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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

COMPROMISSO POLÍTICO DA FÉ

Por Marcelo Barros

                                                    

Em momentos nos quais o exercício da cidadania parece pouco visível e a alienação social e política toma formas que chegam até a justificar golpe de Estado, é importante refletir sobre como restituir à Política a sua nobreza e dignidade. Alguns meios de comunicação  que se alimentam cotidianamente de assassinatos e assaltos, exacerbam o mesmo sensacionalismo, ao escolher como tema recorrente e quase único a corrupção aparentemente generalizada que assola as instituições públicas. Isso pode deixar em muitos a impressão de que todo político é corrupto e a própria Política é sempre ruim. De fato, existe uma atividade que é mais politicagem do que Política. No entanto, em todas as instituições, há pessoas profundamente éticas e corretas. Essas são a maioria das pessoas. A minoria é corrupta e venal. Acontece que uma vida consagrada aos outros e pautada na ética não é notícia. A corrupção, sim, mesmo se ainda não for comprovada e,  principalmente, se a sua divulgação favorece a interesses partidários e de classe.

No atual sistema político brasileiro, infelizmente, pessoas se aproveitam de cargos e benefícios públicos para fins privados. Esse mal se implantou em nossas instituições desde a época da colônia. Tomou formas mais sofisticadas a partir dos anos 90. A maioria dos brasileiros esperava um rigor maior e uma postura diferente de um governo prometia uma nova ética e se apresentava como de esquerda ou mais popular. Todos queremos governantes que não se omitam e não compactuem com a desonestidade. No entanto, não podemos nos deixar levar por uma carga emocional que condena antes do julgamento e quer punir, sem que haja provas concretas da ilegalidade.

Sem dúvida, toda corrupção deve ser condenada, mas a mais grave não é essa que vestais da moral bradam diariamente e sem cessar nos meios de comunicação. No plano político, a corrupção mais profunda ocorre quando um partido que se apresentava como iniciativa dos trabalhadores e tinha como programa a transformação do Brasil, se acomoda ao poder e troca o projeto de um país justo e igualitário pela mera ambição de ganhar eleições e deter o poder. Para isso, metas fundamentais como a reforma agrária, reforma política e outras reformas de base são deixadas de lado. Ao fazer todo tipo de conchavo para garantir a tal “governabilidade” pelos caminhos de sempre, o governo coordenado pelo PT se comporta como a gralha da antiga parábola de Esopo. 

Uma gralha ouviu falar que, em um pombal vizinho, as pombas se alimentavam bem. Então, se pintou de branco, fingiu-se de pomba e foi para o pombal. Deu certo até que, sem querer, ela piou. Ao ouvir o seu granido, as pombas viram que era uma gralha  e a expulsaram. Sem alternativas, ela voltou ao meio das outras gralhas que, quando a viram pintada de branco, também não a receberam. E ela ficou sozinha, nem pomba, nem gralha. No Brasil atual, banqueiros ganham 400% de lucro ao ano. O agronegócio tem até ministério no governo. Grandes empresas de comunicação ganham milhões do próprio governo para desinformar a população e destruir o pouco que foi construído. 

Mesmo assim, essa elite que representa menos de 10% da população não se conforma e não acredita na gralha vestida de pomba. E ao invés de se achar contemplada por um governo que, depois de eleito, abandonou sua base social, o destrata do mesmo modo. Ignora todas as conquistas sociais já conquistadas e tenta divulgar que o país nunca esteve tão mal como agora. E fomenta as bases para um possível golpe de Estado para libertar o país do “terrível e perigosíssimo” bolivarianismo venezuelano ou simplesmente do comunismo cubano para o qual estaríamos caminhando.  

Na Campanha da Fraternidade de 2015, a CNBB propõe o aprofundamento da missão das Igrejas cristãs em sua inserção social e política na sociedade. O papa Paulo VI ensinava que a ação política é a forma mais nobre de se viver a caridade cristã na sociedade. O objetivo da ação social e política das pessoas que têm fé é testemunhar que o projeto divino de um mundo justo e de paz é possível. É assunto não só dos políticos, mas de todos os cidadãos e, portanto de todos/as que, em meio às lutas do mundo, querem viver em Deus. O Evangelho de Jesus nos chama para irmos sempre às raízes das questões e trabalharmos por uma transformação radical de todas as estruturas da sociedade. O programa do Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas cristãs resume isso no programa: Paz, Justiça e Cuidado com a Criação.       


  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

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