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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

TEMOS TEMPO E SABEDORIA SUFICIENTE PARA EVITAR A CATÁSTROFE?

 Leonardo Boff


No dia 8 de agosto de 2021 o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC)  publicou  o relatório, feito a cada dois anos, sobre a situação climática da Terra, fruto da pesquisa de mais de cem peritos de 52 países. Nunca o documento usou de tanta clareza, como agora, diferentemente dos relatórios anteriores. Antes se afirmava que havia 95% de certeza que o aquecimento global era antropogênico,vale dizer, de origem humana. Agora se sustenta sem restrições que ele é consequência dos seres humanos e de sua forma de habitar a Terra, especialmente, por causa do uso de energia fóssil (petróleo, carvão e gás) e de outros fatores negativos.

O cenário apresenta-se dramático.O  Acordo de Paris especifica que os países devem “limitar o aquecimento a bem abaixo de 2˚C, e perseguir esforços para limitar a 1,5˚C”. O relatório atual insinua que será difícil mas que   temos conhecimento científico, capacidade tecnológica e financeira para enfrentar as mudanças climáticas, desde que todo mundo, países, cidades, empresas e indivíduos, já agora se empenhem seriamente.

A situação atual é preocupante.Em 2016 as emissões globais de gases de efeito estufa somavam anualmente cerca de 52 gigatoneladas de CO2. Se não mudarmos de curso atual chegaremos em 2030 entre 52 a 58 gigatoneladas. Nesse nível haveria uma dizimação fantástica da biodiversidade e uma proliferação de bactérias e vírus como jamais havidos antes.

Para estabilizar o clima a 1,5 graus Celsius, afirmam os cientistas, as emissões precisariam cair pela metade (25-30 gigatoneladas). Caso contrário,com a Terra em chamas, conheceríamos eventos extremos aterradores.

Sou da opinião de que não bastam apenas  ciência e tecnologia para a diminuição dos gases de efeito estufa. É demasiada crença na onipotência da ciência que até hoje não sabe enfrentar totalmente o Covid-19. Faz-se urgente outro paradigma de relação para com a natureza e com a Terra, que não seja destrutivo mas amigável e em sutil sinergia com ritmos da natureza. Isso obrigaria uma transformação radical no modo de produção atual, capitalista, que ainda se move, em grande parte, na ilusão de que os recursos da Terra são ilimitados e que permitem,por isso,um projeto de crescimento/desenvolvimento também ilimitado. O Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sì:sobre o cuidado da Casa Comum (2020)denuncia esta premissa como “mentira”(n.106):um planeta limitado,em grau avançado de degração e superpovoado não tolera um projeto ilimitado. O Covid-19 em seu significado mais profundo nos exige, pôr em ação,uma conversão paradigmática.

Na encíclica Fratelli tutti(2021) o Papa Francisco apreendeu este aviso do vírus. Contrapõe dois projetos: o vigente, da modernidade, cujo paradigma consiste em fazer o ser humano  dominus (senhor e dono) da natureza e o novo proposto por ele, o de frater (irmão e irmã), incluindo a todos, os humanos e os demais seres da natureza. Este novo paradigma do frater planetário fundaria uma fraternidade sem fronteiras e um amor social. Se não fizermos esta travessia,”todos se salvam o ninguém se salva”(n.32).

Eis a grande questão: o modo de produção capitalista mundializado mostra vontade política, tem a capacidade e a razoabilidade suficientes para se permitir esta mudança radical? Ele se fez o dominus (maître et possesseur de Descartes) da Terra e sobre  todos os seus recursos.Seu mantras são: o maior lucro possível,conseguido por uma concorrência feroz, acumulado individual ou corporarivamente, através de um exploração devastadora dos bens e serviços naturais. Desse modo de produção se originaram o descontrole climático e, o que é pior, uma cultura do capital, da qual, de alguma forma, todos somos reféns. Como para nos salvar de ambas?

Temos que mudar, senão, segundo  Sygmunt Bauman, “vamos engrossar o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”.

Logicamente,esta urgente conversão de paradigma,demanda tempo e implica um processo de transformação, pois todo o sistema está azeitado para produzir e consumir mais. Mas o tempo da mudança está  expirando. Daí o sentimento do mundo de grandes nomes,cuja credibilidade inquestionável não é de simples pessimismo,mas de um realismo bem fundado.Cito alguns deles:

O primeiro é o Papa Francisco de alertou na Fratelli tutti:”estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32).

O segundo, o formulador da teoria da Terra como  super-organismo vivo, Gaia, James Lovelock, cujo último título diz tudo:”Gaia:alerta final”(Intrínseca, Rio 2010).

O terceiro é Martin Rees, Astrônomo Real do Reino Unido: Hora final:o desastre ambiental ameaça o futuro da humanidade (Companhia das Letras, SP 2005); dispensa comentário.

O quarto é Eric Hobsbawm, um mais renomados historiadores do século XX diz no final de seu A era dos extremos (Companhia das Letras, SP 1995):”Não sabemos para onde estamos indo.Contudo, uma coisa é clara:se a humanidade quer ter um futuro significativo não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente.Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base, vamos fracassar.E o preço do fracasso, ou seja, a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562). Esta advertência vale para todos aqueles que pensam a pós-pandemia como uma volta à antiga e perversa   normalidade.

O quinto é o conhecido geneticista francês Albert Jacquard com o seu “A contagem regressiva já começou? (Le compte à retours a-t-il commence?  Stock, Paris 2009).Sustenta:”temos um tempo contado e à força de termos trabalhado contra nós mesmos, arriscamos de forjar uma Terra na qual ninguém de nós gostaria de morar. O pior não é certo, mas temos que nos apressar”(quarta capa).

Por fim, um dos últimos grandes naturalistas, Théodore Monod com o livro E se a aventura humana  vier a fracassar (Et si l’aventure humaine devait échouer,Grasset,Paris 2003) assevera: “O ser humano é perfeitamente capaz de uma conduta insensata e demencial; a partir de agora podemos temer tudo, tudo mesmo, até a aniquilação da espécie humana”(p.246).

O processo da cosmogênese e da antropogênse propiciaram também a emergência da fé e da esperança. Elas são parte da realidade total. Não invalidam as advertências citadas.Mas abrem outra janela que nos assegura que “o Criador criou tudo por amor porque é o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26).Essa fé e esperança permitem ao Papa Francisco falar “para além do Sol” com estas palavras:”Caminhemos cantando,que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”(Laudato Sì n.244).O princípio esperança supera todos os limites e mantém sempre aberto o futuro. Se não podemos evitar o descontrole climático, podemos nos precaver e minorar seus efeitos mais  danosos.É o que cremos e esperamos.

Leonardo Boff é filósofo e ecoteólogo e escreveu O doloroso parto da Mãe Terra:uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social,Vozes 2020.

 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

AMOR PELA SABEDORIA

por  Maria Clara Lucchetti Bingemer




         Nunca soube que existisse o Dia do filósofo. Descobri recentemente, quando soube que no dia 16 de agosto festejam-se aqueles e aquelas que escolheram em suas vidas amar a Sabedoria. Sim, pois é isso que, no grego, significa a palavra filosofia: amor pela sabedoria.

       A origem da palavra está na Antiga Grécia, berço da civilização ocidental, onde, em meio à riquíssima mitologia que povoava o panteão de deuses e deusas, alguns começaram a perguntar-se: Quem sou eu? De onde vim e para onde vou? Qual a origem do mundo?

       Interpretada comumente como o marco do fim da era do mythos, com o apogeu do logos e da razão, a filosofia, na verdade, desde o início conjugou ambos.  Suas origens se encontram em uma interpretação des-sacralizada dos mitos cosmogônicos, difundidos pelas diversas religiões.  Para os que desejariam uma filosofia completamente “vacinada” contra o mito, aí está uma pedra de tropeço intransponível. 

         Segundo Aristóteles e Platão, a matéria inicial da reflexão dos filósofos foram os mitos.  Estes se tornaram campo comum da reflexão da religião e da filosofia, revelando que a pretensa separação entre esses dois modos de o ser humano interpretar a realidade não é tão nítida como aparentemente se julga.

       Nem só razão nem só mitologia, diz a amiga sabedoria que já desde o tempo de Tales de Mileto, 5000 anos antes de Cristo, nos ensina que o mundo está cheio de deuses.  E Platão viria a ser aquele que encontrou a raiz de seus mais belos pensamentos pela meditação dos mitos. Para a filosofia antiga, portanto, o mito  dá o que pensar, provoca a razão e a faz produzir sabedoria. A meditação e a interpretação dos mitos serão, então,  o que conduzirá o filósofo em sua busca da verdade.

         Pois disso se ocupa o filosofar: buscar a verdade.  Não poderia haver sabedoria se não houvesse verdade.  O bom e o belo são outros nomes da verdade.  Verdade que não se rende ao pensamento humano com a evidência laboratorialmente controlada do empirismo, mas  vai des-velando seus segredos com o exercício espiritual da busca atenta e amante da filosofia. A filosofia acaba por ser, assim, a porta de entrada para pensar o mistério. 

         Ao pensar os mitos, o filósofo toca na universalidade das intuições e das experiências ancestrais, referindo a sua pertença comum e originária ao gênero humano.  Por isso, os mitos são lugar privilegiado do enraizamento das pessoas e dos povos, conectando-os a seu passado. Tornam-se assim o fundamento da cultura humanista. Contemplando com atenção o mito, o filósofo vai se aproximando da raiz das recorrências humanas, o que lhe permitirá então tocar nas essências, elaborar definições, construir sínteses, montar harmoniosas arquiteturas de conhecimento.
         Em seus tempos iniciais, a filosofia se auto compreendia como responsável por tudo que era cognoscível e, portanto, passível de ser conhecido.  Sob sua égide repousava o conhecimento humano em todas as suas especialidades, e até hoje a ela devem sua origem enquanto campos do pensar e do saber: os valores  - a ética;   a beleza - a estética;  a busca da verdade – a lógica.

       O tempo passou, o mundo mudou e a filosofia também.  Fragmentou-se em muitas especialidades e muitos genitivos.  No entanto, ainda é um marco de oposição ao desenraizamento e à atomização da sociedade moderna, alienada justamente porque perdeu o contato com o passado, permanecendo degenerada na busca e fixação em ídolos.

       Enquanto houver filósofos apaixonados pela verdade e amigos da sabedoria, podemos ter esperança em que o que constitui o humano não se perdeu.  Por isso, é digno e justo saudar e louvar aqueles que hoje continuam cultivando essa amizade e esse amor, impedindo nossa desumanização. 

Na próxima terça-feira, 30 de agosto, a partir de 19hm será lançado, na Livraria Travessa de Ipanema, o livro Fé, justiça e paz – O testemunho de Dorothy Day(editoras Paulinas e PUC-/Rio), organizado por Maria Clara Bingemer e Paulo Fernando Carneiro de Andrade.

  Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 12 de abril de 2013

A ciência do mal não é sabedoria


Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER

  
Ainda o Papa Francisco.  Sim, e por que não?  Em um momento em que só recebemos notícias de desgraças, tragédias, deslizamentos na região serrana, armas químicas que dizimam vidas na Síria, fora a corrupção nossa de cada dia, a figura do Papa argentino polariza as atenções. Ele irradia firmeza e alegria, que contagiam e entusiasmam os que o veem e ouvem. 
          Os primeiros gestos vão pouco a pouco revelando seu perfil.  Como a inclinação diante da Praça de São Pedro pedindo a oração abençoante dos fiéis sobre sua pessoa.  Ou a recusa dos carros oficiais, do luxo dos mantos de arminho e casulas bordadas a ouro.  Ou ainda o descer do altar para beijar e acariciar um enfermo na cerimônia de entronização.  Ou o sorriso, não forçado, não congelado na face, mas espontâneo e constante.
          As palavras de Francisco conduzem na mesma direção, parecendo corroborar seus gestos. Nada de discursos apocalípticos e eivados de angústia e perplexidade.  Ao contrário, uma positiva disposição que parece cheia de desejo de olhar os grandes desafios de frente, com valentia e confiança. Talvez seja essa atitude de fundo que a Igreja como um todo está mais necessitada.
          Em sua homilia dois dias depois de eleito, quando falava aos cardeais seus companheiros na Sala Clementina do Palácio Apostólico do Vaticano, pronunciou palavras que soam como todo um programa:  "Não cedamos nunca ao pessimismo nem à amargura que o diabo nos oferece a cada dia”.  Aí está uma exortação que não é consolo barato de um homem maduro a outros igualmente chegados à segunda metade da vida.  Pelo contrário, soa como um resgate daquilo que de mais profundo e visceral contém a Revelação cristã. 
          “A ciência do mal não é sabedoria”, já diria o verdadeiro sábio.  Este “sabia” e conhecia a principal tentação que desfigura toda vida humana que nela cai.  Já desde o Jardim do Éden, a conversa sedutora da serpente procurou arrastar o homem e a mulher no seu encalço.  E por muitas vezes tem conseguido, dando como resultado a frustração, o engano, o pessimismo destrutivo que a nada conduz. Adão e Eva procuraram apropriar-se da ciência do bem e do mal.  Neste sequestro criatural do que só pertencia ao Criador, deram-se conta de que lhes tocou apenas a parte corrompida e apodrecida da fruta cobiçada.
          Pois “a ciência do mal não é sabedoria” nem tampouco o olhar sombrio sobre o mundo e a realidade é necessariamente lúcido ou revelador.  Pode ser, ao contrário, profundamente traiçoeiro e infiltrante esse ponto de vista enviesado, que derrama gota a gota o desânimo e a desolação nas veias da humanidade.  A Revelação cristã não é uma demonologia, ou seja, não quer ensinar-nos quem é o diabo.  Quer mostrar-nos o rosto irradiante do Cristo Pascal e contagiar-nos irresistivelmente de sua alegria que permite olhar tudo com esperança.
          Não se trata de ingenuidade barata e infantil.  Nem tampouco de óculos cor de rosa que mascaram a realidade em vez de desvelá-la. Mas consiste, sim, em não ter medo de mergulhar e tocar misericordiosamente o mais profundo da dor, sabendo que esta não é a última palavra.  É Boa notícia, é alegria autêntica, que não se confunde com a felicidade consumista e que não dá entrada à amargura que cada dia se converte em Cassandra e repete que nada tem jeito, que tudo está perdido, que não há mais caminho aberto e todas as vias estão fechadas.
          Nisso Francisco tem razão.  E seu xará de Assis, santo e poeta, o disse e repetiu em todos os tons.  Quando a alegria e a esperança estão ameaçadas de ser engolidas por um pessimismo desmobilizador e destruidor, há que resistir e não ceder. Pois ali não se encontra a sabedoria.  Vai ser possível achá-la na humilde confiança que realiza cotidianamente os gestos do amor que confirma a vida como grande vencedora e vitoriosa. Mesmo e mais ainda quando tudo parece dizer o contrário.
          É essa a sabedoria de que as novas gerações necessitam.  Talvez por isso estejam os jovens fascinados por Francisco.  O Papa que veio do extremo sul do planeta voltou a alargar-lhes os horizontes atrofiados pela desolação  que desorienta e conduz à morte. Cabe a nós, que acreditamos em quem Francisco também crê, assumir atitude semelhante a cada dia.  Bom programa para um final de Quaresma. 
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do   Departamento de Teologia da PUC-Rio,  teóloga e  autora de “Crônicas de cá e de lá” (editora Subiaco), que  pode ser  encomendado diretamente à escritora pelo e-mail –  agape@puc-rio.br – R$ 20,00

Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)