Por Marcelo Barros
É bom lembrar que o 1o de maio foi criado para dar voz ao
trabalhador e valorizar a dignidade e os direitos de quem trabalha. Até algumas
décadas, os sindicatos da classe trabalhadora expressavam reivindicações por
salários mais justos e melhores condições de emprego. Infelizmente, a situação
social é tão precária que as pessoas que trabalham, mesmo em condições duras e
pesadas, são consideradas privilegiadas
em relação a uma proporção cada vez maior de pessoas sem emprego e sem
esperança de conseguir um trabalho justo e regular. As empresas são
consideradas lucrativas e bem sucedidas quanto mais conseguem demitir funcionários
e ter menos encargos salariais.
Nesse contexto, os gerentes e chefes levam a competitividade a um limite
extremo. Estipulam metas quase inalcançáveis e provocam uma forte insegurança nas
pessoas que trabalham. Nas plantações de cana de açúcar, em várias regiões do
Brasil, tem ocorrido que trabalhadores desfalecem e, literalmente, morrem de
fadiga, em meio a jornadas desumanas de trabalho. A tal otimização do
rendimento se dá em detrimento das condições de vida dos trabalhadores. Não têm
como manter o mínimo de convivência familiar, nem menos ainda aproveitar
qualquer lazer. Pesquisas revelam que, no Brasil, cerca de 15 milhões de
pessoas sofram de depressão provocada pela sobrecarga de trabalho.
Em artigo recente, Leonardo Boff denuncia: “A pesquisadora Margarida Barreto,
médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano de 2010, numa
pesquisa com 400 pessoas ouvidas, cerca de um quarto delas tinha nutrido ideias
suicidas, por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: “é
preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições
de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas”.
Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo
e orientado apenas para os lucros”. Leonardo revela ainda que toda a imprensa
falou sobre o estado de depressão do co-piloto Andreas Lubitz da companhia aérea alemã Germanwings que se
suicidou levando consigo 149 pessoas, vítimas da queda do avião. O que nenhuma agência de notícias destacou foi que,
por trás da depressão do piloto estava também a angústia e o medo de perder o
emprego. Leonardo conclui: “O suicídio pertence à tragédia humana que sempre
nos acompanha.” No entanto, não podemos aceitar calados que a sociedade seja
organizada de um modo tão cruel que leve às pessoas ao desespero e ao suicídio e
depois ainda as acuse de desequilibradas.
É preciso que o 1o
de maio retome sua vocação inicial de ser um grito em favor da dignidade do
povo trabalhador. Todos precisam ver respeitado seu direito de trabalhar
(direito que a ONU reconhece desde 1948 como direito de toda pessoa humana) e em
condições dignas e justas. Essa meta só é viável em outra forma de organizar o
mundo. Embora o sistema econômico dominante se mostre em crise e incapaz de
proporcionar condições dignas de vida à maior parte da população, é ainda um
dogma seguido pela maioria dos governantes. No entanto, cada vez mais, no mundo
inteiro, amplos setores da sociedade civil e dos movimentos sociais organizados
têm se manifestado por “outro mundo possível”. É importante que as religiões e
tradições espirituais apoiem essa esperança e reforcem essa caminhada profética
que visa mudanças estruturais na forma de organizar a sociedade. É preciso
superar a visão individualista de “cada um por si” e retomar o gosto de
pertencer e sentir-se em comunidade. Temos de passar da competição desumana e
cruel para a colaboração fraterna. Não se podem sacrificar pessoas humanas ao
deus- mercado, considerado absoluto ao qual tudo se dobra e obedece.
Para quem é cristão,
a dignidade do/a trabalhador/a não tem preço. É expressão de que que todo ser
humano é filho e filha de Deus e tem de ser respeitado/a como cidadão/ã do seu
reino.
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