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terça-feira, 8 de março de 2022

Igualdade de gênero hoje para um amanhã sustentável

 Marcelo Barros 


 

Este é o tema que a ONU escolheu para a comemoração do dia mundial da mulher neste ano de 2022. Esta data, promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas), celebra as conquistas sociais, econômicas, culturais e políticas que as mulheres realizam no mundo e reforça a luta das mulheres pelo reconhecimento de sua dignidade, igualdade de direitos e protagonismo na construção de um mundo de iguais.

O tema deste ano sublinha que a causa da igualdade de gêneros é fundamental para toda humanidade e não só para as mulheres e tem profunda relação com a sustentabilidade do planeta. Só no respeito à diversidade de gêneros e no caminho da igualdade será possível a sustentabilidade da vida no planeta. Infelizmente, neste ano, celebramos esta data em meio às notícias da guerra na Ucrânia que revela as ambições do imperialismo dos Estados Unidos e o seu projeto de colocar mísseis nucleares na fronteira da Rússia, assim como também mostra os sonhos de hegemonia mundial da Rússia e da China. Em uma guerra como essa, as principais vítimas são sempre as populações mais pobres e entre elas, as mulheres e as crianças.

Infelizmente, no Brasil, na comemoração do 08 de março, precisamos nos dar conta de que, diariamente, aumentam as várias formas de violência contra a mulher. Muitas mulheres têm sofrido agressões dentro da própria casa, muitas vezes por parte dos companheiros. Ainda é comum o estupro e pior ainda o feminicídio, assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres. Além disso, a violência contra a mulher também toma caráter coletivo no tráfico de mulheres para a prostituição forçada que existe em todos os continentes e em certas políticas que insistem na discriminação da mulher. 

Devemos todos, homens e mulheres, valorizar e celebrar de todas as formas que pudermos o dia internacional da mulher, para que este possa se estender por todos os dias do ano como tempo de integração de gêneros e o mundo se torne espaço de comunhão no qual mulheres e homens possam viver a complementação de iguais.

Para quem cultiva a espiritualidade, seja em qual for a tradição religiosa ou fora das religiões, o Amor se manifesta como energia fecunda de vida. Os povos indígenas a veneram como Pachamama, mãe Terra. As tradições afrodescendentes a honram nas grandes Mães da vida,  como Iemanjá, Nanã, Obá, Euá, Oxum e Iansã.  A tradição bíblica revela que a divina Ruah, ventania, que os textos traduzem como Espírito Santo, se revela na força própria da mulher e no encanto do feminino em nossas vidas. Na carta aos gálatas, Paulo afirma: “Homens ou mulheres, somos todos um só no Cristo, Jesus nosso Senhor” (Cf. Gl 3, 28).

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.b

quinta-feira, 10 de março de 2016

IDEOLOGIA DE GÊNERO


Frei Betto



      “Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”, afirmou Shakespeare. Na versão tupiniquim do Barão de Itararé, “há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira.”

      Isso se aplica à sexualidade pós-moderna. Embora sejamos todos, por nascimento, do sexo masculino e feminino (ou hermafrodita), há mais gêneros sexuais do que hetero e homossexualidade.

      A homossexualidade é, hoje, considerada, pela maioria dos países do Ocidente e pela Igreja Católica, uma tendência natural do ser humano. Foi banida da lista de doenças mentais da Organização Mundial da Saúde (1993) e, no Brasil, do Conselho Federal de Psicologia. Embora alguns evangélicos insistam em qualificá-la de “demoníaca” e prescrevam a “cura gay”...

      Há pouco trabalhei o tema com educadores da Rede Azul, que congrega, em São Paulo, uma dezena de escolas. Há quem enumere mais de cinquenta gêneros sexuais, além de transexuais, bissexuais, HSH etc.

      Quando se fala em ideologia de gênero passa-se a impressão de que o conceito deriva de uma cabeça pornográfica, sem refletir a realidade. Certos pais e professores fazem de conta que acreditam na heterossexualidade de seus jovens, deixando-os à deriva em práticas sexuais outrora encobertas pelo moralismo, o tabu e o preconceito.

      Família e escola costumam silenciar quando se trata de temas radicais (de raiz) da vida, como sexo, dor, morte, fracasso, ruptura conjugal, falência etc. Não raramente dão educação sexual como meras aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis. O fundamental não é abordado: a constituição do amor como vínculo afetivo e efetivo.

      Os nascidos no século XXI se iniciam na vida sexual em idade mais precoce do que as gerações do século XX. Meninas transam com meninas, meninos com meninos, sem que isso expresse necessariamente uma identidade sexual. “Ficar”, “selinho”, rotatividade de parceiros, tendem a banalizar o sexo, praticado como se fosse um esporte prazeroso, sem o peso da culpa ou envolvimento emocional para se impor como projeto de vida  a dois.

      Vários fatores contribuem para essa revolução sexual: a indiferença religiosa ou a espiritualidade desprovida da noção de pecado; a erotização da cultura hedonista e consumista do neoliberalismo (vide peças publicitárias e programas como Big Brother e Pânico na TV); o fim da censura (qualquer adolescente pode acessar todo tipo de pornografia na internet); e a velha moral burguesa que privatiza os bons costumes e publiciza a degradação da mulher (o mesmo empresário que proíbe a filha de usar roupas insinuantes, patrocina o programa ou o anúncio no qual a mulher é reduzida a objeto de deleite machista).

      O que fazer? Liberar geral, com todos os riscos de aids e gravidez indesejada? Resgatar o moralismo, reaquecer o fogo do inferno e estimular a homofobia e o genocídio de LBGTodos?

      Há que ir ao cerne da questão: formar a subjetividade. O jovem que se droga clama: “Não suporto essa realidade. Quero ser amado!” A jovem que transa com diferentes parceiros grita: “Quero ser feliz!” Porém, ninguém ensinou a eles que a felicidade não resulta da soma de prazeres. É um estado de espírito do qual se desfruta mesmo em situações adversas. E requer algo que os jovens buscam intensamente sem encontrar quem lhes ofereça: espiritualidade, como abertura à dupla relação: amorosa (uma pessoa, uma causa, um projeto de vida) e à transcendência. Não confundir com religião. Esta é a institucionalização da espiritualidade, como a família é do amor.

      Pretender evitar a promiscuidade sexual dos jovens sem educação da subjetividade (e há excelentes ferramentas, como filmes, romances e poesias) é esperar que alguém seja honesto sem estar impregnado de valores éticos.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff e Mário Sérgio Cortella, de “Felicidade foi-se embora?” (Vozes), entre outros livros.
   
Copyright 2016 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

GÊNERO, MÍSTICA E LITERATURA: CLARICE LISPECTOR

por MARIA CLARA BINGEMER


   Clarice Lispector é um mistério em si mesma.  Para além de sua pertença religiosa, trata-se de uma mulher de fé, de cuja pena jorra a palavra Deus diretamente nomeado e deixando perceber uma sensibilidade espiritual imensa para qualquer manifestaçãIo da Transcendência que possa acontecer em todas as dimensões da existência.

      Apresentando quase sempre personagens femininas que buscam ardentemente sua identidade e que muitas vezes monologam, Clarice narra em seus romances verdadeiras experiências místicas. Suas personagens não recuam diante de nada na ânsia de chegar ao mais profundo de sua condição humana e à comunhão com o outro.

        Na peregrinação ao fundo de si e ao encontro do outro, o silêncio é muito valorizado e sublinhado.  Como, por exemplo, nesta passagem da obra Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres: “ O que se passara no pensamento de Lóri naquela madrugada era tão indizível e intransmissível como a voz de um ser humano calado. Só o silêncio da montanha lhe era equivalente.” Silêncio que deve ser vivido e sofrido: “O silêncio é a profunda noite secreta do mundo. E não se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem ouviu não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo sem palavras.“ O silêncio é o caldo de cultura adequado para a “aprendizagem” de ser: “Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da Terra e da Lua. Então ele, o silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois ele é o de dentro da gente.” 

          Neste reconhecimento mora a pergunta que no fundo é a pergunta de todo ser humano: “ Ele é o Silêncio.  Ele é o Deus? “E ainda, tocando os limites da alteridade do divino que se revela em meio ao silêncio: “O coração tem que se apresentar diante do Nada sozinho e sozinho bater em silêncio de uma taquicardia nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão.“ 

          A palavra “submissão” traz a conotação mística da experiência que Clarice narra.   A personagem Lori vai aprendendo e esperando para viver plenamente o amor de um homem, onde Eros é um componente essencial.  Mas deverá compreender que não rege o processo.  Outro tem nas mãos as rédeas do comando.  Outro a quem ela não pode senão submeter-se na nudez ardente e dolorosa da noite escura que atravessa.  Nesta aprendizagem feita de palavra e silêncio, de dor e alegria, de solidão e encontro, as personagens de Clarice vão experimentar a comunhão do amor pleno e maduro, feito de Eros e ágape.

      E descobrem que “a palavra de Deus era de tal mudez completa que aquele silêncio era Ele próprio.” Descobrem igualmente que o  caminho do autoconhecimento é angustiante, porém salvador. Tira o Ser do estado de ruína e de esquecimento em que se encontra e o conduz à passagem para um humilde êxtase que é ao mesmo tempo êxodo de si mesmo e descoberta de si mesmo no “estar sendo”. É quando sentem “estar sendo” juntos e em comunhão que os seres humanos encontram de fato o amor. 

      Mas é sobretudo em A Paixão segundo GH que podemos encontrar a mística de Clarice mais profundamente narrada. GH, a mulher sem paixão, vai se defrontar com o pathos, com a paixão,  a partir da viagem kenótica que faz ao coração da matéria, ao submundo das entranhas de um inseto, ao caos primitivo antes que ele seja pelo Criador resignificado em cosmos. O romance de Clarice falará de um pathos instituinte, de um ser humano que padece sem nada poder fazer por sua própria iniciativa para tal, a revelação da transcendência a partir de uma experiência que foge a toda “normalidade”: a aparentemente abjeta “comunhão” com as entranhas de uma barata morta. 

      Não cremos ser um “abuso” proveniente da nossa área de competência – a teologia – classificar a viagem de G. H. ao entrar no quarto humilde de sua empregada e defrontar-se com o inseto que a fita e provoca,  como mística.  Ou até mesmo – ousaria mais – como crística.  Pois crístico não é o movimento que faz o Filho de Deus ao não aferrar-se a suas prerrogativas e a esvaziar-se, despojar-se, humilhar-se, obediente até a morte, e morte de cruz? E místico não é o movimento bilateral que faz a  divindade unir-se à humanidade e vir resgatá-la a partir da lama do pecado onde se encontra mergulhada, cristificando-a e unindo-a a Si mesmo no Espírito Santo, que habita em nós, em kenosis amorosa, podendo ser abafado, contristado e mesmo extinto, como afirma Paulo de Tarso?

     O itinerário de G. H. é místico.  E é místico porque ascético e purificador, enquanto prepara o alargamento do eu que se segue à sua morte pelo sacrifício ascético de mergulhar no coração da matéria.  Toca os extremos da condição humana, quais sejam: a vida e a morte. “A descida na direção dessa existência impessoal produz-se como verdadeira ascese: a personagem desprende-se do mundo e experimenta, após gradual redução dos sentimentos, das representações e da vontade, a perda do eu”

        Ao realizar o que chama de “ato ínfimo” – comungar com a matéria viva, no coração das coisas -  G. H. chega à plenitude ansiada e desejada. Não compreender, não dominar, não pairar por cima das coisas.  Mas descer, mergulhar, sujeitar-se ao ínfimo, ao coração da matéria, mergulhar na descida para encontrar então aquilo que não consegue nomear, mas cujo nome existe e é Mistério inexpugnável.  Atraída por Eros, misteriosamente, à beleza invertida daquilo que o vulgo convencionou chamar de feio, encontra ágape em amor oblativo, gratuito, adorante. “A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.”

 
 http://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br

Maria Clara Bingemer é autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre  ética,   mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.


Copyright 2012 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)