por Rejane Menezes
“Um novo mandamento vos dou: Que
vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros
vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns
aos outros.” João 13:34,35
Nos últimos tempos
diversas declarações de políticos ligados à bancada religiosa cristã ou mesmo
de representantes de algumas religiões têm causado espanto , indignação e
questionamentos, por parte de uma boa parcela da população.
E isso se dá diante do
fato dessas declarações irem de encontro ao princípio maior que rege o
cristianismo: o amor ao próximo.
Nos últimos tempos a
intolerância tem sido levantada qual bandeira, como se fosse uma coisa bonita,
uma coisa saudável. Preconceito racial, social, religioso e de gênero é a bola
da vez, defendida por uns e aplaudida por outros que, sem noção da gravidade do
que estão apoiando, vão ajudando a disseminar o ódio, deixando de lado os
ensinamentos do cristianismo como a solidariedade e a caridade. Caridade não
apenas no sentido de ajuda financeira, mas caridade cristã, que acolhe o
próximo independentemente de sua cor, de sua raça, de sua opção sexual, de sua
profissão ou religião. E, agora, devemos acrescentar mais uma intolerância ao
rol tradicional: a intolerância política, onde, “quem não pensa como eu, está
contra mim.”
"Qual destes três você acha que foi o próximo
do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?"
"Aquele que teve misericórdia dele",
respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo". (Conferir a
Parábola do Bom Samaritano, Lucas 10, 30-37)
A mensagem de Jesus Cristo
está muito clara, sempre. Nesta parábola está claro como água que o que importa
é a maneira de agir da pessoa e não crença que professa se ela não ajuda a ser
uma pessoa melhor.
Confesso que acho estranho
quando autoridades religiosas convocam os fiéis a se oporem às discussões em questões
relacionadas à ideologia de gênero, quando, em minha opinião, as Religiões deveriam estar preocupadas em combater
problemas internos como a pedofilia ou o desvio do dinheiro dos dizimistas para
os bolsos dos fundadores. Claro que esses problemas não existem em todas as
denominações religiosas, vale ressaltar. A generalização é sempre injusta e
perigosa.
Mas, problemas de
enriquecimento às custas dos dizimistas é fato público, está na imprensa e a
pedofilia é uma triste realidade, também comprovada publicamente.
Sim, porque me parece que
a grande questão moral do Brasil hoje não tem nada a ver com sexualidade,
religião, raça, classe social ou cor. O grande mal do Brasil hoje se chama corrupção.
Isso é unânime. E está entranhada em qualquer DNA. Embora, estranhamente,
tenham muitos corruptos levantando bandeiras contra a corrupção. Talvez porque
o bolo esteja muito dividido...
Enfim, se esse é o maior problema do país,
porque não é esse o tema das discussões e das preocupações das pessoas que,
publicamente, representam denominações religiosas?
Que tal se fosse feita uma
estatística para ver quantos homossexuais existem entre todos os acusados até
agora de corrupção? Garanto que o percentual seria pequeno em relação aos
heterossexuais. Mas, e daí? Bem, pelo menos poderíamos chegar a conclusão que a
homossexualidade não é a causa da corrupção. Se não é, então porque tanta preocupação com o fato da pessoa ser homossexual
se, na verdade, não causa nenhum dano à sociedade ou ao país?
Está na bíblia, em Isaías 32, 17:
“A paz é fruto da justiça”.
Ora, não seria então
função do cristianismo promover a paz, já que seu mestre maior, Jesus Cristo, é
o grande promotor da paz?
As Igrejas deveriam estar
promovendo debates sobre o que pode ser feito para acabar com a corrupção, como
punir quem está prejudicando o país, como fazer o dinheiro desviado ser
devolvido e garantir que seja empregado em projetos que promovam a justiça
social. Entretanto, se uma parcela de uma denominação religiosa promove esse
tipo de discussão é chamada de comunista, como se fosse um xingamento. E aí,
mais um retrocesso. Mas isso é antigo:
"Quando dou pão
aos pobres, todos me chamam de santo. Mas quando eu pergunto por que os pobres
não tem pão? Eles me chamam de comunista e subversivo." (Dom Helder Camara)
Em lugar das Igrejas ou
seus integrantes que têm acesso aos meios de comunicação e tribunas, estarem
preocupados em combater a homossexualidade ou outras denominações como o Candomblé,
por que não cobram do Ministério da Educação que seja inclusa na grade escolar
uma disciplina chamada HONESTIDADE?
Essa deveria ser a grande
discussão hoje no Brasil: como formar cidadãos, honestos, que não pratiquem
nenhum tipo de corrupção? Como formar cidadãos que respeitem as vagas dos
deficientes e idosos, que respeitem as leis de trânsito, que em lugar de beber
e se informar onde estão as blitz, não beba quando estiver dirigindo?
Como formar cidadãos que
paguem seus impostos e que, ao ocuparem cargos públicos, usem o dinheiro público
para o real fim ao qual é destinado?
Como formar cidadãos que
se tornem políticos porque estão preocupados com o bem da população e não com o
seu próprio?
Essas são questões que as
Igrejas deveriam estar preocupadas e não com o fato das mulheres serem
submissas aos maridos ou se as crianças serão heterossexuais ou homossexuais. Minha
gente a nossa preocupação deve ser se as nossas crianças, quando crescerem,
diante de tantos maus exemplos, às vezes dentro das próprias casas, serão
pessoas íntegras.
Bem, eu fui criada ouvindo
de meus pais que “honestidade não é virtude, é obrigação”. Criei minhas filhas
dessa forma. Ultimamente ser honesto passou a ser sinônimo de ser otário. As
pessoas se vangloriavam da “Lei de Gérson”, de levar vantagem em tudo. Não na
minha família. Sempre combatemos esse tipo de coisa. E sempre havia quem risse
de nós. Hoje, as vantagens conseguidas não estão mais sendo exaltadas, estão
camufladas. Porque não pega bem, combater a corrupção e, ao mesmo tempo,
praticá-la.
Então, o problema está na
formação, no exemplo, no que é mostrado às crianças, no dia a dia. Se algumas
não terão a oportunidade, em suas famílias, de saber o que significa ser
honesto, que pelo menos as Igrejas e as Escolas lhe deem essa oportunidade. A
oportunidade de saber a diferença entre ser um cidadão e ser mais um, que, com
suas ações, ou com a falta delas, nega, à maioria da população, o direito de
ser cidadão.
Sou cristã, católica, mas
não concordo com essa ala intolerante, que condena, que persegue, que não acolhe.
Esses não me representam. Sou da outra da ala. Da ala de Dom Helder, do Papa
Francisco, Frei Betto, Marcelo Barros, Leonardo Boff, Ivone Gebara e tantos
outros. Sou da ala de Jesus Cristo.
E aí, lanço aqui a minha bandeira:
Intolerância, estou fora.
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