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terça-feira, 14 de junho de 2016

FESTAS JUNINAS E DEMOCRACIA


Por Marcelo Barros



No momento atual que vivemos no Brasil, a cada dia, os movimentos sociais e o povo mais pobre têm ido às ruas para se manifestar pela Democracia. Em geral, por trás dessas manifestações, está a defesa da Constituição e o apelo para que o voto do povo seja respeitado. No entanto, toda manifestação popular pode ser ensaio de democracia. Um bom exemplo disso é o cuidado com o qual, em quase todo o Brasil, as pessoas preparam e organizam os festejos juninos.

Ainda há quem olhe as festas populares como expressões de mera alienação social. De fato, no tempo do antigo império romano, cada vez que alguma guerra se aproximava, ou uma lei iria tornar a vida mais difícil, os pensadores do império promoviam o que chamavam de “pão e circo”. Essa fórmula vigora até hoje em certos círculos do sistema opressor. Até hoje, jornais televisivos sem compromisso com a transformação do mundo alternam notícias de massacres e crimes com cenas de futebol. Depois de mostrar imagens da seca e fome no nordeste, filmam na mesma região algum forró de São João .

De fato, os festejos juninos têm origens pré-cristãs nas mudanças de estação. Na Bolívia, Peru e Equador, os índios festejam o ano novo andino. No Brasil, o povo faz brincadeiras caipiras, quadrilhas e comidas típicas de cada região. Algumas das danças juninas vieram das cortes da Europa e são hoje o que se chamam “quadrilhas” que ainda usam termos franceses e fazem as pessoas se vestir de caipiras e dançar como a nobreza de outros séculos. Assim, a própria história das festas juninas revela uma democratização de costumes, antes restritos aos nobres e dos quais os pobres se apropriaram. Nos casamentos matutos, figuras como padres e juízes da roça são caricaturadas porque só se interessam por dinheiro e poder. Essas críticas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar, democraticamente, suas críticas e seu protesto social. Mesmo o fato de tomar santos da Igreja Católica, como Santo Antônio, São João Batista e São Pedro para fazer festas que revelam resistência cultural é bom porque liga os santos com a realidade da vida dos pobres de hoje.

Uma consequência positiva da tragédia que é a crise política pela qual o Brasil passa nesses dias é que os movimentos sociais conseguiram superar suas diferenças e se uniram. Não é fácil organizar uma comunidade de bairro ou ajudar as pessoas a pensar criticamente e a criticar as notícias impostas pelos grandes meios de comunicação. Em geral, nos bairros e periferias, as pessoas, crianças, jovens e adultas, se organizam com muita disciplina para ensaiar a quadrilha, preparar as danças caipiras e brincar. As festas juninas revelam que nosso povo tem uma surpreendente capacidade de se organizar,  quando deseja e se o assunto é do seu mundo afetivo. Quem, de fora, vê os ensaios e a eficiência da preparação da festa, muitas vezes, de forma espontânea e sem dinheiro, pode desejar que essa mesma energia de unidade e de organização apareça na caminhada social e política das bases e na direção da luta pacífica para transformar esse mundo.


Mesmo que não seja de forma consciente, ao preparar as brincadeiras juninas, as pessoas revelam uma capacidade de união que não se restringe apenas a uma dança de quadrilha ou uma encenação caipira. Elas se tornam capazes de ensaiar uma sociedade nova na qual todos serão protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, parecem traduzir uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2). 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

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