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segunda-feira, 13 de maio de 2019

A MÃE JUDIA DE JESUS DE NAZARÉ




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Muitas vezes nos perguntamos, aqueles que praticamos a fé cristã e ainda mais os que a estudamos nos cursos de Teologia, por que a enorme importância dada a Maria, mãe de Jesus, dentro do Cristianismo.  As razões para essa perplexidade são muitas: a pouca quantidade de textos evangélicos que a mencionam, as afirmativas da exegese mais rigorosa de que esses mesmos textos não estão próximos ou afinados aos mais antigos e, portanto, não podem ser remetidos ao Jesus Histórico, já havendo recebido grande influência interpretativa das primeiras comunidades cristãs. Acrescente-se o fato de alguns evangelhos pouco ou nada mencionarem Maria, ficando sua presença explícita no texto restrita apenas a Mateus e Lucas. 
Por que então essa presença pequena, menor quantitativamente nos textos revelados, foi se impondo de maneira tão impressionante, a ponto de hoje, no Catolicismo e na Ortodoxia, ou seja, na maior parte do mundo cristão, ter uma posição tão central não apenas na revelação cristã, mas em tudo que se tornou o cristianismo histórico, a posteriori dessa mesma revelação?
Parece-nos que a razão deve ser buscada não tanto no Cristianismo, e sim no Judaísmo, que foi o berço do próprio Cristianismo. Após a volta do exílio da Babilônia, quando o povo eleito, sob a guia de Esdras, deu a si mesmo a reforma da Lei mosaica, fixando assim definitivamente as bases de sua fé monoteísta, várias questões práticas para a identidade do povo tiveram que ser firmemente estabelecidas.  E uma delas foi um maior rigor quanto à pertença ao povo. E isso estava ligado à linhagem e aos pais biológicos daqueles que nascessem e pretendessem integrar o conjunto do povo de Israel.
Consideraram então os que, reunidos em Assembleia, tomavam decisões sobre o futuro de seu povo,  que os filhos nascidos de estrangeiras que não se haviam unido a Deus em aliança não seriam contados entre os filhos de Israel.
A razão da Corte Mosaica é simples de entender. É sempre possível ter certeza da mãe de uma criança. Já o pai, naquele momento, seria  muito difícil de determinar em caso de dúvida.
Além disso, Israel estava em situação vulnerável no exílio, como uma nação em servidão. Não é razoável imaginar que os israelitas teriam tido fácil acesso, por exemplo, a virgens babilônias, jamais tocadas por homens. Ademais, as situações de estupros de mulheres eram muito frequentes naquelas sociedades. Isso tornava ainda mais problemática a identificação da criança. Em sendo assim, a Corte Mosaica optou pelo óbvio, a saber, a decisão pela matrilinearidade, como única solução possível que asseguraria que a criança era, de fato, israelita. Essas crianças, juntamente com suas mães, foram despedidas pelos judeus, e retornaram para seus lares na Babilônia.
Tal matrilinearidade, enquanto identificação positiva de identidade, pode ser fundamentada na Torá por diversos ângulos. E foi o que a Corte Mosaica decidiu fazer para sustentar sua deliberação. A fundamentação ocorre a partir de Deuteronomio 7,3-4 : Não se casem com pessoas de lá. Não dêem suas filhas aos filhos delas, nem tomem as filhas delas para os seus filhos, pois elas desviariam seus filhos de seguir-me para servir a outros deuses e, por causa disso, a ira do Senhor se acenderia contra vocês e rapidamente os destruiria.”
Toda essa raiz histórica da importância da mãe judia para a identidade do povo de Israel explica muitas coisas.  Como, por exemplo, a severidade na punição do adultério, que representaria um perigo, uma vez que poderia gerar filhos não judeus, já que não se sabia quem era o parceiro sexual da mulher surpreendida em adultério.  Mas também traz uma firmeza positiva em relação aos filhos legítimos das judias.  E gera um respeito imenso pelo lugar da mãe na sociedade.
Na mulher mãe está a fonte da vida e da vida consagrada a Deus, na pertença ao povo e na aliança irrevogável com Deus.  Em seu ventre repousa o segredo da Aliança.  E por isso esse ventre que gera e dá à luz, esses peitos que amamentam os filhos do povo, serão louvados e cantados em todos os tons pelo povo de Israel. Como em Lc 11,27: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que te amamentaram!
É verdade que os evangelhos, já escritos quando a comunidade cristã rompia com a exclusividade da conexão com a sinagoga e acolhia em seu seio gentios de todas as procedências do mundo antigo, mostram Jesus insistindo que muito mais bem aventurados que os que saem do ventre de uma mãe judia, como ele, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.  No entanto, a comunidade cristã igualmente viu que Maria, a mãe do Mestre, entrava nas duas categorias.  Judia fiel, levou no ventre e amamentou ao peito o filho que depois falaria às multidões, faria milagres e anunciaria a todos o Reino de Deus.  Porém, não menos foi aquela que viveu plenamente a obediência, que significa ouvir a Palavra de Deus e colocá-la em prática. 
 Mãe judia do homem Jesus, a Igreja proclama Maria igualmente “Theotokos”, ou seja, mãe de Deus.  E é Paulo que proclama com força, em sua carta aos Gálatas, que por ela chegou a plenitude dos tempos. “Na plenitude dos tempos Deus enviou seu Filho nascido de mulher”. Maio é o mês dessa mulher.  É também o mês das mães, de todas aquelas que carregam em seus ventres os legítimos filhos de um povo que espera a libertação e espera contra toda esperança.  
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.  
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 7 de maio de 2019

MEIOS DE COMUNICAÇÃO EM UMA SOCIEDADE ÉTICA




Por Marcelo Barros

Vivemos em uma sociedade de comunicação rápida, na qual o celular, a internet e as redes sociais nos ligam, instantaneamente, ao mundo inteiro. Há pouco mais de 30 anos, em termos de comunicação, a realidade era totalmente diferente. De lá para cá, o mundo viveu uma transformação que, em milênios, não conheceu. Novos meios de comunicação plasmaram uma nova cultura social e deram mais agilidade e eficiência aos meios de comunicação clássicos como a imprensa, o rádio e a televisão. 

Atualmente, os novos meios virtuais formam a opinião pública e, junto com os veículos tradicionais têm poder imenso. Estudos revelam que notícias postas na internet, falsas, ou apenas com algum fundo de verdade,  influem no resultado de eleições e decidem a Política de povos e continentes. Por isso, em todos os países, a função dos meios de comunicação social tem sido tema de reflexão e debates.

A ONU considera o 03 de maio como “dia internacional da liberdade dos meios de comunicação”. É sempre importante se perguntar de qual liberdade falamos e para que. Sem dúvida, a liberdade é fundamental, mas deveria haver liberdade para semear ódio e violência? É justo que os meios de comunicação, nas mãos das pessoas mais ricas do país, tenham liberdade de mentir e propagar notícias falsas desde que favoreçam os interesses da elite que domina o país? Como criar uma reação democrática, popular e que não seja na direção da censura e sim da crítica?

Atualmente, em muitos casos, os proprietários das grandes empresas de comunicação e agências internacionais de notícias são os mesmos acionistas dos conglomerados de petróleo e das indústrias de armamento a serem vendidos nas guerras que a imprensa estimula.

Quem acompanha os noticiários no Brasil sabe como a maioria deles privilegia a violência. Confundem a missão de informar com o trabalho de explorar ao máximo os crimes e doenças que atacam a sociedade. As notícias de um atentado que matou centenas de pessoas se misturam com um jogo de futebol do dia anterior ou o nascimento de um filhote de urso no zoológico.

Ao mesmo tempo, para combater o inimigo que o império quer esmagar, a chamada guerra híbrida usa meios mais baratos e eficientes do que soldados armados. Os meios de comunicação subsidiam uma enxurrada de notícias falsas que criam a opinião pública. Na América Latina, calam sobre o descalabro e o fracasso total do governo argentino, porque esse é de direita, mas, diariamente, divulgam notícias negativas de qualquer governo que pretenda transformar a sociedade. Assim, muita gente passa a acreditar que o governo da Venezuela é ditatorial e a oposição, feita por uma pequena elite violenta, é democrática e justa.

No Brasil, os meios de comunicação fortalecem a campanha de criminalização de movimentos populares. As grandes redes de comunicação e as notícias falsas de internet possibilitaram o golpe que derrubou o governo democrático e honesto da presidenta Dilma, demonizaram o que eles consideraram esquerda e garantiram a vitória da extrema-direita nas eleições de 2018. 

No Brasil, o dia 5 de maio foi instituído como Dia Nacional das Comunicações. Poucas pessoas sabem que, nessa data, em 1865, nascia em Mimoso, perto de Cuiabá (MT), uma grande figura das telecomunicações brasileiras: o Marechal Rondon. O nome deste grande brasileiro, descendente de índios, é lembrado quando se trata de defesa dos povos indígenas e da integração do território nacional, mas poucas pessoas o ligam às telecomunicações.

Em 1955, quando Cândido Mariano da Silva Rondon completava 90 anos, passou a ser homenageado como Patrono das Comunicações do Brasil. Talvez sua origem o impelisse a uma comunicação mais humana com os indígenas. "Morrer, se preciso for. Matar, nunca" - era o seu lema. Com ele, Rondon ganhou projeção e reconhecimento internacionais. Era outra época. Naquele tempo, mesmo se o Brasil era dominado por governos ditatoriais e a sociedade sempre foi violenta, ao menos os governantes não defendiam execuções sumárias e militares não atiravam em cidadãos que passassem de carro pela frente do quartel para irem a uma festa de criança. Provavelmente, o presidente atual e seus ministros nem queiram lembrar a figura de Rondom ou o considerem comunista como Paulo Freire, Dom Helder Camara e outros esquerdistas.

Também as Igrejas e grupos espirituais têm se servido dos meios de comunicação. A fé se torna objeto de espetáculos religiosos televisivos, sejam cultos neopentecostais ou missas-show de padres pop. Estúdios substituem templos. Misturam-se reality-show, ficção e liturgia.. Entretanto, a fé nunca pode ser objeto de publicidade.

Esse panorama está longe do evangelho de Jesus, boa noticia de que o projeto divino de paz e justiça começam a se realizar neste mundo. Por isso, muitas vezes, é fora do universo religioso que jornalistas cumprem a função de verdadeiros evangelizadores e fazem com que os meios de comunicação cumpram sua função de colaborar com a fraternidade humana em comunhão com o universo.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br



sexta-feira, 3 de maio de 2019

ECOLOGIA EM FRAGMENTOS: AS PARTES NO TODO



por Leonardo Boff

O discurso ecológico procura ver o Todo nas partes e as partes no Todo numa rede de conexões que liga e re-liga todos os seres. Aqui apresento uns fragmentos do discurso ecológico em tópicos que nos tocam  diretamente.

1.A irracionalidade de nosso estilo de viver

O modelo de sociedade e o sentido de vida que os seres humanos projetaram para si, pelo menos nos últimos 400 anos, estão em crise.

Este modelo nos fazia acreditar que o importante é acumular grande número de meios de vida, de riqueza material, de bens e serviços a fim de poder desfrutar a curta passagem por este planeta.

Para realizar este propósito nos ajudam a ciência que conhece os mecanismos da natureza e a técnica que faz intervenções nela para benefício humano. E procurou-se fazer isso com a máxima velocidade possível.

Portanto, busca-se o máximo de benefício com o mínimo de investimento e no tempo mais breve possível.

O ser humano, nesta prática cultural, se entende como um ser sobre as coisas, dispondo delas a seu bel prazer, jamais como alguém que está junto com as coisas, convivendo com elas como membro de uma comunidade maior, planetária e cósmica.

O efeito final e triste, somente agora visível de forma inegável é este, expresso na frase atribuída a Gandhi: “a Terra é suficiente para todos, mas não para os consumistas”.

Nosso modelo civilizatório é tão absurdo que se os benefícios acumulados pelos países ricos fossem generalizados aos demais paises, precisaríamos outras quatro Terras iguais a essa que temos.
O que mostra a irracionalidade que este modo de viver implica. Por isso pede o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum”: uma radical conversão ecológica e um consumo sóbrio e solidário.

2. A natureza é mestra

Em momentos de crise civilizacional, como a nossa, é imperioso consultar a fonte originária de tudo: a natureza, a grande mestra. Que ela nos ensina?

Ela nos ensina que a lei básica da natureza, do universo e da vida não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui.

Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e os virus até os seres mais complexos, somos todos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Um coopera com o outro para viver.

Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, essa é a lei da natureza e do universo. Por causa desta teia de interdependências chegamos até aqui.

É essa soma de energias e de conexões que nos ajuda a sair das crises e a fundar novo ensaio civilizatório. Mas nos perguntamos: somos suficientemente sábios para enfrentar situações críticas e responder aos novos desafios?

3. Tudo está relacionado com tudo

A realidade que nos cerca e da qual somos parte, não deve ser pensada como uma máquina mas como um organismo vivo, não como constituída de partes estanques, mas como sistemas abertos, formando redes de relações.

Vigoram duas tendências básicas em cada ser e no inteiro universo: uma a de se auto-afirmar individualmente e outra a de se integrar num todo maior. Se não se auto-afirma corre o risco de desaparecer. Se não se integra num todo maior, corta a fonte de energia, se enfraquece e pode também desaparecer. Importa equilibrar estas duas tendências. Caso contrário caimos no individualismo mais feroz – a auto-afirmação – ou no coletivismo mais homogeneizador – a integração no todo.
Por isso temos sempre de ir e vir das partes para o todo, dos objetos para as redes, das estruturas para os processos, das posições para as relações.
A natureza é, pois, sempre co-criativa, co-participativa, ligada e re-ligada a tudo e a todos e principalmente à Fonte Originária de onde se originam todos os seres.

4.Desde o começo está presente o fim

O fim já está presente no começo. Quando os primeiros elementos materiais depois do big bang começaram a se constituir e a vibrar juntos aí já se anunciava um fim: o surgimento do universo uno e diverso, ordenado e caótico, o aparecimento da vida e o irromper da consciência.
Tudo se moveu e se interconectou para dar início à gestação de um céu futuro que começou já aqui em baixo, como uma sementinha, foi crescendo, crescendo até acabar de nascer na consumação dos tempos. Esse céu, desde o começo, é o próprio universo e a humanidade chegados à sua plenitude e consumação.

Não há céu sem Terra, nem Terra sem céu.
Se assim é, então, ao invés de falarmos em fim do mundo, deveríamos falar em um futuro do mundo, da Terra e da Humanidade que então serão o céu de todos e de tudo.

Leonardo Boff é ecoteólogo e filsósofo e escreveu: De onde vem ? Mar de Ideias, Rio 2017.


quinta-feira, 2 de maio de 2019

“MARXISMO CULTURAL”, O QUE É




Por Frei Betto

          A cultura não é neutra. É roupa que veste os fatos. Os fatos são fatos, e não se pode negá-los, exceto se você ostenta a suprema toga. Pode-se, porém, ressignificá-los.

          Ninguém nega que os militares derrubaram o governo democrático de João Goulart, em 1964. É um fato. Contudo, varia a hermenêutica. Para uns, foi golpe; para outros, simples movimento, contrarrevolução ou intervenção salvífica de Nossa Senhora Aparecida, invocada pela Marcha da Família com Deus pela Liberdade, para livrar o Brasil da iminente ameaça comunista.

          O “marxismo cultural” dissemina a versão de que se tratou de um golpe cívico-militar, e ainda insulta a imagem de oficiais das Forças Armadas e agentes policiais aos acusá-los de torturadores e assassinos.

          Outro fato inquestionável é a existência do planeta Terra, no qual vivemos. No entanto, há quem afirme ser ele redondo, o que teria sido constatado pelo grego Eratóstenes no século III a.C. Contudo, há controvérsias. Para os adeptos do terraplanismo ele é plano, e há uma muralha de gelo nas suas bordas, o que impede o esvaziamento dos oceanos. E acima de nossas cabeças paira o domo com o Sol e a Lua. Porém, a Nasa gasta bilhões de dólares para nutrir a farsa globalista de que a Terra é redonda.

          No século XVI, o polaco Nicolau Copérnico concordou que a Terra é redonda, e ainda acrescentou que, integrada a um colar de planetas, ela gira em torno do Sol.

          O leitor certamente se pergunta: como o “marxismo cultural” influi nessa questão? Aparentemente trata-se apenas de uma divergência astronômica. Só aparentemente.

          O astrônomo polonês anteviu a tese do educador Paulo Freire de que mudança de lugar social tende a modificar o lugar epistêmico. Copérnico se deslocou virtualmente da Terra para o Sol e, dali, proclamou que o nosso planeta desenvolve uma dança sideral em volta do Sol. E, como se sabe, Paulo Freire era um cristão-marxista.

          O “marxismo cultural” é capcioso, sutil, subliminar. Não reside apenas nas ideias de um professor ou em livros didáticos. Está na cor vermelha de uma camisa, no cabelo afro de uma aluna, nos trejeitos efeminados de um homossexual, até mesmo na equivocada versão de que o nazismo teria sido um movimento da extrema-direita. O nazismo era, sim, um movimento de esquerda chamado nacional-socialismo. Foi derrotado pelo exército soviético para que Hitler, caso sobrevivesse, não fizesse sombra a Stalin.

          Outro efeito político do “marxismo cultural” foi o fascismo. Sabem por que Mussolini tinha o prenome de Benito? Porque seu pai, Alessandro, fervoroso socialista, quis homenagear o revolucionário mexicano Benito Juárez. Mussolini contatou Lenin na Suíça, em 1903. E em 1910 fundou, na Itália, o jornal “Luta de classes”. E dirigiu o jornal do Partido Socialista Italiano, em cuja redação trabalhou com o supremo mentor do “marxismo cultural”, Antonio Gramsci.

          Uma das áreas preferidas do marxismo cultural é a das estatísticas. Todos sabem que não há fome no Brasil, pois, como observou a ministra, há suficientes mangas caídas nas ruas. Se não são mangas, são goiabas. No entanto, órgãos do governo, como o IBGE, ou globalistas, como a ONU, insistem em anunciar que 52 milhões de brasileiros vivem na miséria. Ou que há 13,1 milhões de desempregados, quando todos sabem que toda a população trabalha, seja catando o que comer em latas de lixo, seja na árdua tarefa de planejar um assalto a banco.

           Para integrar o novo governo do Brasil não é necessário competência. Importa estar isento de qualquer influência do “marxismo cultural”. E fazer de conta que não tem ideologia. Essa vigilância quanto a vírus nocivos à nossa cultura deve ser exercida com lupa de caçar piolho em cabeça de pulga.

          Só assim teremos um país livre de influência comunista e purificado da sutil inoculação de ideias que contrariam o único poder capaz de nos garantir quando a verdade é mentira, e quando a mentira é verdade.

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

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