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terça-feira, 5 de outubro de 2021

A criação ao nosso cuidado

Marcelo Barros


 

Nesta segunda-feira, 04 de outubro, se encerra o “tempo da criação”. Desde 2015, o papa Francisco, o patriarca ortodoxo Bartolomeu I e várias Igrejas cristãs propõem que, a cada ano, consagremos este tempo de 01 de setembro a 04 de outubro, para intensificar a oração e o cuidado com a mãe Terra, a natureza. Antes, quando falávamos em criação, parecíamos estar nos referindo apenas à doutrina segundo a qual, no princípio da história, Deus criou o universo. Muitos povos e culturas guardam belas tradições poéticas e mitos significativos sobre a origem do mundo e da humanidade. No entanto, atualmente, quando nos referimos à criação, estamos afirmando que todo ser vivo e tudo o que existe tem um sentido em si mesmo e é expressão do amor divino. Precisa ser respeitado e merece cuidado.

Na encíclica sobre o cuidado com a Terra, nossa casa comum, o papa Francisco afirma: “Na tradição judaico-cristã, dizer criação é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com o projeto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado. A natureza entende-se habitualmente como um sistema que se analisa, compreende e gere, mas a criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos e todas, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal” (Laudato si, n. 76). 

Nunca foi tão atual reafirmar isso nesse momento do mundo no qual a própria ONU tem publicado informes que revelam mudanças climáticas produzidas pela ação destruidora da sociedade. Conforme a ONU,  a cada ano, sete milhões de pessoas morrem devido a doenças provocadas pela poluição do ar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que 80% da população da Terra está exposta ao menos a um poluente grave. 1/3 da população do planeta não tem acesso à água potável de qualidade e metade da população não conta com saneamento básico. No Brasil, encerramos este tempo da Criação com notícias trágicas sobre um número recorde de queimadas em todos os biomas brasileiros e o anúncio de uma carência de água que já afeta todas as regiões do país.

 Neste mês de outubro e em novembro, a ONU realizará duas conferências mundiais sobre mudanças climáticas e cuidado com a ecologia. No entanto, de antemão, já sabemos que as mudanças profundas que seriam necessárias para curar o planeta Terra não poderão vir de governos que atuam como simples gerentes das empresas multinacionais e de seus interesses. Para termos qualquer vitória sobre esses desafios tão urgentes, precisamos com urgência mudar o sistema econômico dominante e instituir processos democráticos que representem realmente a maioria das pessoas e comunidades que habitam a Terra.

Mudanças tão profundas nunca ocorrerão sem uma transformação da cultura, através de uma mais profunda educação ecológica e de uma espiritualidade de amor e cuidado com  a Mãe Terra e todos os seres vivos. Infelizmente, nas Igrejas cristãs, esse tema da Ecologia é acolhido como bom e útil, mas como se fosse algo para além da fé. Só haverá mudança profunda se a Ecologia Integral for considerada como elemento central e essencial da própria fé.

A celebração deste tempo da criação de 2021 se encerrou nesta segunda-feira, 04 de outubro, não apenas para voltar daqui a um ano e sim para que este encargo nos seja entregue como missão. Que façamos de todos os meses e dias do ano um tempo permanente de cuidado amoroso com a Criação.   

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O SÍNODO DA AMAZONIA E O FUTURO DE TODA A CRIAÇÃO



                    Por  Maria Clara Bingemer

"Sínodo" é uma palavra antiga muito reverenciada pela Tradição da Igreja, cujo significado está associado ao conteúdo mais profundo da Revelação. Palavra grega, é composta pela preposição (syn – com, em conjunto) e pelo substantivo (odos – caminho).  Indica, pois, o caminho tomado pelos membros do Povo de Deus no seguimento de Jesus. Refere-se diretamente ao Senhor Jesus, que se apresenta como "o caminho, a verdade e a vida”, e o fato de que os cristãos, seus seguidores, eram originalmente chamados "os discípulos" do Caminho ”.


Aplica-se, portanto, aos cristãos, discípulos de Jesus convocados em assembleia e, às vezes, aparece nos textos como sinônimo da própria comunidade eclesial. Como esta é concebida como Povo de Deus a caminho, a sinodalidade não é algo pontual e acessório na Igreja, mas sim seu estado permanente. A Igreja quer ser sinodal, estar sempre em caminho unida no seguimento de Jesus Cristo.  O papa Francisco tem valorizado muito esta nota e este modo de a Igreja ser.  E nesse espírito convocou o Sínodo da Amazônia, acontecido há pouco em Roma.

O documento final dá conta da motivação que levou a convocar o Sínodo e o fruto daqueles dias de caminho.  Na origem está a situação de destruição que afeta a Amazônia e com ela toda a terra e a humanidade.  Se continuar o processo agora vigente, o resultado pode ser a destruição do território amazônico e de seus habitantes, sendo os mais afetados os povos indígenas. E isso impactará em todo o planeta, já que a desaparição do bioma amazônico será catastrófica.

A nota característica do Sínodo foi o desejo e a demanda de integração da voz da Amazônia com a voz e o sentir dos bispos participantes, pastores da Igreja.  Foi, no dizer da assembleia reunida sinodalmente, uma nova experiência de escuta para discernir os novos caminhos pelos quais o Espírito deseja conduzir a Igreja.  Assim, o Sínodo, mais que um evento eclesial, foi um compromisso de abraçar, assumir e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da “casa comum” e a defesa da Amazônia.

Vimos todos nas mídias mais variadas a presença dos povos originários dentro do Vaticano.  Seus símbolos povoaram nosso raio visual com cocares, que inclusive foram usados pelo próprio Papa e por bispos presentes. Tudo isso é a valorização das culturas autóctones indígenas, algo sem precedentes.   O documento final declara ser indispensável uma conversão ecológica para uma vida sóbria.  Isso implicará mudanças de mentalidade, estilo de vida, modos de produção e práticas relativas ao uso e distribuição dos bens.

O documento diz ainda que a Igreja é chamada a assumir seu papel profético de denunciar a violação dos direitos humanos das comunidades indígenas e a destruição do território amazônico. Para isso, deve ser uma igreja pobre, inculturada e samaritana. Pronta para a solidariedade e a partilha com os povos que habitam a Amazônia e dela vivem, e pedem ao mundo atenção e participação ativa na luta por sua sobrevivência.

Durante a celebração do Sínodo um grupo de bispos renovou o Pacto das Catacumbas. Mais de 40 participantes, sob a liderança do cardeal Cláudio Hummes, relator do Sínodo, assumiu o compromisso de defesa dos pobres, dos territórios e da conservação socioambiental da Amazônia. O texto do pacto – que recebeu o nome de Pacto das Catacumbas pela Casa Comum – se apoia na Encíclica Laudato Si do Papa Francisco.

Algumas questões importantes quanto à organização da Igreja também foram debatidas, tais como a ordenação de homens casados e a criação de um diaconato feminino para atender a região amazônica, onde o clero é muito escasso e  demanda ministros afinados com a cultura local. Estes pontos, assim como todos os outros, devem ser cuidadosamente examinados pelo papa, que então entregará um documento oficial e definitivo em alguns meses.

Em todo caso, segundo o próprio papa, em vídeo amplamente difundido, no momento o principal é assimilar bem o diagnóstico que o Sínodo faz da situação da Amazônia e as urgências que dele decorrem.  Este é o encargo mais importante a ser completado neste momento não apenas à Igreja, mas a toda a sociedade.


 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br> 


sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A CRIAÇÃO DO BODE EXPIATÓRIO: O ANTI-PETISMO



por leonardo boff
René Girard (1923-2015), pensador e filósofo francês, o maior sábio que conheci na minha vida e esteve com teólogos da libertação no Brasil em 1990, dedicou grande parte de sua vasta obra a estudar a violência, especialmente a necessidade de uma sociedade, de criar um bode expiatório (ver O bode expiatório 1982).
Por esse mecanismo do bode expiatório, a população é levada a descarregar a corrupção que está difusa e concentrada nos grandes corruptos e corruptores nas costas de um só, do PT, com a finalidade de esconder a própria corrupção. Com isso, toda a sociedade passa a esquecer os reais corruptos e a pensar que que ela está somente no PT no qual se despeja toda a raiva e o ódio. É feito bode expiatório já testemunhado na Bíblia. Os hebreus punham em cima de um bode todos os pecados e malfeitos do povo e o enviavam para o deserto para lá expiar até morrer de fome. E assim quase todas as sociedades faziam algo semelhante.
Entre nós houve um tempo em que o bode expiatório eram os subversivos, depois os comunistas (continua ainda hoje), em seguida os jovens negros das favelas, supostamente ligados ao crime e às drogas, os gays e os da LBGT. Sobre eles se transfere a violência implícita na sociedade. Neste momento o bode expiatório é o PT e Lula. Neles se põe toda a corrupção, embora quase todos os partidos, alguns mais que o PT, participaram da corrupção.
Com o apoio do aparelho repressivo do Estado, de boa parte do Ministério Público, não excluída parte do próprio STF, da classe media e especialmente da mídia privada, fez-se essa seletividade quanto à corrupção. Ao PT se joga toda culpa pelos males atuais do Brasil, quando os principais causadores se escondem criando um bode expiatório.
Mas o que verdadeiramente está por trás do anti-petismo, sob pretexto de combate à corrupção é o ódio ao ex-presidente Lula, um operário que logrou chegar ao centro do poder. A classe dominante e as oligarquias tradicionais, herdeiras da mentalidade da Casa Grande, jamais aceitaram que alguém da Senzala chegasse ao Planalto. Cultivaram e cultivam ódio e desprezo aos pobres, antes jogado sobre os escravos. Como pode um pobre frequentar o mesmo espaço social que eles: na escola. na universidade, nos shoppings, nos aviões?
Estes eram espaços de exclusividade dos endinheirados que viveram sempre de privilégios, sem senso da igualdade de todos, base de qualquer democracia. Acresce ainda aqueles que nunca reconheceram humanidade e dignidade nos pobres e negros e negras sem falar dos indígenas e quilombolas.
Agora esse ódio, latente nas oligarquias e assumido, em parte, pela classe media assustada, contaminou, não sem ajuda das igrejas neo-pentecostais televisivas, parte da população pobre.
Aqui reside a raiz primeira do anti-petismo. Há ódio e raiva recalcados em pessoas que se dizem “de bem” e se confessam cristãs. É um cristianismo meramente cultural, de fachada, mas eticamente anti-cristão.
A mídia empresarial que nunca se deu bem com a democracia e que nutre um soberano desprezo pelo “povão” ou “povinho”, ou “ralé” na expressão técnico-provocativa de Jessé Souza, jogou um papel decisivo na difusão do anti-petismo e do ódio.
Para o anti-petismo valeram todos os meios. Basta ver os blogs. os twitters e os facebooks sem falar do incontrolável meio do WhatsApp que criou redes de difamação e fake news contra o PT e o candidato Haddad.
Agora sabemos que milhões de mensagens falsas, foram financiadas por empresas privadas que, segundo a nova legislação, é crime de caixa dois.
Mas esta é a lógica da política regida pelo conceito do bode expiatório, política de ódio e de agressão do outro. Assim como existe o bulling nas escolas, agora o bulling coletivo é contra PT. Mas há que resistir à essa ignomínia. A sociedade inteira deve fazer uma revisão de seus anti-valores, de sua corrupção cotidina.
O Sindicato dos Procuradores da Fazenda (SINPROFAZ) relata que até o dia 18/9/2018 cerca de 450 bilhões de reais foram sonegados, particularmente pelas grandes empresas. Nos últimos 10 anos elas deixaram de pagar 1,8 trilhões de reais. Essa não é a grande corrupção? Quem vai contra ela? Que faz o Ministério Público e o próprio STF?
Se parte desta dívida fosse cobrada, não se precisaria nenhuma reforma da Previdência É mais fácil e cômodo criar um bode expiatório, o PT, e destarte esconder a corrupção que grassa na sociedade, até no cotidiano do suborno a policiais de trânsito.
Rejeitamos esta lógica do bode expiatório por ser seletiva, injusta, desumana e profundamente anti-ética, como denunciava sempre René Girard.
Leonardo Boff, filosofo, teólogo e co-editor do livro René Girard com teólogos da libertação,Vozes 1991.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

DIA DA CRIAÇÃO

Por Marcelo Barros



Pela primeira vez na história, diversas Igrejas cristãs e até outras religiões se unirão nessa semana para orar e meditar sobre o cuidado com a Terra, a água, o ar e todo o universo no qual nós, seres humanos somos inseridos e ao qual pertencemos. Desde a década de 70, a cada ano, o patriarca de Constantinopla propõe que todas as Igrejas Orientais dediquem o 1o  de setembro como "dia de oração e cuidado com a Criação". Em agosto do ano passado, o papa Francisco enviou uma carta a todas as dioceses pedindo que a Igreja Católica também se una a essa celebração. Por sua vez, o Conselho Mundial de Igrejas convidou as Igrejas evangélicas, membros do Conselho para entrarem nessa mesma sintonia de cuidado com o ambiente. E, nesses dias, algumas notícias da internet contam que grupos hindus e budistas quiseram também unir-se a essa iniciativa ecumênica e ecológica.

Orar e meditar sobre a natureza como criação significa contemplar nela uma presença ativa do Criador que, permanentemente, continua conduzindo o universo no rumo do seu amor. O ser humano só mudará a sua forma de relacionar-se com os seus semelhantes e com os outros seres vivos se optar por um olhar de amor sobre o universo. Ao aprofundar a relação consigo mesmo e com os outros, é fundamental pressentir uma marca divina por trás de cada ser do universo.

Atualmente, o planeta Terra abriga mais de sete bilhões de pessoas. Nos próximos 50 anos, a previsão é de que o mundo tenha entre 8, 5 a 9 bilhões de habitantes. Mas, como viverá essa população, se metade dos recursos hídricos disponíveis para consumo humano e 47% da área terrestre já são utilizados? E ainda assim mais de um bilhão de pessoas passa fome e, a cada dia, mais de 30 mil morrem por este motivo?  Estudos afirmam que a relação entre crescimento populacional e o uso de recursos do Planeta já ultrapassou em 20% a capacidade de reposição da biosfera e esse déficit aumenta cerca de 2,5% cada ano. Isso quer dizer que a diversidade biológica – de onde vêm novos medicamentos, novos alimentos e materiais para substituir os que se esgotam – está sendo destruída muito mais rápido do que está sendo reposta. Esse desequilíbrio está crescendo. Até 2030, 70% da biodiversidade poderá ter desaparecido...”[1].

Apesar de tudo, uma profunda esperança brilha sobre a Terra. Ela vem do fato de que, no mundo inteiro, a cada dia, cresce o número de pessoas e grupos que aprofundam a espiritualidade e se põem em diálogo para buscar novos caminhos. O resgate da dignidade da Terra, da Água e do Ar está na ordem do dia de grupos espirituais das mais diversas tradições. As próprias Igrejas cristãs que, durante séculos, pareciam não ligar o ato criador de Deus com sua atuação salvadora na história, nas últimas décadas têm todas aprofundado essa questão. Em maio do ano passado, o papa Francisco dirigiu a toda humanidade uma carta sobre o cuidado com a casa comum. Nessa carta, ele se une a Bartolomeu, patriarca de Constantinopla, na insistência em unir o cuidado ambiental com a preocupação pela justiça social e econômica. Ao mesmo tempo, ensina que a raiz de tudo é um novo olhar espiritual sobre o universo como criação amorosa de Deus. 

 Na América Latina, um dos mais importantes sinais de esperança para a causa ecológica é o fortalecimento dos movimentos indígenas. Esses têm proposto como novo paradigma civilizatório o cuidado com o Bem-Viver que implica priorizar a vida comunitária, as relações humanas e a relação harmoniosa com a natureza como formas de organizar a sociedade. O cuidado com a Terra, a Água e todos os seres vivos se torna elemento central do processo social e político, assim como de uma nova sensibilidade espiritual. Todos nós somos convidados a participar ativamente dessa celebração de amor, como um casamento entre o céu e a terra.  


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

[1] - INSTITUTO SOCIO-AMBIENTAL, Almanaque Sócio-ambiental Brasil 2008, São Paulo, 2007, p. 33. 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

HOJE É O DIA DA CRIAÇÃO

Por Marcelo Barros


Em um gesto ecumênico e de preocupação com a crise ecológica que o mundo atravessa, o papa Francisco assumiu uma iniciativa das Igrejas orientais (Ortodoxas) e decidiu que, a cada ano, o 1o de setembro seja comemorado como o dia anual de oração e cuidado com a criação.

De acordo com a ciência atual, não há mais sentido em se falar de uma criação, como evento único e completoque Deus teria realizado no começo de tudo. A partir de dados observacionais, o astrônomo norte-americano Edwin P. Hubble (1889 – 1953) introduziu na ciência o conceito do universo permanentemente em expansão. Talvez, no século XX, essa foi a maior descoberta feita pela Cosmologia. Conforme o a Ciência, o Cosmos não somente está incompleto, como em um processo de evolução que, nos tempos atuais, parece estar se acelerando. Isso significa que se, de fato, existe divindade criadora, ela está ainda e sempre em atuação. Não criou uma vez por todas e depois abandonou a criação à própria sorte. Mesmo as pessoas de Ciência que creem em Deus, o contemplam como incorporado ao universo. O Espírito Divino seria como a alma do corpo que é a natureza. Tudo não é deus, mas Deus está em tudo. Crer que Deus está presente e atua na evolução do universo é apostar que o mundo tem futuro e é nossa responsabilidade testemunhar isso. Em sua carta sobre o cuidado com a terra, como casa comum, o papa Francisco esclarece: “Na tradição judaico-cristã, dizer que a natureza é criação divina tem a ver com um projeto de amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado próprios” (n. 76). “Há uma mensagem de cada criatura na harmonia de toda criação” (n. 84).

Quem gosta de Cinema se recorda que, no filme “2001, Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick (1968), havia um monolito misterioso que emitia um som e atraía os seres humanos a novos horizontes do universo. Era uma parábola do que alguns cientistas chamaram de “a melodia secreta do cosmos”.É tarefa da ciência decifrar essa mensagem vinda do universo. Ela é complexa. Pelo que dizem as pessoas que estudam, quando há uma nova descoberta da ciência, surgem outras questões mais novas e, cada vez mais desafiadoras. Neste contexto, a primeira pergunta é o que o universo nos diz sobre nossas vidas e nosso destino, temas que antes perguntávamos à fé e às diversas religiões. 

Atualmente, os cientistas sabem da existência de bilhões de galáxias. Somente a nossa galáxia, cujo diâmetro alcança mais ou menos 300 mil anos luz, pode contar 200 bilhões de estrelas que giram em torno do seu centro. Em um pequeno planeta, localizado na orla de uma dessascem bilhões de galáxias, cada uma delas com mais de dez bilhões de estrelas, há cerca de apenas duzentos mil anos, vive a humanidade.

Basta isso para concluirmos: não somos o centro de tudo. A terra e a natureza não existem em função do ser humano.  Elas têm sua autonomia e sua mensagem própria.Por outro lado, não estamos aqui por acaso. Temos uma função importante. Fazemos parte da criação divina  para ser como seus representantes no cuidado com todas as criaturas. Na relação com a natureza, não podemos ser como pessoas que vão ver um filme, não por causa do filme em si e sim por causa do ator principalque, no caso, seria Deus. Ele próprio nos pede: “prestem atenção ao filme e não ao artista!”. A natureza, com sua autonomia e suas propriedades, contém como uma nova revelação amorosa para nós, homens e mulheres do século XXI.
Nesse 1o de setembro que a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas celebrarão a nossa relação com a natureza, descubra que diariamente é dia da criação e nós fazemos parte dessa ação amorosa do Espírito. Ouça as novas revelações vindas do universo e se sintamais intensamente chamado/a ao compromisso ético e libertador que essas revelações apontam. Quem crê em Deus, sabe que se aventurar neste caminho é deixar-se conduzir pelo Espírito que "sopra onde quer. Ouve-se a sua voz, mas não se sabe de onde vem, para onde vai" (Jo 3, 8).


Para quem é cristão/ã, ele sussurra um nome que, como mestre,nos conduz ao amor maior: Jesus de Nazaré. Mas, também traz à humanidade outros nomes de pessoas, entidades e espíritos que são sinônimos de amor e de paz, nas mais diferentes religiões e culturas. Nenhum mortal pode amordaçar a ventania ou frear a liberdade do Espírito.  Os caminhos religiosos, se conseguem sê-lo, podem apenas ser parábolas de amor. Será que as ciências contemporâneas poderão também, um dia, ter a humildade de se assumir como outras parábolas de irmandade universal? Se sim, elas se constituirão mais ainda como novas revelações do amor que fecunda o universo.  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

sábado, 31 de janeiro de 2015

THOMAS MERTON: AMANTE E POETA DA CRIAÇÃO




Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do departamento de teologia da PUC-Rio

 
No dia 31 de janeiro de 2015 completaria 100 anos um dos maiores místicos e escritores do século XX: o trapista Thomas Merton.  Convertido tardiamente e entrando no mosteiro trapista já adulto, Merton foi aos poucos convertendo-se em um prolífico escritor.  De sua pena saem não apenas belíssimos escritos místicos, mas igualmente temas candentes e atuais que não apenas respondem como também antecipam algumas das grandes questões da agenda contemporânea.
Uma delas é a ecologia. A questão da terra e da relação predatória que o ser humano, sobretudo o ser humano moderno, tem com o planeta tornou-se prioridade nas inquietações da humanidade nos dias de hoje. A real ameaça do esgotamento dos recursos naturais e o perigo de uma catástrofe planetária preocupam cada vez mais intelectuais e pensadores. Por outro lado, o surgimento de movimentos religiosos, espirituais e místicos centrados na contemplação da natureza e da comunhão com o cosmo demonstram como as experiências místicas e as reflexões de Merton anteciparam muitos caminhos que hoje a humanidade deveria trilhar com mais respeito e atenção.
O mundo da natureza e da criação não é tão explorado quando se fala da contribuição de Merton aos conturbados tempos modernos e pós-modernos. No entanto, este mundo desempenhou uma base estática de enorme importância em sua experiência de Deus. A leitura de seus escritos, segundo os especialistas, converge na demonstração de uma relação íntima e progressiva de formato esponsal com a criação como corpo da divindade, ao mesmo tempo velando e revelando o Deus que ele tanto suspirava por ver, tal como por ser visto e conhecido.
Assim é quando descreve o seu viver em meio à floresta como uma necessidade imperiosa e não um luxo excêntrico, como poderiam pensar alguns. Vale a pena citar suas próprias palavras: “(...) Eu vivo na floresta por necessidade. Saio da cama no meio da noite porque é imperativo que eu escute o silêncio da noite, sozinho e, com meu rosto em terra, recite salmos, sozinho, no silêncio da noite... O silêncio da floresta é minha noiva e o doce e escuro calor do mundo inteiro é meu amor e do coração deste escuro calor emerge o segredo que é ouvido somente no silêncio, mas é a raiz de todos os segredos que são sussurrados por todos os amantes em suas camas pelo mundo inteiro.”
Segundo seus mais ilustres estudiosos, Merton passou toda a sua vida monástica escutando este segredo que pulsa no coração da criação e desposou a floresta de maneira a poder escutar com total arrebatamento e compromisso, tal como o esposo faz com a esposa, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando e respeitando todos os dias da vida até que a morte separe”...
O monaquismo sempre se distinguiu por esse contato direto, de pele com pele com a natureza e a criação. Seja o deserto ou as florestas, vamos encontrar  homens e mulheres de Deus fazendo suas experiências místicas e adquirindo sua infusa sabedoria vinda diretamente da divindade em estreito e amoroso contato com a criação. Com Merton não foi diferente. Assim é que, quando o abade o nomeou guarda-florestal do mosteiro, o que implicava restaurar os bosques que haviam sido despojados e podados uma década antes, sua experiência de solidão e paixão pela natureza se radicalizou. Já não era percebida como uma privação de propósitos intelectuais, mas uma oportunidade de um compromisso corpóreo, carnal, com toda uma comunidade de sabedoria em silenciosa participação com a vitalidade das coisas vivas.
Descobriu nessa sua sempre maior comunhão com a natureza que plantar, adubar e arar eram atividades que aumentavam seus outros compromissos monásticos como esposo da natureza. Pois não é o esposo que acaricia a amada, a prepara para a fecundação, a fecunda? O que mais faz o jardineiro com a terra, com a natureza, senão isso? Merton vai descobrir em meio a essa experiência que o verdadeiro mentor e diretor de almas era a natureza em si mesma.
Seu matrimônio com a floresta intensificou-se em 1960, quando foi residir no eremitério instalado no Monte Olivet.  Ali encontrou uma comunidade maior e um coro incomparável de seres vivos que despertavam toda manhã sob seus pés: os cursos d´água, os campos, as árvores, as rãs, os pássaros, as flores. Tudo isso fez de seu louvor e de seus votos monásticos “o silêncio sob sua canção”, a canção de todos aqueles seres vivos que ouvia e aos quais respondia com seus salmos, e com os quais enchia o campo e a natureza.
Ora, o que ouvia Merton em seus êxtases em meio à natureza? Ouvia, segundo suas próprias palavras, o doce cantar das coisas vivas, visíveis e invisíveis. E a esse coro juntava-se, monge solitário, oferecendo cânticos e salmos de glória e ação de graças unido a toda a humanidade. Sua subjetividade, única, desejada e amada pelo Criador desde toda a eternidade abre-se ao cosmos com admiração e reverência, murmurando no silêncio um louvor que se une ao hino do universo inteiro, arrebatador e fulgurante. 
Merton buscou Deus de forma incessante e apaixonada. Era muito culto, havia estudado a rica biblioteca do mosteiro, sido mestre de noviços etc. No entanto, encontrou na festa multicor e polifacetada da criação divina uma sabedoria nunca vista ou suspeitada, que despertou em seus sentidos espirituais uma familiaridade primordial com as criaturas.
Sem haver escrito nenhum livro que traçasse explicitamente esta rota através da criação para a comunhão com a divindade, Thomas Merton diz à humanidade hoje que a vocação humana é, em última instância, ser “um jardineiro do paraíso’”.
  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 

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