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sábado, 11 de julho de 2020

COVID 19 - QUADRAGÉSIMA NONA REFLEXÃO - POESIA E VIDA(5) EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

 por Frei Aloísio Fragoso

     Começo a sentir falta do meu parceiro Daniel Lima. Pela primeira vez escrevo-lhe o nome sem o título que lhe confere o ministério sacerdotal. Por mais de 40 anos ele afastou-se voluntariamente do exercício deste ministério. Por que? Perguntaram alguns leitores destas REFLEXÕES e outros continuarão perguntando. Não sei, nunca saberei. O que procuro entender são as razões por que o sinto companheiro, no sentido etimológico desta palavra, alguém que se senta à mesma mesa para comer o mesmo pão comigo. Sempre que releio seus poemas, sinto-me irmanado a ele, como dois concelebrantes de uma única Eucaristia. Isso a despeito de experiências vocacionais totalmente diferenciadas.

     Lembro do meu tempo de seminarista, quando ouvia dos meus educadores uma conhecida citação bíblica: "tu es sacerdos in aeternum". Traduzindo numa linguagem corriqueira: uma vez padre, padre eternamente. Com o desenvolvimento do pensamento teológico, me firmei na convicção de que este pensamento não traduzia a Verdade toda, mas só uma parte dela. O sacerdócio é um serviço e o padre um servidor. Como é lógico e natural, todo serviço só tem razão de existir enquanto haja o que ou a quem servir. Portanto, o sacerdócio imprime um caráter temporal, não um caráter eterno, na pessoa. Na eternidade eu não teria a quem pregar o Evangelho e perdoar os pecados. Já estou bastante feliz de ser padre aqui na terra, por tantos anos, e confiante de o ser para sempre. Contudo, esta visão teológica ajuda a avaliar com empatia o enclausuramento do Pe. Daniel.

    Entre os leitores destas REFLEXÕES, uns viram em seus poemas sinais de frustração pessoal, outros, sintomas de uma espécie de bipolaridade, outros ainda, uma forma de insatisfação com a Instituição eclesiástica. Dou-me o direito de expressar também a minha opinião. Ela não passa de uma conjectura, daí a pergunta em  modo condicional: teria o Pe. Daniel se enganado na escolha da vocação? Nesse pressuposto, com o passar dos anos, alcançou a plena consciência disso e preferiu afastar-se do ministério do que seguir adiante só na aparência. Toda farsa é abominável, mas nenhuma tanto quanto a que se esconde em vestes sagradas.

     A partir daí ele assume outra forma de evangelização: ajudar as pessoas a pensar, destrinchando-lhes a condição humana cheia de grandeza e pequenez, carregada de contradições.

    Dos poemas que me levaram a fazer esta leitura, impressionam-me  particularmente alguns focados na figura do pai e da mãe. Exponho-os aqui, seguro de não ferir a ética, porque eles foram publicados sem nenhuma censura. E também porque acredito que este assunto tem uma abrangência universal, afeta milhões de pessoas na sua escolha e realização vocacional.

 

Minha mãe era feita de incertezas

Tecida de solidão de infindas luas.

Nunca assentou seu coração viajeiro

de medo de esquecer o fim da viagem.

Não dormia, sonhava,

vivia os sonhos acordada e louca

e amava a vida

com tal ódio e paixão,

que até se percebia nos seus olhos,

nas mãos, nos gestos,

na vontade de ser e no desespero

de não ser nunca e ainda.

E eu perguntava coisas

e ela não respondia,

apenas navegava incertos mares,

guiada por estrelas que eu não via.

Minha mãe era feita de incertezas,

mas, por certo, sabia o que queria.

 

 

Meu pai era um homem intermitente e palúdico

Como vagalumes na noite.

Piscam - e ei-los.

Não piscam - e não ei-los.

Agora, aqui.

E não agora, lá.

Acendendo, apagando,

Incerto e leviano,

logo chegando, logo se despedindo.

Um dia, foi chegando

e disse adeus. E ficou-se.

Outra vez: "Até logo!"

E não voltou para sempre.

 

 

Minha mãe era anoitecida.

Às vezes orvalho, às vezes estrela.

De repente, ria. De repente, chorava.

Falava sozinha enquanto trabalhava.

Resmungos, ou não sei se filosofia.

Descascava batatas, partia cebolas

e sonhava.

"Para não perder tempo", dizia.

Com que seria que minha mãe sonhava?

 

 

Meu pai, homem de espírito

mas de pouca alma.

Impermanente homem, viveu improvisando,

discutia impossíveis,

vagabundo de múltiplas paixões.

Descaradamente amava o efêmero das coisas.

Nunca ficou o mesmo.

Não sabia quem era, mas apenas que era.

E então corria antes que a vida lhe passasse à frente.

E eu, tão diferente, rebelei-me

contra meu pai.

E, por isso, imitei-o

(e, como ele, perdi-me,

que imitou seu pai).

 

 

Meu pai não existiu.

Foi um traço no ar.

Me fez e se desfez

como uma nuvem no céu.

Suas mãos não eram.

Seus olhos foram.

E eu, sou?

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ao dobrares aquela rua

não serás mais o mesmo

que caminha para lá

neste instante.

a cada passo cresce e muda a vida

pois para ser

tem de tornar-se outra.

ao chegares ao fim da rua

outro serás, que és tu,

nascido do caminho que fizeste.

(Pe. Daniel Lima)





FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

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