O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador cruz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cruz. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de março de 2018

A CRUZ DE JESUS E OS RISCOS DO MARTÍRIO

Por Marcelo Barros

No Brasil, em uma semana, tivemos o martírio de três pessoas ligadas aos movimentos sociais. Na noite da 4a feira, 14, no centro do Rio de Janeiro, foram assassinados a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes. Três dias antes, no Pará, mataram o militante social Pedro Sérgio Almeida, representante da Associação dos Caboclos e Quilombolas da Amazônia. Ele cobrava da prefeitura de Macarema a falta de licença ambiental da empresa Hydro que joga detritos nos rios do Pará. 

Vivemos em tempos de martírio. As pessoas que defendem o projeto da Justiça e da Vida para todos correm riscos e podem ser mortas. Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas ao martírio de Jesus que, nesses dias, nas suas liturgias, as Igrejas revivem. 

Não deixa de ser estranho: as Igrejas celebram o memorial da paixão de Jesus. No entanto, quem parece estar realmente vivendo a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros, ao menos atualmente, parece não ser tanto religiosos/as ou pessoas que dizem fazer isso por causa da fé. Na América Latina, dos anos 60 até os anos 90, milhares de pessoas deram a vida por causa da justiça, em meio às lutas sociais. Dessas, muitas se proclamavam cristãs. No dia 24 de março, celebramos a memória do martírio do bispo Oscar Romero, assassinado em El Salvador, no momento em que celebrava a ceia de Jesus. Nos anos mais recentes, esse tipo de martírio continuou ocorrendo e acontece até hoje. Diariamente, há pessoas que morrem como vítimas da injustiças estruturais que dominam o mundo e esse continente. São mártires. No entanto, parece que, atualmente, o martírio está acontecendo mais fora dos ambientes eclesiais. Isso não diminui em nada o mérito e a santidade desses irmãos e irmãs que, mesmo sem terem vinculação com a fé religiosa, dão a vida pelas causas da justiça e da libertação. Conforme o evangelho, Jesus afirmava que pertence a Deus não quem confessa o seu nome e sim quem realiza a sua vontade que é de justiça e vida para todos.

Lamentável é que as Igrejas celebram e pregam a doação da vida, mas parecem ainda distantes dessa consagração que tantas pessoas sem falar em Deus, vivem no dia a dia da vida, nas periferias urbanas, na luta das mulheres negras, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas e dos rios.  Do mesmo modo, é estranho que os irmãos e irmãs que, por causa de sua fé, nas últimas décadas, deram a vida pelo povo e pela justiça, muitas vezes, não contaram com o apoio e compreensão dos próprios pastores da Igreja. Mesmo Dom Oscar Romero não era bem compreendido por outros bispos e pelo Vaticano. Isso nos faz perguntar por que a Igreja que celebra a paixão de Jesus tem tanta dificuldade em reconhecer e mais ainda em viver o martírio real que o povo sofre a cada dia, martírio que, na época de Jesus, se concretizou na cruz na qual o nosso mestre e Senhor deu a sua vida. Será que esse distanciamento da vida real das lutas do povo por parte de muitos eclesiásticos se dá porque continuam compreendendo a cruz e a morte de Jesus como um sacrifício religioso oferecido a Deus para salvar as pessoas dos seus pecados? Geralmente, todos aceitam que a Páscoa do primeiro testamento foi de conteúdo claramente social e político (a libertação dos hebreus do Egito). No entanto, interpretam a Páscoa de Jesus no plano meramente espiritualista. Cristo é visto como o servo sofredor de Deus que, como dizia o profeta Isaías, tomou sobre si as nossas faltas e morreu por nossos pecados. É o Cordeiro de Deus, cordeiro da nova Páscoa que, por sua morte, nos liberta espiritualmente.

Até hoje, na maioria das Igrejas, padres e pastores ligam o motor automático e, a cada ano, repetem o mesmo discurso. No entanto, atualmente, essa forma de interpretar a fé corre o risco de apresentar Deus como uma divindade cruel que, para se reconciliar com o mundo, precisa da morte do seu próprio Filho. Além disso, essa teologia separa a morte de Jesus das outras mortes violentas, ocorridas pela justiça e pela libertação. Se a morte de Jesus foi o sacrifício do Filho de Deus para salvar a humanidade de seus pecados nada tem a ver com as cruzes nossas de cada dia. Atualmente, é preciso superar esse modo de compreender a fé e a Páscoa. Apesar dos evangelhos lhe emprestarem palavras que podem ser compreendidas no sentido sacrificial, parece que nem o próprio Jesus, inserido na cultura e religião hebraicas, podia pensar assim.  A cruz era o suplício que os romanos reservavam para os escravos rebeldes e prisioneiros políticos que lutavam contra a ordem do Império. Com essa acusação, referendada pelas autoridades religiosas, ligadas ao poder político que dominava aquela região, Jesus foi condenado a morrer na cruz. 

A morte de Marielle, Anderson  e Pedro, assim como a de Oscar Romero e de tantos outros/as nos desafiam a compreender e celebrar a memória da morte de Jesus como martírio e não como sacrifício. Aí sim, a fé na ressurreição de Jesus nos faz ver além da morte. A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, uma forma de viver. Somos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos nessa caminhada. No 6º Encontro Intereclesial de CEBs, em Trindade (1986), as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Cremos na ressurreição. Por isso, através da continuidade da luta, podemos, hoje,  dizer: Viva Marielle, Anderson, Pedro e todas as testemunhas do mesmo projeto pascal de Jesus. 


Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.


terça-feira, 22 de março de 2016

O QUE A CRUZ NOS ENSINA

Por Marcelo Barros



Muitas pessoas pensam na cruz, apenas como símbolo religioso presente nas Igrejas cristãs e que nos recorda a morte de Jesus. Seria bom se fosse assim. Infelizmente, ainda hoje, a cruz é usada como instrumento de tortura e de infligir aos condenados uma morte cruel. Fotografias espalhadas pela internet mostram que o ISIS, grupo que se intitula como Estado Islâmico, tem crucificado inimigos que aprisionam como forma de mostrar ao Ocidente que a guerra santa contra o Império do Mal continua. Do outro lado, em Guatánamo, campo de concentração mantido pelo governo dos Estados Unidos, em um enclave de Cuba, soldados norte-americanos usaram a crucifixão como forma de tortura em prisioneiros árabes para obter confissões. Há décadas, teólogos como Jon Sobriño falam em “povos crucificados” para denunciar a injustiça vigente no mundo atual e, ao mesmo tempo, lembrar que a alma dos impérios é sempre a mesma. Hoje, o Império é dirigido pelas grandes empresas multinacionais às quais se associam governos da maioria dos países do mundo ocidental. Talvez esse império atual seja ainda mais cruel e mais cínico, em se fingir de civilizado e até democrático. Entretanto, quando é para defender seus interesses, não tem nenhum escrúpulo em matar e trucidar pessoas, grupos ou populações inteiras como tem ocorrido na história recente.

Ao celebrar nessa semana a páscoa de Jesus, muitas comunidades cristãs associam uma coisa a outra. Celebram a memória da morte de Jesus e associam a essa celebração o sofrimento de tantas pessoas vítimas da ambição humana e do desamor. Nessa Quaresma, as comunidades pensam também na cruz imposta à Terra, à Água e a toda a natureza.

O primeiro ensinamento da Cruz é que, para a maioria dos seres humanos, esse mundo é cada vez mais um vale de lágrimas. E não porque Deus quer que seja assim, nem porque esse é o destino normal das pessoas e sim pela organização injusta e cruel que a sociedade dominante impõe à humanidade. Por isso, é importante unir todo esse sofrimento espalhado pelo mundo à Cruz de Jesus. Ao fazer isso, denunciamos a crueldade de um mundo que continua submetendo os empobrecidos à Cruz. No entanto, ao associar as cruzes dos povos à Cruz de Jesus, queremos, principalmente, reafirmar a esperança de que, assim como da cruz de Jesus surgiu uma vida nova, também de tanto sofrimento humano e da terra, pode surgir uma situação nova.

Enquanto o mundo for dividido e a sociedade se organizar a partir da injustiça, muitas pessoas são responsáveis pela crucifixão de outras. Jesus não queria a morte. No entanto, sua forma de viver e de agir feriu frontalmente os interesses do império e da religião estabelecida que controlava o povo em nome de Deus. Jesus mostrou que o Deus, a quem ele chamava de Paizinho é totalmente diferente do deus do poder político e do templo. Foi, então, normal que os poderosos políticos e religiosos da época se unissem. E Jesus foi condenado tanto pelo tribunal do governador Pilatos, quanto pelo sinédrio do sacerdote Caifaz. Ele assumiu isso como profeta e mártir – para transformar a realidade a partir de baixo. Assim, Jesus mostrou que Deus é Amor. Um amor tão absoluto que ama mesmo quem não o ama e perdoa os próprios inimigos. Não é um Zeus grego a dominar o universo, mas um Deus impotente e crucificado de dor com seu próprio filho que assume em sua pessoa toda dor e sofrimento dos aflitos.

Essa energia de solidariedade amorosa vinda da Cruz foi tão revolucionária que, paradoxalmente, foi mais forte do que todo o ódio do mundo. Simbolicamente, os evangelhos falam que o túmulo de Jesus apareceu vazio. Os evangelhos insistem que ele apareceu no meio dos seus, frágil e ferido. Ainda com as chagas da cruz, mas vivo e vitorioso. É um modo de dizer que o Espírito amoroso do Pai deu a Jesus uma vida nova. A ressurreição não é uma sobrevivência depois da morte e sim uma forma de vida nova para além da morte. Ela se manifesta na cruz e na dor das pessoas que sofrem sem perder a esperança. Ninguém deve aceitar passivamente as cruzes que o mundo impõe. No entanto, ao lutar para que não haja mais cruz, podemos crer que a própria cruz abre um caminho novo de esperança. É uma força revolucionária de apostar no melhor, mesmo quando se vive o pior. Esse é o caminho pascal no qual o amor divino se manifesta onde estiverem dois ou três reunidos no nome de Jesus.


   
Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.   

terça-feira, 14 de julho de 2015

A CRUZ, ENTRE A PARADA GAY E A IGREJA

Por Marcelo Barros



Na recente Parada Gay de São Paulo, no domingo 07 de junho, a atriz Viviane Bebeloni, transexual, desfilou presa a uma cruz. Ela afirmou que fazia isso como forma de protesto pelo que a população GLBT sofre de preconceitos e exclusão social. Desde que isso aconteceu, o assunto tem sido comentado nos meios de comunicação e por pessoas  de alguns segmentos religiosos. Uma nota assinada por bispos católicos de São Paulo condena o fato e protesta veementemente. Chega a pedir que a autoridade pública intervenha contra esse tipo de evento. Segundo eles, a parada gay teria desrespeitado a religião católica, ao usar o seu símbolo mais importante: a cruz. No dia seguinte, independente da nota dos bispos, circulavam pela internet ameaças de morte à atriz. Chegaram a divulgar a imagem de um travesti morto e de braços abertos como em cruz, afirmando ser Viviane e que aquilo teria sido castigo de Deus. É pena que ainda haja cristãos que possam pensar tal coisa de um Deus que é só amor e misericórdia. De fato, a tal fotografia espalhada na rede era de um travesti cearense, encontrado morto em abril de 2014. Viviane tem sido ameaçada de morte por telefone, mas está viva.

Na própria Igreja, mesmo sem vir a público, outros ministros e a maioria dos agentes das pastorais sociais pensam diferentemente. O padre Júlio Lancellotti, que trabalha com os sofredores de rua em São Paulo, declarou que ficou emocionado, ao ver pela televisão, a cena da atriz pregada na cruz. Ele viu ali o próprio Cristo crucificado. Outros lamentaram ironicamente que os bispos que assinaram a nota tenham esquecido de pedir a assinatura de políticos e pastores neopentecostais conhecidos por suas posições rancorosas e fundamentalistas, já que defendem o mesmo tipo de pensamento e postura. 

A justiça exige, ao menos, o direito de defesa a quem é acusado, antes de condená-lo sem escutar. De fato, a atriz em questão, declarou na televisão que se prendeu a uma cruz “para representar a dor e a humilhação que os homossexuais e população LGBT sofrem todos os dias” (declaração na internet e na TV Bee). Espiritualmente,  quando um fato pode ter ao menos duas interpretações (uma favorável e outra negativa), um cristão deveria sempre optar pela mais ecumênica e amorosa.

Sem dúvida, os bispos que assinaram a nota querem defender a fé cristã e os símbolos do Cristianismo. Apesar das aparências, certamente eles não se sentem donos dos símbolos sagrados da fé. Sabem que a Cruz é símbolo de todo o Cristianismo. Em São Paulo, ortodoxos e cristãos de Igrejas evangélicas históricas, todos usam a cruz. No entanto, sabem que um símbolo da fé não é grife ou marca comercial patenteada por alguma empresa. Se fosse assim, em breve, qualquer pessoa para usar uma cruz no pescoço teria de pedir permissão ao bispo.  A reação dos bispos é compreensível quando se vê a história de séculos da Igreja Católica. No entanto, são pastores esclarecidos. Mesmo se parece, devemos crer que eles não fizeram isso por preconceito contra transexuais e nem por homofobia. Ainda há muitas pessoas de fé e mesmo bispos que, infelizmente, separam o sagrado do profano. Assim, se escandalizam pelo fato de uma atriz transexual ter se identificado com Jesus na cruz para expressar a opressão que sofre todos os dias.

Nos anos 80, a Pastoral da Terra divulgou uma cartilha na qual a capa estampava um lavrador crucificado por uma cruz formada por uma enxada e uma foice. Alguns bispos e padres acusaram a CPT de fazer um uso político e redutivo da cruz. No entanto, esses mesmos não sentiam nenhum desrespeito à cruz quando os generais da ditadura militar usavam a cruz e a Bíblia em suas cerimônias de posse. Até pouco tempo, salas de tribunal e o Congresso Nacional tinham uma grande cruz na parede. De alguns desses espaços, a cruz foi retirada por que o Brasil é um país leigo e não porque algum bispo mais preocupado com o respeito à religião tenha protestado. Será que Jesus não se sente mais ofendido com certos julgamentos que temos presenciado no Judiciário brasileiro ou com um Congresso que legisla tantas vezes contra o povo pobre do que com um pobre transexual que tenta chamar atenção para a sua dor? E a cruz continua pregada nas paredes de bancos que ganham 400% de lucro ao ano e exploram de várias formas os pobres. Quando algum desses bispos tão fervorosos vão protestar contra isso?


Esse tipo de conflito nos faz compreender melhor porque Jesus foi condenado pelo pretório (poder político) e pelo sinédrio (poder religioso do seu tempo). Conforme os evangelhos, ele foi acusado de “blasfemar contra o templo”. O templo era o símbolo mais importante do Judaísmo da época e ele o desrespeitou. Ele afirmou: “Podem destruir esse templo e eu o reedificarei em três dias” O evangelho diz que “ele falava, não da construção de pedra, mas do templo do seu corpo” (João 2, 13 – 21). Sem dúvida, esses bispos são discípulos de Jesus e concordam com ele que, de fato, o transexual em questão, é como pessoa, um símbolo muito mais sagrado para a Igreja do que a cruz. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países