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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

UM CONCÍLIO REALMENTE ECUMÊNICO TERIA GUARDADO LUTERO EM COMUNHÃO COM A IGREJA TRADICIONAL


Por Juracy Andrade


Continuo hoje com a carta do monge alemão Martinho Lutero ao papa Leão X, que se inicia reclamando um concílio para dirimir desavenças entre as proposições teológicas do agostiniano e a assim dita Santa Sé. Concílio que lhe fora negado pelos antecessores de Leão. Trata-se de algo plenamente dentro do espírito evangélico (concílio, sínodo, assembleia etc.) mas extremamente malvisto pelos bispos de Roma, que se julgam infalíveis pelo menos desde o primeiro concílio do Vaticano, que não teve quase nenhuma representatividade ecumênica e padeceu de pouquíssimo consenso. Começou uma guerra e o concílio terminou às pressas com o papa Pio 9º carregando esse troféu sem base evangélica.

Pra que fundamento evangélico para um herdeiro do Império Romano?

Prossegue Lutero: “[...] jamais alienei meu ânimo de Tua Beatitude ao ponto de não desejar, com todas as minhas forças, o melhor para ti e para tua Sé e de não rogar a Deus por isso [...]. No entanto, eu realmente repeli tua Sé, que se chama de Cúria Romana. Ora, nem tu nem qualquer outra pessoa pode negar que ela é mais corrupta do que qualquer Babilônia ou Sodoma. Tanto quanto compreendo, ela é uma impiedade inteiramente deplorável, sem esperanças e notória. [...] E assim resisti e resistirei enquanto o espírito da fé viver em mim. Não que eu pretenda o impossível e espere que, apenas graças a mim, alguma coisa seja promovida nessa confusíssima Babilônia, visto que me combatem tantos aduladores furiosos. Reconheço, porém, que estou em dívida com meus irmãos, a quem devo aconselhar para que um menor número deles seja arruinado pelas pestes romanas ou sejam arruinados de uma forma menos grave.

Neste meio tempo, tu, Leão, estás sentado como um cordeiro em meio aos lobos, como Daniel em meio aos leões, e moras, como Ezequiel, entre escorpiões. O que podes tu sozinho opor a esses monstros? Ainda que juntasses a ti três ou quatro cardeais eruditíssimos e ótimos, o que seriam eles entre tantos? Todos vós morreríeis envenenados antes que vos antecipásseis estatuindo para remediar a situação. A Cúria Romana está perdida. A ira de Deus a atingiu até o fim. Odeia os concílios, tem medo de ser reformada, não pode mitigar o furor de sua impiedade e cumpre o epitáfio de sua mãe, a respeito da qual é dito: ‘Curamos Babilônia e ela não sarou; abandonemo-la’ (Jeremias 51,9)”.

Lendo esta carta, que Lutero escreveu em Wittenberg no dia 6 de setembro de 1520 e foi recebida por Leão, não podemos deixar de pensar no momento vivido pelo atual papa Francisco. Este, como fez Francisco de Assis na igrejinha da Porciúncula, em sua cidade natal, tenta reerguer a Igreja de Cristo e reconduzi-la ao Evangelho, às práticas do livro dos Atos dos Apóstolos. As resistências, como pudemos ver no recente Sínodo, são muitas. E se o papa não conseguir reformar, enquanto vivo, ao menos o Colégio dos Cardeais, ao qual está confiado, não por Jesus Cristo certamente, a escolha de um novo bispo de Roma, a Igreja de Roma poderá cair de novo nas mãos de políticos como Wojtyla. O melhor mesmo seria acabar com essa excrescência de cardeais, que foram inventados pelos cortesãos do papado para usurpar ainda mais o papel dos bispos, sucessores dos apóstolos. Vamos aguardar e orar.

PS - No final de outubro, a Câmara de Vereadores do Recife prestou homenagem a Padre Henrique, mártir sacrificado pela ditadura militar por ser fiel à doutrina e prática ecumênicas e conciliares de Dom Helder. Dia 27 de outubro, ele faria 75 anos. A iniciativa da sessão solene da Câmara foi da vereadora Isabella de Roldão.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

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