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quarta-feira, 17 de junho de 2020

COVID 19 QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA REFLEXÃO SANTIDADE EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


Por Frei Aloísio Fragoso

 

     Este mês celebramos a memória de alguns dos santos mais populares, venerados na Igreja Católica: S. Antônio, S. João, S. Pedro.

     Gostaria de aproveitar  a oportunidade e me prolongar neste assunto, motivado por uma razão imediata e atual: a Igreja afirma categoricamente "a maior dignidade do ser humano é a sua vocação para a santidade" (Concílio Vaticano II). E esta afirmativa teórica, nestes tempos de pandemia, converte-se em realidade: provas incontestáveis de santidade estão emergindo por toda parte, refazendo nossa confiança no ser humano, a despeito dos idiotas, dos hipócritas e dos tiranos.

     Um dos maiores romancistas do século passado, o inglês Aldous Huxley, embora não sendo um homem religioso, escreveu: "um mundo sem santos seria um mundo inteiramente cego, completamente louco".

     Ele não é o primeiro nem o único a reconhecer esta necessidade de existir modelos de santidade, para que o mundo não descambe na cegueira e loucura moral. Os seres humanos perderiam a confiança em si mesmos e no sentido da vida se não tivessem alguém em quem se projetar, e poder confessar: se um de nós chegou até aí, então elas existem, a perfeição existe, a bondade existe, a santidade existe.

     A maior parte talvez já desistiu desta idéia de ser santo, contudo uma coisa é inegável: não há quem, em alguns momentos da vida, já não tenha experimentado a nostalgia da santidade; esta vontade irreprimível de ser bom, verdadeiro, santo. É a nostalgia do Paraíso Perdido.

     É tão imperiosa esta carência que, onde faltam santos e santas, o povo trata de criá-los. Daí  esta profusão de gurus milagreiros, mercadores da Religião, empresários do Sagrado, biscateiros da Esperança, exploradores da boa fé dos simples.

     Os santos e santas de verdade sabiam disso. Uma de suas primeiras preocupações era livrar-se destas ciladas. Certa vez, um dos companheiros de S. Francisco de Assis, frei Masseo, famoso pela sua bela aparência, perguntou-lhe: "por que é que toda gente vai atrás de você, irmão Francisco? Você não possui beleza física, nem notável cultura nem eloquência!". O santo respondeu: "eu também não sei, irmão, talvez Deus não encontrou alguém mais idiota do que eu para fazer brilhar a sua misericórdia".

     A primeira virtude de todos os santos e santas era a humildade.

     A nossa Igreja tem o costume de canonizar alguns homens e mulheres, conceder-lhes as honras dos altares e a veneração geral, por que?  Para que? Certamente para termos intercessores junto ao Pai do Céu e, sobretudo, para reconhecermos neles o que deveríamos ser. As canonizações devem ser valorizadas e, ao mesmo tempo, relativizadas. Conheci uma mãe de família paupérrima, na favela onde trabalho e, não tenho dúvida de confessar, vejo nela muito mais provas de santidade do que no fundador da "Opus Dei", canonizado recentemente. No entanto, quem investiria 2 reais na esperança de vê-la canonizada? Ao contrário dos herdeiros das obras deste último, com milhões de dólares nos seus cofres, para encaminhar e apressar a sua canonização.

     Além disso, se quiséssemos apresentar este heróis e heroínas como "honra ao mérito" da humanidade e glória ao seu Criador, decerto Deus veria o contrário: um fabuloso fracasso da sua Criação, pois de bilhões e bilhões e bilhões de criaturas humanas, vindas ao mundo desde sempre, apenas umas 20.000 (número dos canonizados) alcançaram o fim para o qual foram criadas.

     Assim como nos sentimos bem representados pelos santos e santas, também devemos sentir-nos envergonhados, pois a santidade é um chamado universal, vale para todos: "sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito", declara Jesus.

     A Bíblia resume todas as definições de Deus em uma brevíssima expressão: "Deus é Amor". Por conseguinte, nenhuma experiência de vida pode levar à santidade se não estiver  centrada no amor fraterno ("ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o irmão, a quem vê", escreve São João.)

     O que distingue os santos e santas  é que eles cumpriram este mandamento em grau heróico, deram a vida por amor a Deus, provado no amor aos semelhantes.

     Esta definição amplia imensamente o campo onde medram e proliferam as testemunhas de santidade. Santo Agostinho chega a escrever: "na ordem dos princípios, o amor a Deus vem em primeiro lugar, mas, na ordem da execução, o amor ao próximo tem a prioridade". Neste caso, teríamos motivos de sobra para iniciar processos de canonização, muito além do tempo e das fronteiras da Igreja Católica ou de qualquer Instituição religiosa (nesta fila entrariam,  à guisa de ilustração, um filósofo grego, como Sócrates, três imperadores romanos, como Nerva, Antonino Pio e Marco Aurélio, um músico protestante como Bach, sem falar na multidão de Josés, Marias, Severinos, Teresinhas, que viveram o tempo todo a sacrificar-se por amor dos seus.

     Voltaremos a este assunto, pois ele assinala, a longo prazo,  o caminho de cumprirmos nosso destino e, a curto prazo, a possibilidade de enxergarmos a presença de Deus, nesta tragédia do Coronavirus. Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


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