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terça-feira, 6 de outubro de 2015

MUROS DA DESOLAÇÃO

Por Marcelo Barros



Nesses dias, o mundo recordou a unificação da Alemanha, quando no dia 03 de outubro de 1990, durante uma noite, milhares de pessoas derrubaram, com as próprias mãos, o muro de Berlim. Além de dividir uma cidade em duas, aquele muro construído no início dos anos 60, simbolizava a chamada "cortina de ferro" entre a Europa Ocidental e o Bloco de Leste. O muro de Berlim tinha 66,5 km de grade metálica, 302 torres de observação, 127 redes eletrificadas dotadas de alarme e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. As estatísticas oficiais falam em centenas de pessoas mortas e milhares aprisionadas na tentativa de transpor aquele muro.

Agora, a Alemanha celebrou o aniversário de 25 anos da queda do muro de Berlim, levantando um novo muro em suas fronteiras para deter a onda de migrantes que tentam entrar na Europa. Não era mais necessário um muro de tijolos e concretos e sim uma muralha de desamor, preconceito e discriminação.

 No momento atual, os migrantes servem para que os governantes de uma Europa em crise mortal desviem a atenção de seus eleitores para que não percebam os fracassos da política econômica oficial e da falta de perspectivas. Esses governantes fazem dos migrantes o inimigo externo do qual precisavam para fugir do julgamento coletivo. E jogam nos migrantes a culpa do desemprego e da decadência da sociedade europeia, provocada pelo veneno do que o papa Francisco tem chamado “a cultura da indiferença na qual o lucro é muito mais importante do que as pessoas”.

Durante séculos, as potências da Europa exploraram os territórios e as populações dos países africanos. Roubaram da África tudo o que podiam e condenaram os africanos à fome e à miséria. Agora, aos sobreviventes que fogem da morte, negam a última esperança de vida. Nos anos mais recentes, os mesmos governos da Europa, junto com o dos Estados Unidos, armaram os rebeldes da Síria e tornaram esse país um inferno vivo. Agora estranham que os sobreviventes de uma guerra mortífera batam às suas portas.

Na Idade Média se erguiam muros em torno das cidades. Agora, são países que constroem muros para se proteger de migrantes. Na fronteira dos Estados Unidos com o México, um muro alto percorre 300 km de extensão. Em sua sombra,  abundam cadáveres de latino-americanos, eletrocutados ao tentarem atravessar o muro, ou abatidos pelos guardas do Império. Um muro imenso separa o Estado de Israel dos territórios palestinos ainda não ocupados. Outros muros dividem a Índia do Paquistão. Mais violentos ainda do que os muros de concreto são os do mercado elitista que excluem milhões de pessoas de qualquer possibilidade de uma vida digna. No mundo inteiro, pessoas se comovem ao ver a fotografia do pequeno Aylan, a criança síria de três anos, morta em uma praia da Turquia, quando seus pais tentavam entrar na Europa. Mas, poucos dias depois da morte de Aylam, calculam-se em, ao menos 250 pessoas entregues à morte no Mediterrâneo para não aportarem nas costas europeias.

Embora alguns bispos e cardeais tenham se pronunciado para que a Europa só acolha migrantes cristãos, o papa apelou para que todas as dioceses, paróquias e conventos abram suas portas para acolher o maior número possível de migrantes e refugiados. A Bíblia lembra aos antigos israelitas: “Lembra-te que foste migrante e refugiado no Egito. Portanto, trata bem o estrangeiro que mora em teu meio”. E, para mostrar que Jesus retoma a vocação e o destino de Israel, o evangelho de Mateus conta que, assim que Jesus nasceu, José, seu pai, teve de fugir com a família para o Egito afim de escapar da perseguição do rei Herodes. Quando nenhum muro puder mais conter os direitos humanos de quem procura sobreviver e as fronteiras da Europa se mostrarem insuficientes para acolher as novas migrações, lembremo-nos de que, de um modo ou de outro, todos somos filhos de migrantes e refugiados. Somos todos filhos de uma única humanidade e, como irmãos e irmãs, cidadãos do planeta Terra, a nossa casa comum. Os cristãos são discípulos e discípulas de Jesus de quem São Paulo afirmou: “Ele derrubou os muros de inimizade que separavam os povos” (Ef 2, 13 ss).



 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A HOSPITALIDADE: DIREITO DE TODOS E DEVER PARA TODOS

Por Leonardo Boff



A questão mundial dos refugiados nos recoloca sempre de novo o imperativo ético da hospitalidade, no nivel internacional e também no nível nacional. Há migração de povos como nos tempos da decadência do império romano. São milhões que buscam novas pátrias para sobreviver ou simplesmente para fugir das guerras e encontrar um mínimo de paz.

A hospitalidade é um direito de todos e um dever para todos. Immanuel Kant (1724-1804) viu claramente a imbricação entre direitos e deveres humanos e a hospitalidade para a construção daquilo que ele chama de “paz perpétua”(Zum ewigen Frieden de 1795; veja Jacó Guinsburg, A paz perpétua, Ed. Perspectiva, São Paulo 2004).

Antecipando-se ao seu tempo, Kant propõe a república mundial (Weltrepublik) ou o Estado dos povos (Völkerstaat) fundada no direito da cidadania mundial (Weltbürgerrecht). Esta, diz Kant, tem como primeira característica a “hospitalidade geral” (algemeine Hospitalität: § 357).

Por que exatamente a hospitalidade? O próprio filósofo responde: “porque todos os seres humanos estão sobre o planeta Terra e todos, sem exceção, têm o direito de estar nele e visitar seus lugares e os povos que o habitam. A Terra pertence comunitariamente a todos (§358) “.

Esta cidadania materializada pela hospitalidade geral se rege pelo direito e jamais pela violência. Kant postula a desmontagem de todos os aparatos bélicos e a supressão de todos os exércitos, assim como o faz modernamente a Carta da Terra.Pois, enquanto existiram tais meios de violência, continuam as ameaças dos fortes sobre os fracos e as tensões entre os Estados, minando as bases de uma paz duradoura.

O império do direito e a difusão da hospitalidade generalizada devem criar uma cultura dos direitos que penetra as mentes e os corações de todos os cidadãos mundializados, gerando de fato a “comunidade dos povos”(Gemeinschaft der Völker). Esta comunidade dos povos, assevera Kant, pode crescer tanto em sua consciência que a violação de um direito num lugar é sentida em todos os lugares (§360), coisa que mais tarde repetirá por sua conta Ernesto Che Guevara. Tanta é a solidariedade e o espírito de hospitalidade que o sofrimento de um é o sofrimento de todos e o avanço de um é o avanço de todos. Parece o Papa Francisco falando dos seres humanos como seres de relação e que participam das dores dos outros.

Se queremos uma paz perene e não apenas uma trégua ou uma pacificação momentânea, devemos viver a hospitalidade universal e respeitar os direitos universais.

A paz, segundo Kant, resulta da vigência do direito, da cooperação juridicamente ordenada e institucionalizada entre todos os estados e povos. Os direitos são para ele, “a menina-dos-olhos de Deus” ou ainda “o mais sagrado que Deus colocou na Terra”. O respeito aos direitos faz nascer uma comunidade de paz que põe um fim definitivo “ao infame beligerar”.

Nos tempos atuais foi J. Derrida que retomou a questão da hospitalidade (De l’hospitalité, Paris 1977) conferindo-lhe o caráter incondicional para todos.

Mas foi ainda Kant que lhe deu a melhor fundamentação. Sua base é a boa vontadeque, para ele, é a única virtude que não tem defeito nenhum. Na suaFundamentação para uma metafísica dos costumes(1785) faz uma afirmação de grandes consequências: “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”. Traduzindo seu difícil linguajar: a boa vontade é o único bem que é somente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. A boa vontade ou é só boa ou então não é boa vontade. Se ela carrega suspeitas, logo não é boa. Ela supõe total abertura do outro ao outro e a confiança incondicional. Isso é factível para os seres humanos. Se não nos revestirmos desta boa-vontade, não vamos encontrar uma saída para a desesperadora crise social que dilacera as sociedades periféricas e os milhões de refugiados que se dirigem à Europa.

A boa vontade é a última tábua de salvação que nos resta. A situação mundial é uma calamidade. Vivemos em permanente estado de sítio ou de guerra civil mundial. Não há ninguém, nem as duas Santidades, o Papa Francisco e o Dalai Lama, nem as elites intelectuais e morais, nem a tecno-ciência que forneçam uma chave de encaminhamento global. Na verdade, dependemos uicamente da nossa boa vontade. Vale recordar o que escreveu Dostoievski em sua narrativa fantástica O sonho de um homem ridículo de 1877:”Se todos quisessem de fato tudo mudaria sobre a Terra num momento”.
O Brasil reproduz em miniatura a dramaticidade mundial. A chaga social produzida em quinhentos anos de descaso com a coisa do povo significa uma sangria desatada. Grande parte de nossas elites nunca pensou uma solução para o Brasil como um todo mas somente para si. Estão mais empenhadas em defender seus privilégios que garantir direitos para todos. Por mil manobras políticas, até com ameaças de empeachment, conseguem manipular os governos democraticamente eleitos para que assumam a agenda que lhes interessa e impossibilitar ou protelar as transformações sociais necessárias. Contrariamente à maior parte do povo brasileiro que mostrou imensa boa vontade, boa parte das elites se nega saldar a hipoteca de boa vontade que deve ao país.

Se a boa vontade é assim tão decisiva, então urge suscitá-la em todos. Todos têm o dever de hospedar e o direito de ser hospedado porque vivemos na mesma Casa Comum.


 Leonardo Boff é colunista do JB on line e escreveu: Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 2002.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

UMA NUVEM DE TESTEMUNHAS

   Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer

                                         
                             
            O Papa Francisco está de volta a Roma após sua viagem a Cuba e aos Estados Unidos. Torna-se difícil dizer, entre os vários discursos que pronunciou, qual o de maior impacto.  Assim como em Cuba a tônica foi a da reconciliação, parece-nos que nos Estados Unidos haveria que destacar seu discurso ao congresso, onde foi aplaudido e ovacionado várias vezes.

            Primeiro pontífice a falar no Congresso estadunidense, Francisco pronunciou ali um discurso considerado histórico por todos os analistas. Tocou em todos os pontos críticos da política interna e externa do país, não se desviando de nada que pudesse ser mais conflitivo ou arriscado. Falou como imigrante, cuja família veio da Itália para o sul do continente americano.  E recordou aos congressistas que ali todos ou quase todos partilhavam com ele da mesma condição.  Por isso, pediu o fim da “mentalidade de hostilidade” contra os migrantes e a passagem a uma “subsidiariedade recíproca: “Não tenham medo deles.  Olhem seus rostos.  Escutem suas histórias”, pediu aos congressistas.

            Não poderia faltar o tema do clima e do meio ambiente por ele tão bem tratado em sua encíclica “Laudato Sì”. Com relação a este tema, que divide republicanos e democratas nos Estados Unidos, Francisco afirmou ter o Congresso daquele país um importante papel a cumprir na luta contra os danos e agressões ao meio ambiente.  Pediu “ações valentes” neste sentido, dizendo estar convencido de que se pode fazer a diferença neste assunto.

            O discurso avançava e o Papa ia adentrando cada vez mais profundamente em temas polêmicos e candentes.  Chegou a vez de tocar na ferida da pena de morte, ainda tão presente e praticada nos Estados Unidos. Contra ela, o pontífice falou claramente.  Pediu sua abolição global, dizendo estar convencido de ser esse o modo correto de agir, já que toda vida é sagrada.  Neste ponto colocou-se inclusive mais radicalmente em favor da vida do que o próprio texto do Novo Catecismo da Igreja Católica, que admite o recurso à pena de morte se for a única via praticável para defender eficazmente a vida humana contra o agressor injusto.

            A posição papal nesta negativa frontal a tudo que produz violência e que agride a vida humana foi ainda reforçada com sua denúncia corajosa e veemente sobre o comércio de armas. Ao perguntar-se diante dos representantes eleitos de um país que ocupa o primeiro lugar no ranking mundial desse comércio “por que há tantas armas mortais sendo vendidas àqueles que pretendem infligir sofrimento a indivíduos e sociedades”, tocou fundo na causa primeira e maior de tal fato: " Infelizmente, a resposta, como todos nós sabemos, é simplesmente por dinheiro: dinheiro encharcado de sangue, frequentemente de sangue inocente.”  
      
            O mundo inteiro acompanhava, impressionado, o discurso sereno e corajoso de Francisco.  A força maior do que dizia, no entanto, não estava apenas com ele.  Invocou para acompanhá-lo quatro figuras humanas, quatro grandes cidadãos daquele país que encarnaram os valores que podiam fazer face aos contravalores que ameaçam hoje a vida e a harmoniosa convivência na grande nação do norte. 
            O primeiro foi Abraham Lincoln, presidente norte-americano que defendeu a liberdade e trabalhou incansavelmente para que a nação conhecesse uma nova aurora de liberdade.  O segundo, Martin Luther King, que assumiu como ideal e objetivo de vida realizar o sonho de plenos direitos civis e políticos para os afro-americanos.  A partir do famoso e grande discurso de Luther King no Alabama, “Tive um sonho”, Francisco se referiu aos Estados Unidos como a terra dos sonhos e lembrou os migrantes, tantos homens e mulheres que acorrem em massa ao país em busca da realização de um sonho que transforme suas vidas. 

            A terceira foi uma mulher: Dorothy Day.  Serva de Deus, em processo de canonização, esta ativista norte-americana foi citada por Bento XVI em sua homilia da Quarta-feira de Cinzas, imediatamente após a renúncia ao pontificado, como modelo de conversão.  Agora é resgatada por Francisco como exemplo a seguir na paixão pela justiça e pela causa dos oprimidos inspirada no Evangelho.

            Finalmente o quarto: um monge trapista, Thomas Merton, cujo centenário é celebrado neste ano de 2015. Homem de oração e pensador que desafiou as certezas de seu tempo, Merton, desde sua cela na Trapa, comunicou-se com o mundo inteiro através de seus escritos, abrindo novos horizontes para a Igreja.  Além disso – lembrou o Papa – foi também um homem de diálogo, promotor da paz entre povos e religiões.

            Francisco terminou seu discurso sob uma chuva de aplausos.  Mas fez sentir ao congresso dos Estados Unidos que tudo o que dizia recebia seu sentido maior da menção à nuvem de testemunhas que o rodeava.  Chamou a atenção para o fato de que uma nação é grande não quando é a mais rica do mundo, nem quando é a maior potência mundial e possuidora da maior quantidade de material bélico.  Nem tampouco quando faz tremer os mais fracos e vulneráveis com seu poder e a truculenta defesa de suas fronteiras.
            Mas a grandeza de uma nação se torna patente quando defende a liberdade como Lincoln; quando gera uma cultura que permite sonhar com a plenitude dos direitos para todos, como fez Martin Luther King; quando se identifica totalmente com a justiça e a causa dos oprimidos, como Dorothy Day; quando vive uma fé que se faz diálogo e semeia paz como Thomas Merton.  

            Assim partiu Francisco, deixando atrás de si a mensagem da Carta aos Hebreus, 12,1: Portanto, também nós, considerando que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, desembaracemo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos está proposta.

    Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, teóloga e autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.  
 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

SABER ENVELHECER


por Frei Betto





      Perder o emprego ou deixar de trabalhar por haver atingido a idade limite é sempre motivo de preocupação. Em geral, as pessoas saudáveis não estão preparadas para ficar em casa de pijama, assistindo à TV ou interagindo com a internet, o resto da vida.

      A velhice se tornou uma questão social. A natalidade se reduz em todo o mundo e, em muitos países, o número de idosos tende a superar o dos que se encontram em idade economicamente ativa. Os gastos com a previdência social pesam cada vez mais no orçamento das nações. Há países, como a Alemanha, que correm o risco de, em breve, terem uma população com mais estrangeiros do que nativos.

      Quem mais teme a velhice são os políticos. Vide a rainha Elizabeth II, do Reino Unido. No último dia 9, superou a rainha Vitória em longevidade no poder. Sua tataravó imperou durante 63 anos e 216 dias (1837-1901). Elizabeth II, coroada aos 25 anos, em junho de 1953, não demonstra o menor indício de abdicar em favor de seu filho, o príncipe Charles.

      Conheci um político que, ao atingir a idade compulsória, caiu em depressão. Como havia perdido sua função de poder, na qual hipotecara sua baixa autoestima, perdeu também o prestígio e a motivação de viver. Enquanto no poder, todos o procuravam e assediavam. Uma vez afastado, poucos se interessavam por ele, exceto familiares e uns tantos amigos. Ficava feliz quando um deles o convidava para jantar e, paciente, dava ouvidos às suas recordações dos tempos em que não precisava abrir a carteira para pagar a conta em restaurantes.

      O poder atrai como o açúcar às formigas. Aquele que o ocupa se sente obrigado a ser cuidadosamente seletivo quanto às suas amizades. Como uma espada de Dâmocles, paira sempre a indagação: meu amigo ou mero interesseiro? A maioria se enquadra na segunda hipótese. Uma vez destituída do poder, a pessoa é qual uma vela que se apaga. Não há mais luz. Já não atrai as mariposas. Queda na obscuridade. E surge a depressão.

      Aconselho àqueles que estão prestes a se aposentar: cultivem algum hobby, como colecionar selos, cuidar de abelhas, abraçar um trabalho voluntário... Algo que lhes seja muito interessante, a ponto de ansiar pela aposentadoria para se dedicar a ele. Assim, quando chegar o momento de se ver desempregado, o descartado não se sentirá preterido. Ao contrário, ficará liberado para, então,  entregar-se apaixonadamente à sua motivação mais profunda.

      Meu pai se aposentou precocemente, por força da ditadura militar. Como gostava imensamente de ler e escrever, ocupou-se com a literatura até transvivenciar aos 89 anos. A mesma motivação, centrada na literatura gastronômica, manteve minha mãe ativa até os 93. A velhice não lhes pesou.

      Aliás, a vocação artística é uma bênção divina. O artista está sempre entretido em criar mais e mais. Nunca se deixa tragar pela velhice. Não perde o ânimo pela vida. Pelo contrário, se queixa de que a vida é breve e ele dispõe de pouco tempo para os tantos projetos que lhe passam pela cabeça.

      A vida é como andar de bicicleta. Se parar, cai. Bem dizia Voltaire: “Quanto mais envelhecemos, mais precisamos ter o que fazer. Mais vale morrer do que se arrastar na ociosidade de uma velhice insípida: trabalhar é viver.”

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

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