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quarta-feira, 9 de março de 2022

PALAVRAS DE PEDRO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 



        “A mulher. Ela, nem menos nem mais. Secularmente marginalizada em quase todas as culturas e também, é claro, nesta machista América Latina que, de fato, é mais Mátria do que Pátria Grande, Abya Yala, terra virgem mãe em constante fecundidade.

        As mulheres, todas as mulheres, também as negras, e as índias também, e as pobres e as usadas e submetidas, estão se colocando em pé de consciência coletiva e organizada, e são, com muita frequência, suporte e maioria nas diferentes esferas do movimento popular. E serão cada vez mais. E não só na práxis, mas também no pensamento, não só na militância, mas também na liderança. E os homens e a Sociedade e a Igreja haverão de reconhecer e respeitar e dialogar, porque já a mulher latino-americana se reconhece ativamente, exige o respeito da igualdade e dialoga à altura fraterna. Nem quer os privilégios tolos de certo feminismo primeiro-mundista, nem aceitará facilmente que a Sociedade ou a Igreja continuem declarando como dogma de fé a presença e a ação da mulher num segundo plano subordinado”.

 

Pedro Casaldáliga, Agenda Latino-americana 1993.

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

terça-feira, 8 de março de 2022

Igualdade de gênero hoje para um amanhã sustentável

 Marcelo Barros 


 

Este é o tema que a ONU escolheu para a comemoração do dia mundial da mulher neste ano de 2022. Esta data, promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas), celebra as conquistas sociais, econômicas, culturais e políticas que as mulheres realizam no mundo e reforça a luta das mulheres pelo reconhecimento de sua dignidade, igualdade de direitos e protagonismo na construção de um mundo de iguais.

O tema deste ano sublinha que a causa da igualdade de gêneros é fundamental para toda humanidade e não só para as mulheres e tem profunda relação com a sustentabilidade do planeta. Só no respeito à diversidade de gêneros e no caminho da igualdade será possível a sustentabilidade da vida no planeta. Infelizmente, neste ano, celebramos esta data em meio às notícias da guerra na Ucrânia que revela as ambições do imperialismo dos Estados Unidos e o seu projeto de colocar mísseis nucleares na fronteira da Rússia, assim como também mostra os sonhos de hegemonia mundial da Rússia e da China. Em uma guerra como essa, as principais vítimas são sempre as populações mais pobres e entre elas, as mulheres e as crianças.

Infelizmente, no Brasil, na comemoração do 08 de março, precisamos nos dar conta de que, diariamente, aumentam as várias formas de violência contra a mulher. Muitas mulheres têm sofrido agressões dentro da própria casa, muitas vezes por parte dos companheiros. Ainda é comum o estupro e pior ainda o feminicídio, assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres. Além disso, a violência contra a mulher também toma caráter coletivo no tráfico de mulheres para a prostituição forçada que existe em todos os continentes e em certas políticas que insistem na discriminação da mulher. 

Devemos todos, homens e mulheres, valorizar e celebrar de todas as formas que pudermos o dia internacional da mulher, para que este possa se estender por todos os dias do ano como tempo de integração de gêneros e o mundo se torne espaço de comunhão no qual mulheres e homens possam viver a complementação de iguais.

Para quem cultiva a espiritualidade, seja em qual for a tradição religiosa ou fora das religiões, o Amor se manifesta como energia fecunda de vida. Os povos indígenas a veneram como Pachamama, mãe Terra. As tradições afrodescendentes a honram nas grandes Mães da vida,  como Iemanjá, Nanã, Obá, Euá, Oxum e Iansã.  A tradição bíblica revela que a divina Ruah, ventania, que os textos traduzem como Espírito Santo, se revela na força própria da mulher e no encanto do feminino em nossas vidas. Na carta aos gálatas, Paulo afirma: “Homens ou mulheres, somos todos um só no Cristo, Jesus nosso Senhor” (Cf. Gl 3, 28).

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b

segunda-feira, 7 de março de 2022

AMANDO PETRÓPOLIS

        Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

     Para Bruno Albuquerque, em memória de Bernardo e Sarah

 

            Talvez meu amor por esta cidade das montanhas da Serra do Mar esteja ligado a algo mais visceral do que sua beleza ao mesmo tempo augusta e pacífica; a seu clima ameno, tão convidativo quando o Rio ferve sob 40 graus à sombra.  Talvez não seja apenas as doces recordações dos verões passados aqui, quando meus filhos eram pequenos e eu os via correr com amigos – tantos e tão queridos – e saírem em bando e em segurança para festinhas e bailinhos de carnaval.  

            Não, não é apenas uma memória nostálgica de dias pacíficos e descansados, vividos e desfrutados sem pressa e com sabor delicioso. Em meio a toda essa teia de amores vividos na cidade florida e acolhedora está a figura de meu pai, que adquiriu a casa que agora herdei.  Quando aqui estou, lembro-me do último verão que aqui passamos com ele saudável e forte, cuidando do jardim e sobretudo da jabuticabeira que todo ano enchia os galhos com redondas e saborosas frutinhas pretas.  E sorvíamos a polpa e éramos felizes.  

            Eu tinha oito anos nesse verão e minha infância foi duramente atingida por sua morte alguns meses depois, levado prematuramente por uma doença cruel e fulminante.  Não voltei mais a Petrópolis por muitos anos. Já casada e com meu segundo filho recém-nascido, revisitei a casa da minha infância e fui feliz outra vez.  E agora, já avó, aqui venho descansar e cuidar desta casa, recebendo ocasionalmente a visita de filhos, netos e amigos. 

            Aqui estava no dia 15 de fevereiro, quando a água parecia querer carregar com sua força e fúria a cidade da minha infância. Durante três a quatro horas assistimos, impotentes, desde o interior da casa a cortina de água que não permitia sequer ver o jardim e muito menos a calçada.  Quando amainou, olhamo-nos nos olhos, meu marido e eu, com a intuição silenciosa e pasma dos sobreviventes. Pouco depois, a luz acabou. A casa estava intacta e nós também.  Mas ainda não sabíamos de toda a extensão da catástrofe que havia retalhado a cidade que amamos. 

            Dois dias sem eletricidade, obrigada a ir ao café da esquina para tranquilizar familiares e amigos, desmarcar compromissos de trabalho em home office etc.  Foi esse o tempo também de receber as notícias trágicas, que nunca gostaríamos de ter lido e ouvido.  As perdas, os desastres, mas sobretudo as mortes. São notícias que dão ao mesmo tempo a medida do tamanho da catástrofe, mas igualmente da capacidade de resiliência do ser humano e sua incrível resistência em meio à adversidade. 

            São imagens que jamais abandonarão minhas retinas e minha memória.  A mãe cavando o barro com uma enxada em desesperada tentativa de encontrar o corpo da filha adolescente.  O pai que, constatando que o esforço das buscas ia na direção de escavar os escombros em busca de corpos, passou a buscar por conta própria o filho adolescente que tomara um ônibus e fora tragado pelo rio e se encontrava perdido na rede fluvial da cidade. O jovem professor que celebrava o primeiro dia do filho de cinco anos na escola e em minutos perdeu a casa e tudo que possuía, porém mais que isso: os sogros, a esposa, o filho que levava ao colo e a filhinha bebê de um ano de idade. 

            Como não se enlouquece vivendo uma situação dessas?  De onde vem a força que faz seres humanos que passaram por essa tragédia ainda conseguirem falar, dar entrevistas à mídia, explicar, resistir e sobretudo...continuar? Além desses, as centenas de desabrigados que não têm onde morar e dependem da solidariedade alheia; como despertam a cada dia e seguem em frente?

            Sentimento análogo era o que emergia olhando para a cidade bela e querida.  Suas ruas e seu centro histórico encontravam-se enlameados, com muitos edifícios, lojas e casas totalmente destruídas. O cenário era de guerra.  Nos bairros onde havia construções nas encostas, derrubadas pelos deslizamentos, o lixo misturava-se aos destroços e ao barro. E neste cenário de guerra bombeiros e cães farejadores buscavam corpos.  Fotos, objetos e pertences se misturavam ao rastro da lama e da destruição, carregando consigo a história de vida de tantos e tantas. 

            Petrópolis agora não é mais apenas o suave lugar da minha paz e a doce recordação da minha infância e da infância dos meus filhos.  É um lugar de sofrimento e dor. A cidade que amei e amo está ferida e precisa ser reconstruída.  Tenho fé que assim será.  O volume da solidariedade que chegou após a chuva dá a dimensão de como essa cidade é amada. 

Apesar da negligência e da incúria do poder público, da falta de um planejamento urbano, aliado à mudança climática e às tempestades de verão que todo ano acontecem e vitimam algum ponto dessa bela serra fluminense, e a fizeram cair e deslizar sob a lama, ela ressuscitará. 

            Para isso é necessária a persistência na solidariedade e igualmente na reivindicação de um melhor planejamento urbano.  É necessário um amor forte e constante que crê ser a vida mais forte que a morte.  Mas também e não menos uma prática de amor que ampare os que estão desamparados e confia que Deus não paira acima dos acontecimentos,  sofre junto com as vítimas, chorando seu pranto e dando força a seu coração. 

            Amando Petrópolis... sempre.  

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: Entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

domingo, 6 de março de 2022

Saco Cheio

 Prof. Martinho Condini 


Caras companheiras e companheiros, me desculpem, mas desde de quando se iniciou a invasão da Rússia à Ucrânia, a postura do mundo ocidental imperialista diante deste fato é nojenta e asquerosa.

É muito primário a mídia ocidental imperialista querer apresentar o Putin como o lobo mau do planeta,  e o Zelensky um herói que simboliza o patriotismo ucraniano,  e achando que a Otan deve proteger o seu país.

A comoção mundial em relação a essa invasão é muito mais midiática que humanitária, digo isso, porque não vi essa comoção durante os dois anos de pandemia em relação aos países pobres da América, África e Ásia que estavam com um número elevadíssimo de mortes de Covid por falta de recursos básicos e vacina. Um detalhe os países mais pobres até hoje pelejam por vacinas.

Danem-se, quem está morrendo nos por causa dos ataques de drones norte-americanos na Somália, simultaneamente a invasão russa na Ucrânia, afinal de contas  são pretos, pobres, muçulmanos e africanos e se fossem latino americanos seria a mesma coisa.

Será que essa comoção mundial acontece porque os ucranianos são brancos e cristãos? E estão sendo atacados pelos russos?

Não me lembro dessa preocupação com o povo da Líbia, Afeganistão, Irã, Iraque, Líbano, Vietnã Nicarágua, Coréia,  Panamá, México, Chile, Haiti, Honduras e outros.

O mundo ocidental imperialista não se importa com as várias invasões ocorridas em Cuba para salvaguardar os interesses norte-americanos ao longo dos séculos XIX e XX, estão na ilha de Guam até hoje, sem falar do embargo comercial, econômico e financeiro que os cubanos sofrem desde de 1960. Não vejo a ONU incomodada com essa situação de Cuba.

Diante de todos esses fatos fica muito difícil acreditar em tudo aquilo que o ocidente Imperialista, branco, capitalista, neoliberal, judaico-cristão, racista e preconceituoso quer que acreditemos, e tentam nos convencer que o mal mora do outro lado, e que só os ocidentais imperialistas são justos e humanos.

É esse ocidente imperialista que se utilizou da mão de obra africana e os transformaram em escravos na América por quase quatrocentos anos, e até hoje os afros descentes pagam um preço muito caro por isso.

Este ocidente imperialista deu asas ao mais vil e repugnante dos seres humanos da história do século XX, responsável por milhões de mortes na segunda guerra mundial, e se não bastasse deixou seguidores e simpatizantes.  

Foi esse mesmo ocidente que em nome da paz mundial jogou duas bombas atômicas em duas cidades num país quem em bomba atômica tinha para revidar a essa violência covarde e brutal, ao final da segunda guerra mundial.

O ocidente imperialista não me convencerá de suas atitudes genocidas ao longo da história, que sempre foram realizadas em nome exclusivamente de seus interesses sobre qualquer civilização que ameace a sua supremacia.

Finalizo com um provérbio africano para reflexão, “Enquanto o leão não puder contar a sua história. O caçador terá sempre a última palavra”.