O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.

terça-feira, 23 de junho de 2015

JOÃO BATISTA, NA BÍBLIA E NAS FESTAS JUNINAS

Marcelo Barros


Nesses dias, em todo o Brasil, a cultura popular é tomada pelas festas juninas. São costumes pré-cristãos muito antigos que cultuavam a natureza na mudança de estação. Pouco a pouco, o Cristianismo adaptou essas festas e lhes deu um novo significado. As fogueiras, brincadeiras e cânticos tradicionais que, nos séculos antigos, representavam cultos à natureza passaram a ter como objetivo fazer memória do nascimento de São João Batista. Nas culturas andinas, nesses dias se celebra a festa do Sol: Inti Rami. Os índios resgatam suas culturas ancestrais e ligam a contemplação da natureza a presença de Deus que nos renova. Ele é como a luz e o calor de um fogo novo em meio à noite fria do inverno.

No Brasil, o povo que participa das festas juninas usam bandeira de São João menino e pouco sabem do que conta o evangelho. Mas, seja como for, através da fogueira, dos fogos e das brincadeiras, sinalizam o que  o evangelho revela: no meio da escuridão do mundo, João foi como uma fogueira que iluminou a presença da Luz que é Jesus. Os grupos de novena e folia sabem que o importante da narrativa do evangelho é anunciar que começa no mundo um tempo novo. O útero da mulher estéril (Isabel) se torna fértil e o pai mudo (Zacarias) se põe a falar. São sinais de que o mal não é inevitável e sempre um milagre pode ocorrer. A esterilidade nossa e do mundo pode se tornar fecunda. Os que não têm voz podem ser profetas de um mundo novo possível.

Ao ressaltar que o rio Jordão atravessa uma região desértica e ao valorizar o batismo como mergulho em uma vida nova, João Batista nos convida a valorizar a água como sinal de vida. Podemos descobrir, mesmo na aridez, oásis de fertilidade e caminhos de vida nova. Em meio a todas as dificuldades, podemos mergulhar no divino (isso é, batizados/as) e ser testemunhas da ação divina de transformação do mundo.

Para a fé cristã, João Batista é principalmente o profeta que aponta o Cristo presente no mundo. João Batista e Jesus de Nazaré reuniram pessoas consideradas socialmente pecadoras e não os religiosos. Esses não os aceitaram. Como naquele tempo, até hoje existe um tipo de espiritualidade que situa as pessoas em uma espécie de elite sagrada. Esses grupos se impõem uma série de ideais e metas que tentam alcançar através de exercícios espirituais. Esse tipo de espiritualidade tem seu valor, mas, muitas vezes, acaba centrando as pessoas nelas mesmas e no objetivo que querem alcançar. A verdadeira espiritualidade nada tem de atletismo espiritual. É amorosidade e capacidade de conviver solidariamente com os outros. Além disso, formar gueto espiritual não ajuda ninguém a perceber o negativo presente em sua vida. A pessoa constrói sua vida espiritual como um edifício sem alicerce. A qualquer momento, aqueles elementos íntimos que são negados e escondidos, mas nem por isso deixam de existir, vêm à tona e passam a dominar. Ao pedir conversão, João Batista nos lembra que temos de assumir nossas negatividades e trabalhá-las, nos descobrindo frágeis e divididos, mas sempre objetos prediletos do carinho divino.


Atualmente, corremos o risco de transformar o mundo inteiro em deserto. Nesses dias, o papa Francisco publicou sua carta encíclica sobre a Ecologia e a nossa responsabilidade comum diante do ambiente. Ele nos convida a ser profetas como João e mostrar que a sociedade capitalista está transformando o mundo inteiro em um imenso deserto. No entanto, nós, cristãos, pessoas de outras tradições espirituais, junto com todas as pessoas de boa vontade, podemos aprimorar o cuidado amoroso com a natureza e todos os seres vivos. Esse cuidado deve se espalhar assim como o rio Jordão atravessa a aridez da Palestina. Seria importante ligar as comemorações juninas com o cuidado com a natureza. As fogueiras não podem destruir a vegetação nem provocar incêndios. Devem iluminar nosso caminho para reconstruir um mundo mais feliz.  Temos também um deserto interior, um espaço de solidão e silêncio no qual precisamos entrar para acolher o divino e ser transformados por ele. Para nós também, João Batista continua a dizer: “No meio de vocês está alguém que vocês não conhecem e ele vai mergulhar a todos/as no Espírito de Amor”.

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países

Nenhum comentário:

Postar um comentário