O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador espirituais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador espirituais. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de setembro de 2018

UM TEMPO NOVO E OS CAMINHOS ESPIRITUAIS





                                                                                                           Marcelo Barros[1]

Essa semana começa por uma coincidência feliz. Nessa segunda-feira, 10, se celebra o ano novo judaico (começa o ano 5778). No dia seguinte, terça-feira, é a vez dos muçulmanos comemorarem o ano novo islâmico (1440 da Hégira). Duas religiões que têm a mesma fonte no patriarca Abraão e na revelação divina do Amor celebram a esperança de um tempo novo, em meio a conflitos que, desde muito tempo, dividem judeus e o mundo árabe. Esse conflito não vem da fé. Ambas as religiões ensinam que Deus é Paz e quer a Paz. No Oriente Médio, a raiz das divisões é a interferência de governos europeus e norte-americanos. Durante muito tempo, os impérios do Ocidente jogam um povo contra outro e insuflam um espírito de guerra. Por trás da ingerência norte-americana naqueles países, como também no norte da África, estão interesses econômicos de controle do petróleo e a estratégia militar para dominar o mundo. A cada dia, aumenta o número de mortos na Palestina ocupada e nem se fala da Síria. A única preocupação dos Estados Unidos é garantir que os interesses norte-americanos saiam fortalecidos. 

Setembro é o mês no qual a ONU tem sua assembleia geral. Mesmo sendo representativa dos governos, a assembleia geral é ainda a instância que une a humanidade em torno de um mundo mais justo. Nesse esforço de grande parte da sociedade civil, os ministros e representantes religiosos têm uma responsabilidade imensa. Muitas vezes, durante a história, as religiões forneceram pretextos para guerras. Muitos crimes se cometeram em nome de Deus. Em nossos tempos, é urgente que as religiões façam desabrochar, do tesouro de suas tradições, tudo o que pode ajudar a sociedade internacional a construir a paz.

Para enfrentar o desafio da construção da paz, as religiões devem aprofundar a própria imagem de Deus. Ele é fonte e principio da paz e não uma divindade intransigente e cruel que pede sacrifícios. Deus, se é mesmo Deus, não divide os seres humanos em crentes e descrentes, fiéis e infiéis. Esse tipo de deus mesquinho e interesseiro supõe organizações religiosas baseadas no dogmatismo e no autoritarismo de suas hierarquias. Ao adorar uma divindade assim, Igrejas ou religiões podem até falar de paz, mas, na prática, plantam sementes de intolerância e divisão entre as pessoas.

Graças a Deus, líderes espirituais como o Dalai Lama, o papa Francisco, o bispo Desmond Tutu e outros dão um testemunho de que Deus, se existe, só pode ser amor. No passado recente, papas como João XXIII, pastores como Martin-Luther King, o bispo Oscar Romero e alguns de nossos bispos e pastores contribuíram muito para se compreender a religião como instrumento de paz. Eles se inspiraram em suas tradições espirituais, para lutar contra o racismo, pregar a não violência e contribuir com relações internacionais pacíficas.

Infelizmente, nem sempre essa cultura religiosa da paz chega até as comunidades, paróquias e grupos de base. Atualmente, na América Latina e especificamente no Brasil, os grandes meios de comunicação de massa conseguiram espalhar uma cultura de intolerância raivosa e violenta que não permite a convivência com o diferente nem o diálogo.

Nessa realidade, é preciso aprendermos das culturas originárias do continente. De fato, as comunidades indígenas e grupos afrodescendentes têm nos conduzido à cultura da paz como cultura do bem-viver, isso é, a opção de conviver harmoniosamente e a partir de nossas diferenças culturais. Aos cristãos, São Paulo escreve: “Deus que, através de Jesus Cristo, reconciliou o mundo consigo, nos encarregou da palavra da reconciliação” (2 Cor 5, 19). Isso implica o trabalho de estabelecer a paz conosco mesmos, com os irmãos e irmãs diferentes de nós e com Deus, fonte de paz e amor do universo.


[1] - MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

OLIMPÍADA: EXERCÍCIOS CORPORAIS E ESPIRITUAIS


   Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



Dizia o grande mestre espiritual Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, que os exercícios corporais e espirituais contêm em si uma profunda e positiva analogia.  Assim podemos ler o que escreve no primeiro parágrafo do livrinho dos Exercícios Espirituais, seguramente o mais importante manual de espiritualidade da história do cristianismo.

“ Primeira Anotação. Por este nome, exercícios espirituais, entende-se todo o modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal e mentalmente, e de outras operações espirituais, conforme adiante se dirá. Porque, assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais, da mesma maneira todo o modo de preparar e dispor a alma, para tirar de si todas as afeições desordenadas e, depois de tiradas, buscar e achar a vontade divina na disposição da sua vida para a salvação da alma, se chamam exercícios espirituais.”

Com esta concepção do ser humano como ser em movimento, ser dinâmico, que só cresce e se realiza no bojo do exercício que o faz movimentar e exercitar o corpo e o espírito, Santo Inácio nos presenteia com uma revolucionária e muito atual visão antropológica.  O ser humano não é um corpo de morte decaído e fadado à destruição com uma alma imortal.  Não.  O ser humano é um corpo animado pelo Espírito divino.  E esse conjunto harmonioso e transcendente criado por Deus deve exercitar-se sob pena de esclerosar-se e fracassar nas metas mais importantes de sua vida. 

Igualmente, em tempos de Olimpíada, quando os olhos do mundo inteiro se voltam para a Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro, vemos que o que esta secular competição nos traz não é apenas uma mensagem centrada no desempenho corporal, na eugenia e na estética dos corpos desvinculados de subjetividade e interioridade. 

Pelo contrário, ao contemplar a maravilha dos atletas que se prepararam durante meses e anos para enfrentar as provas, podemos ver igualmente atletas do espírito, que renunciaram a muitos prazeres e alegrias, legítimas ou não tanto, para poder dedicar-se inteiramente àquilo a que se propõem.  E alguns deles e delas integram o mesmo amor e dedicação exercitando o corpo e o espírito, estejam ou não vinculados a alguma religião ou igreja.

Assim é que a superginasta Simone Biles, que já se comenta que superará a até então insuperável e mítica Nadia Komaneci, treina desde pequena com uma disciplina inquebrantável, acompanhada da reza do terço e da frequência à missa.  Católica, Simone Biles confessa que a fé é uma das únicas constantes em sua vida atribulada, ao lado do esporte que é sua paixão.  Criada pelos avós, Simone os chama de pai e mãe, e vai com eles à missa.  Carrega consigo um terço branco que, esclarece, não é para rezar antes da prova, mas na vida de todo dia.

Também os atletas estadunidenses David Boudia e Steele Johnson ganharam medalha de prata na plataforma de dez metros da natação ornamental masculina.  Após a prova, rezaram juntamente com o treinador e a cena foi transmitida ao vivo pela mídia. E testemunharam que a fé os mantém conectados à Terra, independente do êxito olímpico.  E a fé de ambos é saber que sua identidade se encontra em Cristo.

O grande tenista Juan Martin del Potro, um homem de profunda fé, considera o encontro com o Papa Francisco um momento único que jamais esquecerá.  Porém sua fé, Del Potro a demonstrou mesmo na quadra, após a luta com o pulso quebrado, as cirurgias que teve de fazer e o cansaço até a exaustão para chegar a uma prata que equivale a ouro.  O abraço fraterno e emocionado no inglês campeão do tênis nestas Olimpíadas, Andy Murray, mostrava ao mundo que para além das Malvinas ou das Falklands, guerra que já dividiu os dois países, ocasionando a morte de mil jovens argentinos, a fraternidade e o espírito de respeito e amor ao outro é possível.

Mencionamos aqui três atletas cristãos.  Mas os há de várias religiões e mesmo sem religião, mas com profunda abertura para a transcendência e a espiritualidade.  Por isso mesmo, os jogos olímpicos no Rio de Janeiro contam com um centro inter-religioso, onde atletas e treinadores podem desfrutar de momentos para meditar, fazer preces e celebrações. O cardeal do Rio, Dom Orani Tempesta, declarou:  “É muito bom ver o Rio de Janeiro como um povo acolhedor, onde as religiões se entendem”. E o capelão judeu para os atletas olímpicos, o rabino Elia Haber, comentou:  “Esperamos conseguir prover este balanço entre o físico e o espiritual. É muito importante para o atleta trabalhar isso”.

Neste momento, atletas somos todos, concentrados que estamos nesta bela experiência de sediar os jogos olímpicos.  Já vemos que se trata de algo que abre para além de esforços físicos e treinamentos exaustivos, embora estes sejam parte constitutiva das provas.  Como nos relembra Santo Inácio, o verdadeiro jogo é a vida e nela há que exercitar constantemente corpo e espírito, integrados em harmoniosa síntese que visibiliza no mundo o sonho de Deus para a humanidade.  

   Maria Clara Lucchetti Bingemer é  professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
  Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>