O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador somos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador somos. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de janeiro de 2022

“A gente somos inútil”

 

 

Prof. Martinho Condini


 

Quando revisamos a história do Brasil e verificamos a atuação das forças armadas, constatamos que, nada fizeram de útil, produtivo e relevante para a sociedade brasileira. Afinal de contas a história mostra as suas “brilhantes atuações”: Guerra do Paraguai (1864-1870), a Guerra de Canudos (1896-1897) e as atrocidades do período da Ditadura Militar (1964-1985), prisões, torturas, execuções e mortes (alguns corpos não encontrados até hoje). Vamos ficar com esses três fatos para não nos alongarmos em outras barbaridades realizadas ao longo da nossa história.

        A “cereja do bolo” foi o mais recente apoio dado pelas forças armadas ao “capetão” paraquedista da reserva, um vagabundo profissional de primeira grandeza, incompetente, negacionista e genocida que se tornou presidente. Durante o período em que foi parlamentar sempre foi medíocre, do baixo clero, sem nenhuma expressão no parlamento, a não ser quando era para mostrar a sua ignorância e grosseria, principalmente com as mulheres e homossexuais.

Se isso não bastasse, o “capetão” cloroquina ao se tornar presidente povoou de militares os ministérios e autarquias do governo federal. Ouvi dizer que militares da ativa não podem assumir cargos públicos, mas não importa se esses militares são da ativa ou da reserva, a verdade é que deram a eles mais uma teta do Estado para mamarem, algo muito comum e corriqueiro para essa horda de fardados, que já mamavam em outra teta do Estado em suas respectivas forças armadas.

        Nesse processo de militarização do governo bolsonarento tivemos a nomeação em maio de 2020 do ministro interino da saúde, um General, que ao assumir a pasta, o Brasil registrava quase quinze mil mortos pela Covid-19, quando o mesmo foi efetivado como ministro (com o apoio dos militares), o registro de mortes era de mais de cento e trinta mil mortes, e quando de sua demissão em março de 2021 o número de mortes passava de trezentas e quarenta mil.

        Mas o mais incrível de toda essa história, é que esses militares das forças armadas, se orgulham da sua inutilidade (a qual eu comparo a mesma da profissão de Mis) e acreditam piamente que são imprescindíveis para a sociedade.

        O desembolso do Brasil com a defesa em 2020 somou US$ 19,7 bilhões, o que faz o país estar no 15º lugar no ranking das 40 economias com os maiores gastos militares no mundo. O custo benefício desse gasto com as forças armadas para a nossa sociedade é zero. Supondo que a partir de amanhã não tivéssemos mais as forças armadas, o que aconteceria? O Estado teria mais de 19 bilhões de dólares para investir na educação, saúde, moradia, saneamento básico, ciência e geração de empregos. Com certeza um investimento muito mais útil do que sustentar milhares de inúteis sanguessugas do Estado, que são sustentados pelo suor da classe trabalhadora.

Desde a segunda metade do século XIX essa estrutura militarista participa ativamente da nossa história social e política sempre ao lado dos interesses da elite conservadora e dos liberais reacionários.

        Após a constituição de 1988, isso piorou, porque esses inúteis passam a ter o direito de eleger e ser eleito, e assim, passam a ocupar as cadeiras do congresso nacional e a legislar contra os interesses da população excluída desse país.

            Enfim, além de inúteis como profissionais de farda, se tornaram parlamentares a serviço do que há de pior em nossa sociedade e em nosso país. O Capetão Bolsonarento é prova viva, está aí para confirmar e reafirmar a celebre frase da música do grupo Ultraje a Rigor “A gente somos inútil”.

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

SOMOS TODAS AFEGÃS

                         Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

Os Estados Unidos surpreendeu o mundo e também seus aliados ao assegurar a saída do Afeganistão de suas tropas, diplomatas e cidadãos. Outros países estrangeiros procederam da mesma forma.  E os afegãos, aterrorizados com a chegada do novo governo, despertaram a compaixão mundial ao buscar desesperadamente os aeroportos e outras caminhos para deixar o Afeganistão.

Embora os dirigentes do Talibã tenham declarado que os direitos humanos serão respeitados, reina a apreensão em quase todas as esferas, dentro e fora do país de que tal não aconteça. 

Há um segmento da população que nesse momento se encontra especialmente presente no coração de todos: as mulheres e meninas afegãs, que com a chegada do regime de força, veem-se ameaçadas de perder liberdade e direitos duramente conquistados nos últimos anos.  

Em universidades afegãs, professoras e alunas se despedem por ter certeza de não poder manter as atividades acadêmicas.  O Talibã segue à risca uma interpretação da lei islâmica, segundo a qual as mulheres não devem frequentar lugares públicos, como escolas e universidades; não podem sequer sair à rua se não forem acompanhadas por uma pessoa do sexo masculino; devem cobrir inteiramente o corpo e o rosto, usando burca, além de véu. 

 A ética do Talibã, que não é a do Islã como um todo nem sequer a da maioria, proíbe que o corpo da mulher seja visto por outro homem que não o marido. Isso confina as mulheres ao espaço doméstico e exila-as de possibilidades de crescimento pessoal, como estudos, trabalho, mobilidade nos transportes, viagens etc. Vestes que não sejam a burca são terminantemente proibidas, invisibilizando assim corpos e rostos das mulheres.  Para as meninas, vigora a mesma lei. Não podem sequer escolher seu futuro, que será decidido pelo pai ou, na falta deste, por algum parente do sexo masculino. 

Diante do que pode acontecer com as afegãs, algumas mulheres ilustres manifestaram sua preocupação e desacordo.  A chanceler alemã Angela Merkel, ao se inteirar da volta do Talibã a Cabul, qualificou a situação de “amarga, dramática e terrível”. Hillary Clinton, secretária de estado dos EUA durante o governo Obama, e o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau manifestaram também preocupação.

Nas ruas de Cabul reina o silêncio.  Os cartazes onde aparecem mulheres com rosto descoberto, maquiagem e cabelos à mostra são cobertos com tinta. Algumas ativistas de direitos de mulheres e crianças no Afeganistão estão dispostas a conversar com o governo talibã,  para mostrar a riqueza de recursos humanos que são as mulheres afegãs e tentar negociar a manutenção de direitos e liberdades conquistadas.  No entanto, há insegurança e apreensão no ar.  A vulnerabilidade das mulheres é como um fantasma que hoje paira sobre a cabeça de cada menina ou mulher afegã. 

Em 2009, aos 11 anos, Malala Yousafzai, ativista paquistanesa, assistiu à chegada do Talibã no Paquistão, onde vivia, e escreveu em um blog, sob pseudônimo, que se despedia para sempre de sua escola e amigas, certa de que não poderia mais voltar a estudar. A jovem se tornou conhecida no mundo inteiro por sua defesa da educação feminina no Paquistão. 

Em 2013, a caminho da escola, Malala foi baleada na cabeça e teve o olho esquerdo perfurado pelas armas talibãs, que assim procuravam impedir a repercussão de suas denúncias.  O governo britânico mandou um avião buscá-la no Paquistão e a menina recuperou-se após várias cirurgias. Aos 17 anos, Malala emocionou o  mundo ao receber o Nobel da Paz, sendo a mais jovem da história a quem foi outorgado este prêmio.  

Apaixonada pelos estudos e pela vida acadêmica, frequentou a universidade de Oxford, na Inglaterra, de grande prestígio, onde se formou em filosofia, política e economia, em 2020. Diante da tomada de Cabul pelo Talibã, a ativista usou as redes sociais para pedir ajuda das potências globais, sobretudo para mulheres, minorias e defensores dos direitos humanos. 

Impressiona a igualmente trágica trajetória de opressão da mulher pelo mundo por parte das estruturas patriarcais e pela força da violência. Susan Sontag, conhecida pensadora estadunidense, escreveu sobre o fato de a violência e a guerra serem um jogo masculino do qual as mulheres participam pouco ou nada.  Acrescentamos que a exclusão das mulheres de atividades que poderiam trazer-lhes desenvolvimento pessoal e social também o é. Assim como o desrespeito e a apropriação indébita e violenta dos corpos das mulheres, que sistematicamente têm sido velados, cobertos, invisibilizados, ao mesmo tempo em que suas vozes são silenciadas.  A resistência feminina é muitas vezes punida com a violência e a morte. O crescimento do feminicídio em tantos países, entre eles o Brasil, é uma prova cabal. 

Que neste momento tão difícil e delicado que vive o Afeganistão, suas mulheres não percam o que construíram ao longo de suas vidas; que suas meninas e jovens não sejam impedidas de sonhar e desejar um futuro e possam a ele ter acesso por meio da educação, do trabalho e da vida pública. Que os corpos e espíritos femininos possam ser e viver livres, como livres  foram pensados pelo Criador. Enquanto isso não estiver assegurado, as mulheres do mundo inteiro devem  repetir: “Somos todas afegãs”. 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Teologia Latino-Americana: raízes e ramos.

 Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

SOMOS TODOS IRMÃOS E IRMÃS

  

Por Frei Betto

O papa Francisco lançou, a 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, sua nova encíclica, “Fratelli Tutti” (Todos irmãos). Raro um documento deste porte não vir intitulado em latim, mas Francisco quis preservar a expressão holística do santo do século XIII, que se antecipou à física quântica e intuiu que, no Universo, tudo está interligado. 

       O papa faz uma crítica contundente à conjuntura mundial: “Quando redigia esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19, que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Com base nas várias respostas dadas pelos diferentes países, ficou evidente a incapacidade de uma ação em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afetam a todos” (7). E constata: “A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais” (11). 

       Enfatiza como a economia neoliberal condiciona a cultura: “Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque ‘a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos’ (Bento XVI). Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores. O avanço deste globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem, mas procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais que aplicam o lema ‘divide e reinarás’” (12).

       E não poupa críticas ao capitalismo: “O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se de um pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas para qualquer desafio que surja. O neoliberalismo reproduz-se sempre igual, recorrendo à mágica teoria do ‘derrame’ ou do ‘gotejamento’ – sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais. Não se dá conta de que a suposta redistribuição não resolve a desigualdade, sendo, esta, fonte de novas formas de violência que ameaçam o tecido social. (...) A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos” (168). 

       Após criticar aqueles que tentam anular a consciência histórica, o que torna, sobretudo os jovens, vulneráveis aos populismos, o papa critica as “novas formas de colonização cultural”: “Não nos esqueçamos de que ‘os povos que alienam a sua tradição e – por mania imitativa, violência imposta, imperdoável negligência ou apatia – toleram que se lhes roube a alma, perdem, juntamente com a própria fisionomia espiritual, a sua consistência moral e, por fim, a independência ideológica, econômica e política’ (cardeal Silva Henríquez). Uma forma eficaz de dissolver a consciência histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os percursos de integração é esvaziar de sentido ou manipular as ‘grandes’ palavras. Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para serem utilizadas como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdo que podem servir para justificar qualquer ação” (14). 

       O papa faz ainda um preciso diagnóstico desse niilismo eivado de ódio que se dissemina hoje: “A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. Com várias modalidades, nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores e, assim, a sociedade se empobrece e acaba reduzida à prepotência do mais forte. A política deixou de ser um debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efêmeras de marketing, cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro. Neste mesquinho jogo de desqualificações, o debate é manipulado para ser mantido no estado de controvérsia e contraposição” (15).

       Francisco mostra que o rei está nu: “Persistem hoje no mundo inúmeras formas de injustiça, alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo econômico fundado no lucro, que não hesita em explorar, descartar e até matar o homem. Enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada, e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados” (22). 

       O retrato do momento atual que o papa faz é impecável: “O mundo avançava implacavelmente para uma economia que utilizando os progressos tecnológicos procurava reduzir os “custos humanos’, e alguns pretendiam fazer-nos crer que era suficiente a liberdade de mercado para garantir tudo. Mas o golpe duro e inesperado desta pandemia fora de controle obrigou as nações a pensarem nos seres humanos, em todos, mais do que nos benefícios de alguns. Hoje, podemos reconhecer que nos alimentamos com sonhos de esplendor e grandeza, e acabamos por comer distração, fechamento e solidão; empanturramo-nos de conexões, e perdemos o gosto da fraternidade. Buscamos o resultado rápido e seguro, e encontramo-nos oprimidos pela impaciência e a ansiedade. Prisioneiros da virtualidade, perdemos o gosto e o sabor da realidade. A tribulação, a incerteza, o medo e a consciência dos próprios limites que a pandemia despertou fazem ressoar o apelo a repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e, sobretudo, o sentido da nossa existência” (33). 

       O papa prossegue: “Isto permitiu que as ideologias perdessem todo o respeito. Aquilo que ainda há pouco tempo uma pessoa não podia dizer sem correr o risco de perder o respeito de todos, hoje pode ser pronunciado com toda a grosseria, até por algumas autoridades políticas, e ficar impune. Não se pode ignorar que há interesses econômicos gigantescos que operam no mundo digital, capazes de realizar formas de controle que são tão subtis quanto invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático. O funcionamento de muitas plataformas acaba frequentemente por favorecer o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios” (45).

       Francisco denuncia o fanatismo religioso: “Deve-se reconhecer que os fanatismos que induzem a destruir os outros são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos, que podem fazer parte de redes de violência verbal por meio da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo na mídia católica é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia, e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia. Agindo assim que contribuição se dá para a fraternidade que o Pai comum nos propõe?” (46).  

       E para a nossa alegria, cita Vinicius de Morais: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”. E acrescenta: “Já várias vezes convidei a fazer crescer uma cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro. É um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos compõem uma unidade rica de matizes, porque o todo é superior à parte. O poliedro representa uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças. Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo. Isto implica incluir as periferias. Quem vive nelas tem outros pontos de vista, vê aspetos da realidade que não se descobrem a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões mais determinantes” (215).

       Há que ler toda a encíclica, disponível em português na internet. É uma aula de espírito crítico, humanismo e esperança. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros. Site e livraria virtual: www.freibetto.org

 Frei Betto é autor de 68 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 ®Copyright 2020 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

SOMOS, TODOS MAGOS E REIS E RAINHAS



Marcelo Barros

Por todo o Brasil, neste começo do ano, principalmente nos ambientes do interior, muitas comunidades vibram com danças populares que unem a fé e a cultura popular. Essa sabedoria nos ensina que, como cantava Chico Buarque: Deus é um cara engraçado que gosta de brincadeira. No Nordeste, as crianças dançam o pastoril e o reizado. Em Minas Gerais, Goiás e outras regiões, entre 25 de dezembro e 06 de janeiro, homens e mulheres simples percorrem as roças e refazem as folias de Reis. De casa em casa, levam a bandeira do Menino e invocam a benção divina para as famílias. Através de cânticos e do toque de tambores e sanfonas, encenam a peregrinação que, conforme o evangelho, magos, ou seja sacerdotes de religiões pagãs, fizeram do Oriente até Belém para homenagear a Jesus.

Pouco importa se a página do evangelho que conta a visita dos sábios do Oriente ao menino de Belém é de tipo simbólico. Os próprios magos não são figuras históricas, mas a tradição os tornou reis magos e fez da viagem deles, conduzidos por uma estrela, do Oriente até Belém o protótipo de toda a busca interior e profunda que as pessoas vivem. A tradição os retrata como símbolos de raças diversas. Todo mundo lembra de Melquior, o rei negro. No Oriente, um ícone medieval apresenta uma mulher no número dos magos que viajaram a Belém.

Em sua mensagem de Natal, Pedro Ribeiro de Oliveira chama a atenção para o fato de que, atualmente, vivemos na sociedade do mercado dominado pelo capital. Hoje, o mercado não é mais composto por  seres humanos, como eram as feiras do interior, onde o povo da roça troca sua produção por mercadorias industriais. Agora, o mercado é dominado por fantasmas chamados "pessoas jurídicas" que não têm outro objetivo na existência senão fazer multiplicar o capital nelas investido. Os seres humanos são meros empregados desses fantasmas. Devem, apenas, cumprir ordens anônimas que beneficiam o capital. (Como a Vale do Rio Doce, que este ano vai pagar mais dividendos aos sócios do que reparação às vítimas de seus crimes ambientais). Diante desses Herodes de hoje, bem piores do que o Herodes original, já que são corporações e não apenas um ditador, se torna mais importante do que nunca assumirmos o papel dos magos no caminho de Belém. Precisamos lembrar a esse mundo sem rumos que ouvimos a voz das estrelas. Mesmo de tradições, culturas e religiões diversas, nos reunimos e, juntos, vivemos a mesma aventura para apreender o mistério da vida. O sentido mais profundo das celebrações populares do Natal e dos Reis Magos é revigorar essa procura no mais profundo de cada crente. Hoje, os magos somos nós e todas as pessoas que não desistem da busca interior e se dispõem a aprofundar o  diálogo na escuta e no aprendizado uns com os outros.

Nos nossos dias, o papa Francisco tem insistido em que a fé cristã se vive na inserção no mundo atual, na solidariedade a todos os grandes problemas da humanidade. A missão de quem é de Deus é fazer como Jesus: criar pontes e não muros. Fazemos isso quando aceitamos nos despojar de nossa autossuficiência e nos inserir na comunidade humana e na comunhão de todos os seres vivos. Para retomarmos essa busca interior e nos abrir ao diálogo com todos os irmãos e irmãs que se colocam conosco nessa estrada, o Natal nos convida a começar de novo e aceitar ser como crianças abertas ao amanhã. Adélia Prado, nossa grande poetisa, tem um poema-oração que diz assim: "Meu Deus, me dá cinco anos. Meu Deus, me dá a mão e me cura de ser grande".  



 1] - MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

SOMOS TODOS PÓS-VERDADE?



 Frei Betto

       A resposta é sim, se comungamos essa angústia, esse sentimento de frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags; a chinesa, em capitalismo de Estado; e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita? 

       Quem diria que a especulação superaria a produção, e o valor intrínseco de um ser humano se deslocaria para os bens que possui (e seu valor não é reconhecido se não possui bens)? Quem diria que tantas pessoas haveriam de erigir o mercado como um deus ao qual prestam culto, e cuja mão invisível seria capaz de regular o progresso das nações sob a égide da economia? 

       Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da informatização, da robótica, a googletização da cultura, a celularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.

       Na pós-verdade, o sistemático cede lugar ao displicente; o articulado ao disforme; a teoria à conjectura. A razão delira e fantasiada de cínica baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Como proclamou Nietzsche, já “não há fatos, apenas versões.”

       Nesse mar revolto, muitos se apegam às “irracionalidades” do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia servil à Casa Branca, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas. 

       Já não se buscam grandes narrativas, paradigmas históricos, valores universais. Agora sopra o vento da “servidão voluntária”, na expressão La Boétie, e muitos se ajoelham aos avatares, convencidos de que a lei da força deve predominar sobre a força da lei.
       Para a pós-verdade, a história findou, e resta nos adequarmos ao tempo cíclico. O lazer, agora, se reduz a mero hedonismo, e a filosofia, a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade, as luzes da ribalta, o invencível Homem de Ferro. Já não importa a distinção entre urgente e prioritário, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e duradouro.
       A estética se faz esteticismo. E o que vale é o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. Tendemos a ficar reféns da exteriorização e dos estereótipos. 
       Para a pós-verdade, já não cabe o pensamento crítico, e ela abraça a razão cínica como Diógenes a sua lanterna. Prefere, nesse mundo conflitivo, ser espectadora e não protagonista, observadora e não participante, público e não ator. 
       A pós-verdade duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxa. Por isso, não crê em algo ou em alguém. Como a serpente Uroboros, morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesma, indiferente à dimensão social da existência.
       A pós-verdade tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.  
       O discurso pós-verdade é labiríntico, descarta paradigmas, e sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar artistas, autores clássicos e arrivistas que alcançaram 15 minutos de fama.
       A pós-verdade não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Sua visão de mundo é uma colcha de retalhos eivada de subjetivismo. 
       A ética da pós-verdade detesta princípios universais. É a ética de ocasião e conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.  
       A pós-verdade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde as sombras têm mais importância que o nosso ser, e as nossas imagens predominam sobre a existência real. 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
Copyright 2019 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com


terça-feira, 30 de julho de 2019

SOMOS TODOS AMAZÔNIA PARA A VIDA DO PLANETA





Por Marcelo Barros

Uma notícia ainda restrita à comunicação entre amigos na internet revela que  200 exemplares de um livro enviados do Uruguai para o Brasil, embora estejam com toda a papelada correta e notas fiscais em ordem, estão retidos na alfândega brasileira. O motivo seria o conteúdo dos livros. Trata-se de um documento feito a partir de consultas às diversas comunidades de bases e organizações da região amazônica sobre a realidade e os desafios da Vida na Amazônia. O documento, elaborado por teólogos/as, especialistas de várias áreas de estudo, tem como objetivo servir de subsídio à reunião dos bispos católicos em preparação ao sínodo mundial, convocado pelo papa Francisco, em Roma para o mês de outubro sobre a Amazônia. Tudo indica uma censura das autoridades brasileiras, o que configura uma postura de ditadura cada vez menos disfarçada. 

A notícia de uma censura sobre o Sínodo pode aguçar a curiosidade sobre porque o governo estaria censurando tal documento. Para responder a tal questão, podemos ler esse e outros documentos preparatórios nos sites de organizações como Amerindia, uma organização de teólogos/as cristãos de todo o continente  e REPAM (Rede Eclesial Pan-amazônica).
O que descobrimos ali é que o tema do Sínodo dos Bispos liga a Amazônia, o desafio da Ecologia Integral e a Missão das Igrejas na região. Há informações importantes que podem ser resumidas aqui. O texto afirma:

“A Amazônia é um território que se espalha por nove países: Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Suriname, Guiânia e Guiânia Francesa. Tem quase 8.000.000 de Km 2 que formam um bioma, sistema vivo de interações orgânicas, essenciais para o equilíbrio do planeta. Nessa região, vivem 35 milhões de pessoas, espalhadas pela floresta, margens dos rios, campos e grandes cidades. Quase três milhões pertencem a povos originários que falam 340 línguas diversas. Eles se relacionam harmoniosamente com a natureza, com os outros humanos e com o Mistério último da Vida que muitas religiões chamam de Deus. Esses povos formam comunidades, agredidas em sua ligação com a Terra, em seus valores espirituais e chamam as pessoas de bem a combater a exploração que destrói o planeta e submete a humanidade a desigualdade sempre crescente.

Cada metro quadrado do bioma Amazônia tem mais diversidade que qualquer outro lugar do planeta. Essa imensa diversidade de vida garante ao seu povo alimentos, medicamentos, azeites e outras dádivas que nem se podem calcular. O bioma regula a distribuição de chuvas por todo o território brasileiro e pelo Uruguai, Argentina e Paraguai. A água em forma de vapor cria o que se chama “rios voadores”, levados pelos ventos até o sul. Assim, abastecem de chuva praticamente todo o Brasil.

 Basta saber disso para nos darmos conta de que assim como todos os biomas são essenciais para a vida, a preservação e a defesa da Amazônia é fundamental para o equilíbrio do clima de toda a Terra. A própria vida no planeta, mas especialmente o clima em todo o Brasil depende da preservação da floresta amazônica e do cuidado com seu bioma frágil.

Quando o lucro é colocado acima de tudo, a sanha de destruir a natureza fica incontrolável. A terra, as águas e a floresta se tornam mercadorias a serem vendidas e compradas de acordo com a conveniência econômica dos seus pretensos prioritários. De acordo com estatísticas confiáveis, nos últimos dois anos, a destruição da floresta amazônica aumentou desordenadamente.

A ecologia integral não trata só do ambiente, da fauna e da flora. É um olhar holístico sobre as relações em nossa casa comum. Ecologia integral é uma forma de compreender a vida. Envolve pensamento, política, programa educativo, estilo de vida e amorosidade na relação com a natureza e com a sociedade humana. Essa relação de solidariedade e amor como postura social e política tem sido chamada por espiritualidade como atitude antropológica, mais do que como expressão religiosa. Ela se fundamenta na cultura tradicional dos povos, mas também em uma nova forma de olhar a Terra, as águas e toda a comunidade da Vida. Assim, sendo a Ecologia Integral implica diálogo entre a ecologia ambiental, econômica, social, cultural e da vida cotidiana. Considera os princípios éticos do bem comum e a justiça entre as gerações. Integra a justiça para escutar tanto o clamor da Terra, quanto o clamor dos pobres. Conforme a carta do papa Francisco sobre o cuidado da casa comum (Laudato sii) e o pensamento de estudiosos de todo o mundo, passar de uma compreensão convencional de ecologia para a vivência da ecologia integral implica conversão para assumir que tudo está relacionado (LS 216- 221). Esse modo de compreender a vida, baseado na sabedoria ancestral dos povos amazônicos, busca soluções integrais que unam os sistemas naturais e a realidade social. A crise é uma só: sócio-ambiental. A solução exige a luta contra a pobreza e o cuidado com a natureza. Tudo está interligado.

A grande variedade de povos que habitam na Amazônia depende de que se detenha o modelo de desenvolvimento depredador. Os povos em sua sabedoria, criaram sistemas produtivos rentáveis, sem derrubar a floresta (açaí, cupuaçu, castanha, peixes, etc). O que destrói o bioma é a monocultura (soja, gado, mineração). Também não serve o chamado “Capitalismo verde” que se rege pelas leis do mercado e transforma em mercadoria o que a natureza nos dá de graça. O Mahatma Gandhi já dizia que a terra, com suas florestas e suas áreas verdes preservadas, é suficientemente grande e maternal para alimentar toda a humanidade, mas nunca bastará para saciar a ambição da pequena porção de seres humanos que faz do lucro e da ganância a sua divindade. Para quem é cristão, o Evangelho adverte: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). 
 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

SOMOS TREVAS E LUZ

Por Ivone Gebara




Parece tão simples discorrer sobre a fé se apenas repetirmos o Catecismo que nos foi ensinado.

A gente decorava as verdades da fé e discorria sobre elas como aula bem aprendida.

A lembrança da fé como virtude teologal, como força dada por Deus para sustentar nossa vida diária na linha do bem e da justiça fez parte da formação religiosa de muitas pessoas.

A fé tinha apenas caráter construtivo positivo, estava só na direção do bem a todas as pessoas.

Entretanto, quando a pergunta vem depois de muitos anos vividos as respostas do Catecismo, embora conservem sua pertinência, já não fazem eco de nossa verdade, ou melhor, da verdade de minha fé nos limites de meu hoje.

O que é mesmo fé para mim? Já não tenho uma resposta ou uma definição precisa. Já não falo dela como algo seguro, coerente e claro. Já não sei determinar seus limites nem sua profundidade ou sua clara expressão.

Constato apenas que esse algo que chamo ou que chamamos fé habita no claro escuro de minha vida, na mistura e na contradição que sou e que vivo. Habita o meu cotidiano, colada à minha pele e misturada às minhas entranhas.

A fé ou a adesão que faço a valores e pessoas não se expressa apenas nas coisas positivas e bonitas que desejo que habitem nosso mundo.

Não vem de um Cristianismo aprendido, aquele que tinha respostas a todas as perguntas, embora as respostas fossem incompletas e parciais.

Mas, a fé hoje para mim é parecida com a constatação da miséria e da grandeza humana, fé como acolhida da desproporção que nos habita, que nos faz ser sempre maiores e menores do que pensamos ser.

Fé expressa de diferentes maneiras em tradições milenares de sabedoria humana que nos ajudam a acolher a inconstância e a constância variada e criativa de nossa história.

Vem-me ao espírito um texto do Evangelho em que Jesus denuncia aqueles que enxergam a palha no olho do outro e não percebem a trave que está em seu próprio olho.

Nessa linha, tenho percebido nossa maior ou menor cumplicidade na construção da violência e da crueldade no mundo, sobretudo quando apontamos em primeiro lugar para a irresponsabilidade e a injustiça dos outros.

É quase espontâneo em nós descobrir primeiro os culpados ou os inimigos que de certa forma perturbam a justiça social que imaginávamos.

Aqueles que não são como eu ou não pensam como eu me incomodam.

Até certo ponto essa atitude nos isenta da responsabilidade social pessoal e da apreensão do pluralismo que nos caracteriza. É comum que nos acusemos mutuamente de traidores ou de egoístas quando nosso bem próprio ou nossas ideologias estão em jogo.

A fé tem a ver com a acolhida dessa massa humana misturada da qual somos parte.

Tem a ver com a limitada realidade de nosso corpo marcado pela complexidade de sua constituição.

A fé é um ingrediente fundamental na complexa história de nossa vida.

Está presente na mistura de tudo com tudo… Na farinha e no fermento, na massa sovada, descansada e finalmente levada ao forno. Está no pão partilhado, no pão falsificado, no pão roubado. Está na lenha que se acendeu e assou o pão. Está no comércio do pão e em todos que o comem.

Creio em nossa responsabilidade coletiva na manutenção ou na tentativa de sanar o desejo de tirar proveito das pequenas e grandes coisas.

Os exemplos não faltam nas diferentes instâncias da vida familiar e social. Quem nunca se aproveitou de uma situação em beneficio próprio? Quem nunca atirou pedras sobre os outros, sabendo-se merecedor de outras tantas? Quem nunca aceitou glórias e benefícios mesmo sabendo-se pouco merecedor? Quem nunca mentiu para sair-se bem ou para ocultar uma situação embaraçosa? Quem nunca usou do nome de Deus para esconder-se de si mesmo e dos outros?

Somos trevas e luz… A fé está em nossa carne, esta carne que se entrega às vezes às pequenas e grandes corrupções e às vezes a grandes e pequenas causas.

Move-se de muitas maneiras dentro de nós mesmos. No fundo, nós e nossa fé somos um. Marcados por nossa história, nossos medos, nossas paixões e nossos interesses.

Além disso, ela é também o grito fundo que me acorda do torpor egoísta e me faz perguntar pelo outro, por meu vizinho, por minha filha, pela criança caída na estrada…

Outras vezes está na pura beleza da aurora de um novo dia, ou no entardecer luminoso de certos dias de outono ou num sorriso ou num olhar que desmancha nosso coração de prazer.

Por isso espero… Que o coração humano não seja soberbo e ganancioso. Que nos eduquemos para não desequilibrar a instável balança de nossa vida, para não destruir a beleza que nos rodeia, para não ficar indiferente à dor alheia, para não sermos os únicos a participar do banquete de maravilhas que a Terra azul nos oferece.

Minha fé e minha esperança se encontram, se dão as mãos, se assemelham, se misturam, se atraem, se conflitam, vivem uma da outra.

O que espero não são os novos céus e nova terra. O que espero não é a visão beatífica e a vitória total do bem… O que espero não é a Justiça total. Isto me deixaria até embaraçada, pois não sei qual seria esse Bem maior ou essa Justiça total imaginada por tantos.

Prefiro evitar os totalitarismos do bem, assim como tentamos evitar os totalitarismos do mal. Sei que ‘céus’, ‘terra sem males’, ‘bem absoluto’ são imagens tecidas de culturas passadas.

Sei que são linguagens a serem sempre decifradas de novo, visto que nutriram e nutrem os segredos de vida e as esperanças de muitas e de muitos.

Piso no chão, nas ruas empoeiradas, respiro a poluição, ouço lamentos e gargalhadas de prazer. Como agrotóxicos e bebo água imprópria para o consumo. Caio em armadilhas inesperadas. Tenho frio e muito calor. Tenho fome e excessos de gorduras. Vivo nesta carne e é dela que espero algo porque é nela e dela que vivo. Esta carne que somos nós, corpo da terra, animal, vegetal, marinha, humana é o lugar de minha esperança.

Esperança em pequenas coisas, em pequenos gestos capazes de revolver a terra seca que nos tornamos, de fazer voltar carne e músculos e ternura nos corações de pedra que construímos.

Crianças saciadas, gostando de ler e escrever, alfabetizadas e letradas. Adultos vivendo para além da ganância e da competição… Fim da produção de armamentos… E há ainda tantas outras boas coisas!

Será que dizendo isso estou fugindo do concreto, tirando os pés do chão, levitando nos ares? Creio que um pouco, sim… Esperar para além de toda a esperança é próprio dos seres humanos.

O impossível inclui o possível. E, a poesia é uma forma de esperar para além das esperanças, de comparar o azul do céu aos olhos da amada, o vento balançando as folhas do coqueiro aos cabelos da morena, o lobo e o cordeiro comendo no mesmo prato.

Sem essa dose de esperança louca para além das esperanças, a humanidade deixaria de ter sonhos e de fazer poesia.

A humanidade deixaria de ter fé na sua capacidade de destruir as armas de guerra e torná-las pás e arados para preparar a nova semeadura, deixaria de apostar de novo no amor e na justiça apesar dos muitos enganos.

Sim eu creio, tenho fé e espero… No pão partilhado de cada dia, na acolhida ao estrangeiro, no cuidado ao órfão e ao velho, ao drogado e ao alcoólatra, às vítimas de tantas guerras…

Eu creio, apesar do real escurecido que meus olhos veem hoje… Espero que as portas de alguns juízes iníquos se abrirão para atender as viúvas, que alguns governantes abraçarão o direito e a justiça e algo será um pouco melhor nas relações humanas.

Eu creio e espero que o calafrio que atravessa meu corpo quando capto a distância entre o que sou e o que faço me convidem sempre de novo a renovar a difícil unidade entre eu e eu mesma.

Calafrio incômodo e salutar ao mesmo tempo, pois abre a possibilidade da conversão, do aproximar-se de novo, do acreditar uma vez mais que o coração humano é apenas um frágil músculo de carne.

Os nomes que essas experiências recebem segundo as diferentes tradições religiosas e filosóficas não têm muita importância…

Os dogmas, as teorias, as grandes sínteses do pensamento, as grandes “revelações divinas” compiladas em livros sagrados não poderão nos ensinar nada se nosso coração não for capaz de enternecer-se diante de um homem faminto, de uma criança chorando de abandono, de uma mulher violada, de um estrangeiro buscando um lugar para viver.

O provisório da vida é o chão que pisamos e, é nele, que a fé e a esperança crescem. Por isso, a fé e a esperança nas coisas pequenas e aparentemente insignificantes nutrem a minha vida, fazem minha vida, sustentam minha vida.

Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.