Marcelo Barros
Dizem
que depois da aprovação da diminuição da idade penal de 18 para 16 anos, a
próxima luta do Presidente da Câmara e seus aliados será por uma revisão do
Código Penal afim de ampliar o acesso dos cidadãos a armas de fogo. Um dos
argumentos é que os bandidos estão armados e as pessoas honestas não têm armas
para se defender. Querem armar todo mundo. Como se facilitar a posse e o uso de
arma de fogo desse mais segurança à população e automaticamente diminuísse a
incidência de crimes. Estudos revelam o contrário: onde se usam mais armas de
fogo, há aumento de crimes de morte e mais violência.
O
uso generalizado de armas de fogo tem consequências trágicas para quem usa,
para quem não usa e até para quem lhe é contrário. Em geral, as pessoas que são
favoráveis às armas consideram como o ideal a sociedade dos Estados Unidos da
América do Norte: basta olhar as estatísticas sobre crimes com armas de fogo
nesse país para compreender. Facilitar o uso de armas pela população, ao invés
de diminuir, aumentou muito a violência. Atualmente, nos Estados Unidos e em
outros países muitos tentam voltar atrás e ter uma legislação mais rígida.
Conforme
reportagem do Courrier International, nos Estados Unidos, país no qual o acesso a armas
de fogo é mais fácil, de 2004 a 2014, as estatísticas contaram 750 mil pessoas
gravemente feridas por armas de fogo. Foram mais de 320 mil pessoas mortas por
balas. A cada ano, 11 mil norte-americanos/as são assassinados com armas de
fogo e 20 mil se suicidam do mesmo modo. Centenas de crianças morrem vítimas de
acidentes com armas de fogo. A cada ano têm aumentado casos nos quais alguém
entra em um cinema ou escola atirando em todo mundo.
Argumentos
humanitários, éticos e religiosos não convencem as pessoas a mudarem de opinião.
Como em nosso país, também, nos Estados Unidos, o argumento mais aceito para
deter essa cultura de viver armados e usar armas como se fossem brinquedos não
é a sacralidade da vida, nem a ética do amor e do respeito ao outro. O único
argumento ao qual a maioria parece sensível é o econômico. A cada ano, o Estado
tem um grande prejuízo econômico com crimes e acidentes provocados com armas de
fogo. Porém, as indústrias de armas de fogo impedem a publicação de dados sobre
o que as vítimas e suas famílias sofrem por causa de armas. Em um editorial de
07 de abril desse ano, a revista médica Annals of Internal Medicine declarou:
“Nos Estados Unidos, as armas são um dos mais graves problemas de saúde pública[1]”. Essa
obsessão por armas de fogo custa aos EUA a cifra anual de 229 bilhões de
dólares (não milhões). Cada pessoa morta chega a custar em média seis milhões
de dólares em gastos com segurança, hospitais e processos jurídicos. E a cada
ano, morrem 31 mil pessoas, vítimas de armas de fogo. (repetição do que vem no
parágrafo acima)
Apesar
de que, atualmente, na América Latina e Caribe, não há nenhuma guerra
declarada, as taxas de homicídio no continente são comparáveis às de zonas de
guerra. Conforme a agência da ONU contra as drogas e o crime organizado, dez
por cento da população do planeta vivem na
América Latina. No entanto, no nosso continente acontecem, a cada dia,
30 % dos homicídios de todo o mundo. A cada dia, são assassinadas mais de 300
pessoas. No domingo 21 de junho, o site da UOL tinha como uma das manchetes:
“Brasil é campeão mundial no número de assassinatos”. As causas são diversas,
como o tráfico de drogas e o crime organizado, mas a ONU descobriu que isso
explica apenas uma parte do problema. O mais grave é a cultura da violência e a
facilidade com que as pessoas têm acesso às armas de fogo.
No
Brasil, em comunidades situadas em áreas de risco, os projetos que mais
conseguiram libertar as pessoas e superar a violência foram projetos educacionais
e artísticos que acreditaram nas pessoas e investiram em salvá-las e não em
matar. Na Índia, sem nunca usar arma de fogo, o Mahatma Gandhi libertou o seu
país da Inglaterra, na época, o império mais rico e bem armado do mundo. Nos
anos 60, o pastor Martin Luther King conseguiu vencer as leis de discriminação
racial nos Estados Unidos sem jamais usar uma arma. Ambos fizeram isso em nome
da fé. Gandhi como fiel do Hinduísmo, Luther-King como cristão. Gandhi considerava
Jesus o mais importante defensor da não violência. Ao contrário disso, no
Congresso brasileiro, em geral, financiados por empresas de armamentos, vários deputados
e senadores que mais defendem o uso generalizado de armas de fogo são os que se
autodenominam “evangélicos”. Na Câmara Federal, a bancada da bala quase se
confunde com a da Bíblia.
Bote
fé nisso. Graças a Deus, a cada dia aumenta o número de cristãos que ligam a
sua fé com a vida e leem o evangelho como mensagem de amor e não violência
ativa.
Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países
[1] - Cf. MARK FOLMAN, JULIA LURIE,
JAEAH LEE e JAMES WEST, Ces très cheres armes de feu, (tradução do ingles) in Courrier
International, 1281, du 21 à 27 mai 2015, pp. 28- 30.
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