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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

OS QUATRO NÓS GÓRDIOS QUE IMPEDEM O BRASIL SE AUTO-CONSTRUIR


Por LeonardoBoff

O Brasil está amarrado a quatro nós górdios que ninguém conseguiu ainda desatá-los e assim libertá-lo para se auto-construir como país soberano e livre.

O nó górdio vem de uma lenda da mais longínqua provincia romana, a Frígia, para onde eram condenados politicos sediciosos e na era cristã, os herejes. Era uma espécie de Sibéria, lugar de punição a opositores ou defensores de doutrinas heterodoxas.

A lenda diz que tendo ficado vacante o trono, foi escolhido como rei um camponês de nome Górdio. Veio com seu carro de bois. E para honrar Zeus e mostrar a humildade de sua origem, colocou a carroça dentro do templo. Amarrou-a com grossa corda com infindáveis nós de sorte que ninguém conseguia desatá-la. E assim ficou por muito tempo. Até que no ano 334 a.C. passou por lá Alexandre, o Grande. Curioso, foi ver os nós. Circulou ao redor. Não ficou refém dos nós da corda. Teve uma iluminação. Desembanhou a espada. Num golpe cortou a corda. Daí se derivou a conclusão de que uma ideia fora dos quadros convencionais – os nós – pode facilmente desatar os nós e resolver o problema.

O Brasil está amarrado a quatro nós górdios, sem que até hoje chegasse alguém que num corte libertasse o Brasil deles. Mas um dia ele irromperá.

O primeiro nó górdio é o etnocídio indígena. Eram cerca de 4 milhões. O extermínio os reduziu a 800 mil de hoje. O mais vergonhoso extermínio foi a decisão de Dom João VI em 13 de maio de 1808 de declarar uma guerra de extermínio contra os krenak (botocudos) do Vale do Rio Doce. Eram tidos indomesticáveis e por isso deveriam ser exterminados. Quase o foram. Alguns fugiram para dentro da mata. Eles se refizeram e hoje Ailton Krenak é um dos líderes maiores dos povos sobreviventes. A consequência: esses povos originários até hoje são discriminados como inferiores e suas terras com dificuldade são demarcadas e muitos deles são ainda assassinados.

O segundo nó górdio é o nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento: implica invadir terras, impor a língua, a política, a religião e desestruturar a cultura dos colonizados. A colônia criou duas instituições que se transformaram em estruturas mentais: a Casa Grande do senhor que tem o poder de vida e morte sobre os subordinados e a Senzala onde vivem os escravos e os peões sem qualquer direito. A consequência: sempre dependemos de fora, consideramos o que é estrangeiro melhor do que o nosso próprio produto. Deixamos surgir o sentimento de “vira-lata” sem autovalorização.

O terceiro nó górdio foi a escravidão. 4-5 milhões de africanos foram trazidos de África como escravos. Eram postos no pelourinho para serem vendidos como “peças” para servirem como trabalhadores no engenho ou serviçais nas cidades. Eram proibidos de constituir família. Os filhos logo que cresciam eram vendidos para longe e assim romper o laço de afeto entre a mãe e os filhos e filhas. Foram tratados com crueldade como a animais. Consequência: a falta de respeito aos outros, a discriminação e o ódio que grassa na sociedade contra os negros e a seus descendentes. Isso perdura até os dias de hoje. Jessé Souza em sua obra sociológica enfatiza que os descendentes da Casa Grande não apenas os mantém nas periferias mas os humilham e desprezam. Apenas o Governo Lula-Dilma fez alguma reparação para com eles, criando cotas nas universidades e nas escolas técnicas e uma universidade UNILAB em Redenção no Ceará.

O quarto nó górdio que obnubila a realidade brasileira é o patrimonialismo associado à corrupção. O patrimonialismo significa que as oligarquias consideram como privado o bem público, ocupam altos postos do aparelho do Estado, controlam as políticas públicas, entram em consórcio com empresas privadas para realizarem projetos do Estado, ganhando propinas pela mediação ou pelo superfaturamento das obras. Aí corre solta a corrupção que foi naturalizada. Somente nos últimos tempos pela Lava Jato os donos das grandes empresas e políticos dos mais altos escalões foram desmascarados e muitos deles postos na prisão. Esse nó górdio é o mais dificil de ser desatado pois se infiltrou em toda a sociedade como pertencendo ao negócio e ao nosso ser brasileiro.

Se o Brasil quiser construir seu próprio caminho, ganhar autonomia e contribuir para o devenir da nova fase planetária da Terra, deverá cortar estes quatro nós. Um governo com forte liderança e coragem e com sentido de nacionalidade poderá cortar esses nós, como condição de realizarmos o sonho brasileiro. Não perdemos a esperança de que esse dia chegará. Energias ponderosas estão impulsionando nesta direção.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e está ultimando um livro:Brasil:prolongar a dependência ou completar a refundação? a sair em breve.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

FRANCISCO E OS MIGRANTES: UM PROGRAMA DE QUATRO VERBOS

por Maria Clara Lucchetti Bingemer


            De Roma em um fórum de migrações, tive a grata experiência de cumprimentar o Papa Francisco pessoalmente.  Recebeu os 300 participantes do VI Fórum de Migrações e Paz, organizado pelos padres scalabrinianos.  Chegou sorridente e ouviu depoimentos de migrantes de várias partes do mundo.  Depois fez um belo discurso.       Cumprimentou cada um de nós pessoalmente. A cada um pelo menos um olhar, quando não um sorriso e algumas palavras.

            A problemática das migrações e das pessoas em situação de vulnerabilidade devido à sua mobilidade se avoluma.  Sobretudo na Europa e nos Estados Unidos.  No entanto, o Fórum mostra como por toda parte essa situação começa a acontecer ainda que com contornos diferentes.

            Mesmo no Brasil, onde achamos que não se trata de problema nosso, o cardeal Cláudio Humes apontou a chaga que temos com os indígenas. Na Amazônia, pela qual é responsável, enquanto ainda há muitas tribos que não têm contato com o chamado – ironicamente – mundo civilizado, há muitíssimos mais que vivem em mobilidade pelas cidades.  Ali vagam sem trabalho, sem amparo, em estado de vulnerabilidade total. Despojados pela colonização – antiga e nova – da identidade, da língua, da cultura, da religião, agora esses indígenas se movem sem rumo e sem um meio de vida.

            No Chile, que recebe muitos peruanos, bolivianos entre outros, foi comovente o depoimento da coordenadora da Casa do Migrante de Santiago.  Peruana, chegou a Santiago e foi trabalhar como empregada doméstica.  Nos fins de semana, os patrões não permitiam que dormisse na casa.  Sem ter para onde ir, passava as noites no metrô ou nas guaritas da polícia civil, ou nas ruas Ali, nas frias noites de Santiago, convivendo com outros em igual situação, teve a inspiração de fazer algo para ajudá-las. O encontro com os scalabrinianos fez o resto e, hoje, a Casa do Migrante é um ponto de refúgio e amparo para tantos que, como ela, um dia chegaram à capital chilena em busca de uma vida melhor.

            Os casos são muitos e a situação complexa.  Por isso, o Papa propõe um itinerário feito de etapas possíveis e paradigmáticas que ajudem a ir marcando o caminho.  Tal como com os movimentos populares latino-americanos falou nos três T: teto, terra e trabalho, agora com relação aos migrantes propôs quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.

            Acolher: trata-se de não rejeitar o outro por considerá-lo uma ameaça, um inimigo. Há que ultrapassar a indiferença e o medo com uma aproximação generosa de acolhida àquele que bate a nossa porta. E isso começa por oferecer abrigos dignos e decentes.  É a saída para humanizar e favorecer encontros pessoais garantindo a eles uma relação humanizada e humanizadora.

Proteger: a experiência migratória é constitutivamente vulnerabilizante.  Quem está em movimento, fora de todo o seu habitat natural e suas referências, está muito mais exposto à exploração, abuso e violência.  Isso é verdade sobretudo para aqueles e aquelas em situações irregulares ou vítimas do tráfico humano.  Necessitam de proteção, que não é paternalismo, mas sim defesa de seus direitos e respeito à sua dignidade.  O Papa declara que isso é um imperativo moral, pois vivemos um verdadeiro “tráfico de carne humana”, que se aproveita do infortúnio alheio para fins espúrios. A Igreja quer estar sempre presente onde essa proteção acontecer.

Promover: Não basta proteger.  Há que promover um desenvolvimento integral dessas pessoas, a fim de que possam viver em plenitude. E para isso devem ter acesso aos bens fundamentais que garantem vida plena. Essa promoção deveria começar pelas comunidades de origem, de forma a que tenha lugar tanto o direito de migrar como o de não migrar. O primeiro desrespeito ocorre quando as pessoas são empurradas para uma aventura migratória devido às péssimas condições em que vivem.

            Integrar: reconhecer o valor e a riqueza da cultura do outro, favorecer-lhe situações onde possa viver seus laços familiares.  Integrar os diferentes e os diversos reflete a catolicidade no que tem de mais nuclear: sua universalidade.  Isso não anula a diversidade cultural e ética, e faz crescer a Igreja em sua vocação primigênia.

            Francisco deseja que esses quatro verbos sejam conjugados na primeira pessoa do singular e na primeira pessoa do plural. E que o fazendo os cristãos, as organizações e as pessoas de boa vontade estejam especialmente atentas aos mais vulneráveis entre todos os migrantes, exilados e refugiados: as crianças e os jovens forçados a viver longe de suas pátrias e separados de seus entes queridos.  Trata-se do futuro não apenas da Igreja, mas da humanidade. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJA teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 


sexta-feira, 18 de março de 2016

QUATRO SOMBRAS AFLIGEM A REALIDADE BRASILEIRA


Por Leonardo Boff


 Em momentos de crise, assomam quatro sombras que estigmatizam nossa história cujos efeitos perduram até hoje.

A primeira sombra é nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obriga-los a falar a língua do invasor, assumir as formas políticas do outro e submeter-se totalmente a ele. A consequência no inconsciente coletivo do povo dominado: sempre baixar a cabeça e levado a pensar que somente o que é estrangeiro é bom.

A segunda sombra foi o genocídio indígena. Eram mais de 4 milhões. Os massacres de Mem de Sá em 31 de maio de 1580 que liquidou com os Tupiniquim da Capitania de Ilhéus e pior ainda, a guerra declarada oficialmente por D.João VI em 13 de maio de 1808 que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce manchará para sempre a memória nacional. Consequência: temos dificuldade de conviver com o diferente, entendendo-o como desigual. O índio não é ainda considerado plenamente “gente”, por isso suas terras são tomados, muitos são assassinados e para não morrerem, se suicidam. Há uma tradição de intolerância e negação do outro.

A terceira sombra, a mais nefasta de todas, foi o escravidão. Entre 4-5 milhões foram trazidos de África como “peças” a serem negociadas no mercado para servirem nos engenhos ou nas cidades como escravos. Negamos-lhes humanidade e seus lamentos sob a chibata chegam ainda hoje ao céu. Criou-se a instituição da Casa Grande e da Senzala. Gilberto Freyre deixou claro que não se trata apenas de uma formação social patriarcal, mas de uma estrutura mental que penetrou nos comportamentos das classes senhoriais e depois dominantes. Consequência: não precisamos respeitar o outro; ela está aí para nos servir. Se lhe pagamos salario é caridade e não direito. Predominou o autoritarismo; o privilégio substitui o direito e criou-se um estado para servir os interesses dos poderosos e não ao bem de todos e uma complicada burocracia que afasta o povo.

Raymundo Faoro (Os donos do poder) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (Conciliação e reforma no Brasil ) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer o estado nacional, fruto da conciliação entre as classes opulentas sempre com a exclusão intencionada do povo. Assim surgiu uma nação profundamente dividida entre poucos ricos e grandes maiorias pobres, um dos países mais desiguais do mundo, o que significa, um país violento e cheio de injustiças sociais.

Uma sociedade montada sobre a injustiça social nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca conseguiu ser civilizado. Mas depois de muitas dificuldades e derrotas, conseguiu-se um avanço: a irrupção de todo tipo de movimentos sociais que se articularam entre si. Nasceu uma força social poderosa que desembocou numa força político-partidária. O Partido dos Trabalhadores e outros afins, nasceram deste esforço titânico, sempre vigiados, satanizados, perseguidos e alguns presos e mortos.

A coligação de partidos hegemonizados pelo PT conseguiu chegar ao poder central. Fez-se o que nunca foi pensado e feito antes: conferir centralidade ao pobre e ao marginalizado. Em função deles se organizaram, como cunhas no sistema dominante, políticas sociais que permitiram a milhões saírem da miséria e terem os benefícios mínimos da cidadania e da dignidade.

Mas uma quarta sombra obnubila uma realidade que parecia tão promissora: a corrupção. Corrupção sempre houve entre nós em todas as esferas. Negá-lo seria hipocrisia. Basta lembrar os discursos contundentes e memoráveis de Ruy Barbosa no Parlamento. Setores importantes do PT deixaram-se morder pela mosca azul do poder e se corromperam. Isso jamais poderia ter acontecido, dado os propósitos iniciais do partido. Devem ser julgados e punidos.

A justiça focou-se quase só neles e mostrou-se muitas vezes parcial e com clara vontade persecutória. Os vazamentos ilegais, permitidos pelo juiz Sérgio Moro, forneceram munição à imprensa oposicionista e aos grupos que sempre dominaram a cena política e que agora querem voltar ao poder com um projeto velhista, neoliberal e insensível à injustiça social. Estes conseguiram mobilizar multidões, conclamando o impedimento da Presidenta Dilma, mesmo sem suficiente fundamento legal como afirmam notáveis juristas. Mas o PT respondeu à altura.

As quatro sombras recobrem a nossa realidade social e dificultam uma síntese integradora. Elas pesam enormemente e vêm à tona em tempos de crise como agora, manifestando-se como ódio, raiva, intolerância e violência simbólica e real contra opositores. Temos que integrar essa sombra, como diria C.G.Jung, para que a dimensão de luz possa predominar e liberar nosso caminho de obstáculos.

Nunca fui filiado ao PT. Mas apesar de seus erros, a causa que defende será sempre válida: fazer uma política integradora dos excluídos e humanizar nossas relações sociais para tornar a nossa sociedade menos malvada.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escreveu: Que Brasil queremos, Vozes 2000.