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quinta-feira, 25 de junho de 2020

COVID 19 QUADRAGÉSIMA QUARTA REFLEXÃO- PAULO APÓSTOLO EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


por Frei Aloísio Fragoso

 

     No próximo domingo a Igreja celebra a festa de um homem excepcional.  Entenda-se esta última palavra ao pé da letra: ele foi uma exceção. Em meio a milhões de outros que não chegam à metade do que deveriam ser, ele foi pleno. E esta plenitude era nutrida pela paixão. Se quiséssemos usar a linguagem da gíria, diríamos: "pense num cara apaixonado!". Paulo Apóstolo.

     Logo de início, quando teve que enfrentar os que contestavam seu papel de evangelizador, ele reage forte, numa carta endereçada à comunidade de Corinto: "Quem ousa dizer que não sou apóstolo? Vocês são o resultado do meu trabalho. Que outros não me aceitem como apóstolo, vá lá, mas vocês, não! Vocês são a prova da legitimidade do meu apostolado" 1Cor.9,2.

     A mesma paixão anima seus cuidados com estas comunidades: "Vocês podem ter muitos mestres, porém um só é o pai de vocês: sou eu este pai, e sofro dentro de mim dores de parto, até que o Cristo Senhor seja gerado em vocês" 1 Cor. 4, 14-15.

     A mesma paixão se reflete na sua adesão pessoal a Jesus: "Eu vivo sim, mas não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim. Com Ele eu fui crucificado" Gl.2,19-20. E se radicaliza na sua fidelidade à missão: "Eu sou um homem livre, não sou escravo de ninguém. No entanto, pela causa do Evangelho, me faço escravo de todos, para ganhar o maior número possível" 1Cor. 9,19.

     Falar sobre São Paulo é calar ao máximo para somente escutá-lo.

     Se lhe pedíssemos: "descreva-se a si mesmo, conte o que se passou e o transformou em um outro homem, decerto ele diria: "O Cristo morto e ressuscitado invadiu a minha vida" Gl.1,2. "Agora não quero saber de outra coisa, senão Dele" 1Cor. 2,2. "Não o conheci pessoalmente, segundo a carne, porém o conheci segundo o espírito, e por isso falo Dele como um apaixonado" Ef.1,14. "Toda a minha pregação tem a sua Cruz como fonte geradora de nova vida" GL.6,14. "É em nome Dele que trabalho para formar um Povo Novo, onde gregos e judeus, escravos e livres, homens e mulheres, de todas as línguas e culturas, convivem sem discriminação, uma vez que se tornaram novas criaturas" Ef. 2,15 + Gl.3,27.

     Se o transportamos para nossos dias e o deixarmos percorrer as cidades do nosso país, e pregar com a mesma fé e paixão, o que ele diria? O que diria aos que se encontram abatidos e desanimados, sentindo-se impotentes? - "Deus escolheu aquilo que o mundo tem em conta de fraqueza para confundir os que se fazem passar por fortes. Escolheu o que é loucura aos olhos do mundo para confundir os pretensos sábios. Pois o que parece loucura de Deus é mais sábio do que toda sabedoria humana, e o que parece fraqueza de Deus é mais forte do que toda força humana" 1Cor.1, 11ss.

     O que diria Ele aos que se apoderam do Evangelho e do nome de Deus e procuram implantar uma prática religiosa alienada da vida do povo, aliada aos poderes deste mundo, voltada para si mesma? - "A todos, sem exceção, Deus concede carismas, em vista do Bem Comum".1Cor.12,7. Cânticos e louvores, lágrimas de emoção, estranhas línguas, prodígios e milagres, beneficências.... se tudo isso não for provado por um amor sincero e real, feito de atos e não de palavras, de nada vale, é apenas como um sino que toca e depois não toca mais. Cf.1Cor.13ss.

     E o que diria Ele aos que ocupam as cúpulas do poder político e econômico, com projetos destinados a oprimir os fracos e favorecer as classes dominantes? - A estes Ele não diria nada. Prepotentes e arrogantes não tem ouvidos abertos à voz de um profeta. Eles o temem e perseguem. Ele agiria. Faria o que fez por onde passou. Reuniu os pequenos e deserdados e se pôs a constituir com eles um Povo Novo, em torno de Jesus Cristo, com uma nova consciência sobre suas relações com Deus, entre si e com o mundo em volta. Em Tessalônica fundou comunidades de cidadãos simples e pobres, entre os quais se contavam escravos, indistintamente. Uma tal mistura era uma subversão das estruturas  sociais patriarcais e hierarquizadas daqueles tempos. E ainda deu-lhes um fundamento teológico com a doutrina do Corpo Místico: formamos um só Corpo, sendo Cristo a única Cabeça, e todos os demais, membros uns dos outros, com direitos e responsabilidades equivalentes. "Nenhum pode dizer ao outro: eu sou mais importante do que você" Cf.1Cor. 12,21ss.

     Imaginemos se estas perigosas sementes fecundassem em outros lugares, e chegassem a Antioquia, Atenas, Galácia, Éfeso, Colossos, e até Roma, o abalo seria geral. E chegaram de fato. E o abalo foi geral. Logo mais o Império Romano será invadido por estas sementes. E, com os anos, o mundo conhecerá os efeitos da maior revolução da História, originada dos Evangelhos e acionada pelo maior dos Apóstolos.

     A memória de São Paulo nos estimula a uma nova esperança. Quem sabe, daqui a alguns anos, ao recordar os tempos sombrios de hoje, daremos graças a Deus porque os enfrentamos, pois deles resultou um bem maior, "nunca mais o mundo foi o mesmo". Não que Deus nos tenha mandado uma pandemia para aprendermos a conviver como seres humanos, mas Ele nos concedeu a graça de, como diz o salmo, colher na alegria o que plantamos na dor. Então, teremos motivo de repetir, como nossas, as palavras de São Paulo: "Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé" 2 Tim.4,7.    Amém.

 

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

 

 


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