como ressuscitados é encontrar o segredo da alegria, esse mistério tão desejado e ansiado pelo coração humano. É ser capacitado a encontrá-lo longe das drogas, viagens sem volta; longe das adicções e no abismo fecundo da paixão; longe do artificial sossego feito de conforto e diversão impunes e atravessado por urgências compadecidas.
Viver como ressuscitados é experimentar que o centro da vida se encontra à margem do caminho, muitas vezes ferido e semimorto; é saber que a criação é feita não para a destruição e a morte, mas para o baile do amor fecundo que não termina e se desdobra em frutos de paz, diálogo e convivência.

Viver como ressuscitados é estar sempre em movimento, sempre em busca, nunca instalados. É saber que não temos aqui morada permanente, mas não somente esperamos a que há de vir como a construímos com o sopro do Espírito presenteado pelo Ressuscitado aos discípulos ainda atônitos e assustados.
Viver como ressuscitados é levar no próprio corpo as marcas de Jesus para que a vida por Ele dada se manifeste plenamente ao mundo. É estar no mundo sem ser do mundo, mas pertencer ao Senhor. É não ter domicílio em nenhum lugar, mas encontrar o próprio lar dentro de si mesmo, onde o Espírito do Pai e do Filho faz morada.
Viver como ressucitados é, em suma, viver urgidos pela caridade, iluminados pela esperança, suportados pela fé no que ainda não se vê, mas se “sabe” que será. É não guardar para si este segredo sussurrado ao ouvido na manhã do domingo, mas anunciá-lo sem medo em todos os dias da semana, convertendo o discipulado em ardente e constante apostolado.


Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)