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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Um Cardeal para a Cidade Maravilhosa



   Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer


      A história do novo cardeal do Rio, Dom Orani João Tempesta, em sua entrega a Deus tem raízes distantes, mas fundamentais na configuração de seu perfil.  Há que buscá-las em sua vocação contemplativa que o fez um dia, ainda bem jovem, bater às portas do mosteiro cisterciense para servir a Deus na oração contemplativa, na liturgia comunitária e no louvor incessante.

       As necessidades eclesiais que demandavam um pastor o fizeram sair do mosteiro para ser bispo.  É assim que antes de vir para o Rio de Janeiro, Dom Orani teve uma passagem importante por Belém do Pará, que marcou seu coração para sempre a ponto de dizer, em sua despedida: “Vou para o Rio, mas levo comigo Belém, o Pará, o calor desse Estado e a simpatia desse povo”. 

    Entre os inúmeros admiradores que deixou na capital paraense, Dom Orani conta com o afeto da grande intérprete Fafá de Belém, que já cantou em várias ocasiões na festa do Círio de Nazaré quando ele governava a diocese. 

      Uma vez bispo, ocupou, com sucesso e eficiência, a coordenação do setor de comunicação da CNBB. Este interesse e valorização da comunicação permitiram que, uma vez nomeado arcebispo do Rio, tenha sabido capitalizar para a cidade onde se encontra sua diocese uma série de eventos importantes, que muito valorizaram a presença do Rio na Igreja do Brasil. 

     Ao chegar à Cidade Maravilhosa, encontrou uma situação delicada.  O Rio era o estado menos católico do Brasil, perdia fiéis de forma acelerada para as igrejas pentecostais.  Os meios que pôs em prática para enfrentar este problema foram eficazes e criativos: apostou e investiu em uma assessoria de boa qualidade, motivando muito a adesão e o voluntariado jovem, usando seus dotes para a comunicação.
 
     É assim que, hoje, os católicos do Rio de Janeiro veem sua pastoral  transformada.  A Igreja local fervilha de iniciativas positivas, que integram e valorizam o privilegiado quadro natural de beleza no qual está situada.  Dom Orani potencializou ainda mais o Cristo Redentor – principal monumento da cidade - que durante seu governo foi declarado Maravilha do mundo.  Ali botou um padre responsável pelo santuário e são frequentes as celebrações que naquele lugar acontecem.

     Alguns encontros que tive com ele reforçam este perfil que sempre demonstrou a mim, de uma simplicidade profunda unida a uma prática ancorada em uma  intensa espiritualidade.  O primeiro foi na PUC do Rio, da qual é grão chanceler. Quando foi nomeado arcebispo da diocese, o reitor da Universidade queria organizar uma visita oficial do novo bispo a fim de apresentá-lo à comunidade acadêmica.  A agenda do novo arcebispo estava cheia e a data marcada ficava um tanto  longínqua.  Não havendo outra possibilidade, foi confirmada. 

     Muito antes daquele dia, fui convidada pelo Departamento de Comunicação Social a assistir aos filmes que concorriam à Margarida de Prata, prêmio da CNBB ao filme brasileiro que mais defende os direitos humanos.  Encaminhei-me à sala de projeção, que já se encontrava de luz apagada.  Vislumbrei outra pessoa na sala, já sentada e atenta ao filme que começava.  Qual não foi minha surpresa ao ver que era Dom Orani.

Discretamente, entrou na universidade muito antes da data oficial marcada para sua “primeira” visita e passou pelo campus como um de tantos, sem anunciar sua presença.  Celebrei com ele assistindo filmes essa sua primeira visita extra oficial à nossa universidade.

      De outra vez, eu estava fora do Rio, em Petrópolis, quando meu celular tocou às 7h da manhã.  Surpreendi-me com a voz do outro lado, que se identificou simplesmente: É Dom Orani.  Assustei-me, devo confessar.

     Àquela hora, o bispo ligar para minha casa... O que podia ter acontecido? Pensei que era uma notícia ruim.  Ele riu e disse que era uma coisa boa.  E efetivamente, passou o aparelho a Monsenhor Scoti, presidente da Associação Josef Ratzinger, que me convidou a apresentar o livro do Papa Bento XVI sobre a Infância de Jesus em Roma.  Emocionada, aceitei.  Quando fui agradecer a Dom Orani, me disse que depois contasse minha experiência. Foi o que fiz em um evento organizado então pela própria diocese sobre o livro em questão.
 
     Esta é minha experiência com Dom Orani: um homem profundo e simples, direto e próximo.  Uma presença apostólica forte e uma visão larga e positiva à frente da Igreja do Rio de Janeiro.

      E agora, essa mesma Igreja do Rio celebra alegremente sua recente nomeação como cardeal pelo Papa Francisco.  Já estiveram juntos no grande sucesso que foi a Jornada Mundial da Juventude.  Agora trabalharão mais próximos ainda.  Enquanto a Igreja Universal vive como um sopro de esperança o pontificado de Francisco, a Igreja da Cidade Maravilhosa cumprimenta feliz seu novo arcebispo, agora cardeal.  Que o Espírito Santo fecunde abundantemente sua missão, é o que desejamos todos!
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “O  mistério e  o mundo – paixão por Deus em tempo de descrença”  (Editora Rocco).
 Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>
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Mais Cardeais? Para Quê? O que é um Cardeal?



por   J u r a c y   A n d r a d e


     Talvez eu esteja insistindo muito neste tema, mas o nosso papa Francisco continua surpreendendo e a gente tem de escutá-lo, seguir os caminhos que ele aponta e apoiá-lo em sua peleja pela restauração da igrejinha da Porciúncula (Assis), símbolo da limpeza que São Francisco pretendeu fazer na Igreja de Cristo. Começo estranhando que ele tenha convocado um consistório para a promoção de mais uma leva de cardeais. Cardeal? O que é isso? Uma excrescência imperial para promoção de cortesãos e, paralelamente, podagem no poder dos bispos, alheia à tradição apostólica da Igreja. Mas talvez ele sinta que não pode de repente rasgar tanta púrpura e prestigiar mais o Sínodo dos Bispos. Deve pensar assim: devagar com o andor que o santo é de barro ... Já mexeu com muita gente de peso, como Cúria Romana, máfia, capitalismo selvagem (Evangelii gaudium). 

     Recentemente, no Jornal do Commercio, lembrei a advertência de um promotor italiano que disse que a máfia já está de olho nesse teimoso argentino que decidiu acabar com a lavanderia de dinheiro sujo que é o IOR (Banco do Vaticano). O certo é que precavidamente e lembrado do que aconteceu com João Paulo 1º, que morreu misteriosamente um mês depois de eleito, Francisco que não foi morar no Palácio Apostólico (moravam os apóstolos em palácios?), preferindo a mais moderna e sem ciladas medievais Casa Santa Marta. Encantam-nos suas palavras humanas e misericordiosas para com os pecadores e sua condenação de uma economia de exclusão, no documento Evangelii gaudium, o que logo lhe valeu as iras dos donos do mundo. A essa economia que domina o mundo, do deus Mercado, do consumismo, da exclusão e coisificação das pessoas “devemos dizer não” [...] “porque essa economia mata”, escreveu Francisco. Gente, é o resgate da Teologia da Libertação com sua opção preferencial pelos pobres.
 
     Outro resgate dessa era, digamos assim, franciscana é o das comunidades eclesiais de base (CEBs), tão malvistas e perseguidas pelos papas que se seguiram à súbita e misteriosa morte de João Paulo 1º. Francisco enviou um texto de apoio ao 13º Encontro Intereclesial das CEBs, iniciado no dia 7 de janeiro em Juazeiro do Norte (CE). Em artigo neste Porta-Voz, o teólogo e historiador Eduardo Hoornaert fala sobre isso e conta como surgiram as CEBs, nos anos 1970 (vejam o texto). Ele faz uma observação a respeito do conselho papal no sentido de que as CEBs “se integrem de bom grado na pastoral orgânica da Igreja”. Esclarece Hoornaert que essa pastoral é programada pelo clero, o que poderia embotar a iniciativa leiga característica dessa notável experiência. Competente historiador da Igreja e de suas origens nos dois primeiros séculos, o autor adverte que essa “clericalização” pode prejudicar “um projeto que só pode dar resultados se os leigos ocupam efetivamente postos independentes de mando”. Não obstante, a simpática mensagem do papa às CEBs significa uma reviravolta no posicionamento dos ultraconservadores papas Wojtyla e Ratzinger.


Juracy Andrade é jornalista com formação em teologia

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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O que é novo para o mundo nesse ano novo




Por Marcelo Barros

 Baseados na visão sócio-política da realidade, estudiosos tentam descortinar algo sobre o futuro da sociedade. Em geral, essa análise é mais conflitiva do que as previsões religiosas ou místicas. Economistas julgam que a crise econômica mundial vai continuar e até se aprofundar em 2014, já que os governos mais responsáveis pela crise querem resolvê-la sem rever em nada o sistema capitalista que causou todo o mal. É como se um médico quisesse curar o doente tratando-o com o próprio veneno que provocou a enfermidade. No plano ecológico, também as perspectivas não são otimistas. Em diversas regiões do planeta, esse ano começa com inundações devastadoras e secas destruidoras. Invernos mais rigorosos e verões escaldantes parecem ser resultado do aquecimento global. Ao mesmo tempo, a população da terra se torna mais urbana. Isso cria mais necessidade de água, a cada dia, mais escassa. E a destruição ecológica está intimamente ligada à desigualdade social e à injustiça que, infelizmente, ainda vigoram no mundo em alguns continentes se agravam e aumentam. 

De quatro em quatro anos, no início de cada novo mandato presidencial nos Estados Unidos, o National Intelligence Council (NIC), departamento de análise e antecipação geopolítica e econômica da CIA (Central Intelligence Agency), publica um relatório. Apesar de pertencer à CIA norte-americana e, portanto, apresentar uma visão do mundo a partir dos interesses do governo dos Estados Unidos, esse documento é feito a partir de uma ampla consulta a cientistas e estudiosos independentes de várias universidades e centros de pesquisa de todo o mundo. Por isso, o relatório norte-americano contém elementos e análises que interessam à sociedade internacional [1].

O relatório mais recente é do começo de 2013, quando o presidente Obama iria começar o seu segundo mandato. Os dados pretendem falar do mundo desses próximos anos. No entanto, são questões que já aparecem em 2014 e, por isso, podem entrar em uma análise de perspectiva para esse ano.  

Uma constatação do relatório é a de que, cada vez mais, as maiores coletividades do mundo passam a ser não mais países e sim comunidades virtuais, congregadas pela internet. Nesse início de 2014,  calcula-se que um bilhão de pessoas no mundo já esteja ligado através do Facebook, Twiter e outras redes sociais. No norte da África e em outras regiões, várias manifestações políticas têm sido convocadas e coordenadas através da internet. A previsão é de que, graças ao acesso à rede e ao uso de novas ferramentas digitais, as estruturas de poder social e político no mundo comecem a mudar. O relatório adverte que, para evitar isso, a CIA e os órgãos de segurança deverão usar a internet para, através dela, exercer “uma capacidade sem precedentes de vigiar os cidadãos”. Como se o papel dos governos fosse controlar os cidadãos e impedir que a sociedade civil consiga se articular de forma mais horizontal e democrática.  

 Outra constatação do relatório é prevista para os próximos anos: o “declínio do Ocidente”. Trata-se do fim da hegemonia política e militar dos países que durante os últimos séculos mandaram no mundo. “Caminhamos para um mundo multipolar, no qual novos atores, como a China, a Índia e outros países começam a construir novos polos continentais sólidos e a disputar a supremacia internacional que antes era dos EUA, Alemanha, Reino Unido e França”. A crise econômica e a integração do mundo dos pobres conseguiram o que a Al Qaeda não conseguiu: enfraquecer o império.

No Brasil, 2014 será ano de eleições presidenciais e estaduais. Até junho, os meios de comunicação se ocuparão da Copa do mundo. Depois, farão da campanha eleitoral o seu show. Tomara que candidatos e partidos possam discutir projetos políticos para o país e não apenas promessas eleitorais. Para quem é cristão, é importante discernir qual o projeto político mais justo. Ao servir melhor à maioria do povo, esse projeto se torna sinal e instrumento da realização do projeto divino de paz e justiça para o mundo.


[1] Cf. IGNACIO RAMONET, O mundo em 2030, in Fato e Razão, 83, setembro 2013, p. 26. 


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 45 livros publicados, entre os quais “O Amor fecunda o Universo (Ecologia e Espiritualidade) com co-autoria de Frei Betto. Ed Agir, 2009.
 
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Os movimentos populares latino-americanos junto ao Papa Francisco





Por Leonardo Boff


     Algo inaudito está acontecendo com a Igreja Católica sob a direção do Papa Francisco. Uma coisa é falar dos pobres e dos excluídos e denunciar a violência praticada contra eles. E deixá-los lá longe com suas penas. A Igreja assumia, normalmente, uma função tribunícia: se propunha representar, como um  tribuno, os pobres. Agora com esse Papa, na linha da tradição latino-americana, os pobres e excluídos são considerados sujeitos autônomos. 

     Como tais são convocados a Roma, junto à Sé Apostólica, para falarem por si mesmos. Ouvir a versão das vitimas e não apenas ouvir os analistas científicos das causas que os tornam o que são, excluídos e explorados. O Papa empenhou a Academia Pontificia de Ciências para estudar as causas desta perversão. 

     O tema fala por si: “A emergência dos Exluidos“. Isso nos remete a um tema central da Teologia da Libertação ainda nos seus primórdio:”A emergência dos pobres“.  Lá estava João Pedro Stédile do Movimento dos Sem Terra- Via Campensina, Juan Grabois  do Movimento do Trabalhadores Excluidos e  ainda os Trabalhadores da Economia Popular entre  outros que falaram no seu próprio dialeto de movimentos de base. Grabois foi posteriormente recebido pessoalmente pelo Papa. 

     Uma coisa é ver o Brasil a partir das caravelas dos colonizadores: a paisagem é uma. Outra coisa é ver o Brasil a partir da praia: uma paisagem diria paradisíaca composta de índios inocentes, nus e hospitaleiros. É um outro Brasil. Algo semelhante ocorre aqui. Agora podemos ouvir como as vítimas denunciam elas mesmas os causadores de sua desgraça e da guerra total que se move contra a Mãe-Terrra. Como vão se justificar os “donos” do mundo, do dinheiro, dos rumos que impõem com força e violência aos outros? 

     Terão que vir a público e todos poderemos ver  as suas desrazões e a crueldade e impiedade que praticam contra o sistema-vida, sistema-Humanidade e sistema-Terra. Por que a grande mídia não deu relevância nenhuma a este fato? É porque essa “gente” não conta para o sistema. Somente atrapalham “o crescimento”. Mas algo do Spirtus Creator, chamado de “Pater pauperum” pela liturgia da festa do Espírito Santo, o “Pai dos Pobres” está irrompendo na Humanidade pelos caminhos da Igreja franciscana de Francisco de Roma, seguidor de Francisco de Assis. Poderá ser o começo de uma nova vontade de reinventar a Humanidade par que não seja tão malvada e inimiga da vida. 
Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra, proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record, Rio 2010.

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